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Quarta, 7 de abril de 2010, 12h53 Atualizada às 15h05

Quem quer saber de construir pontes?

Thomas L. Friedman
Do The New York Times

Não sou especialista em política americana, mas realmente sei alguma coisa sobre buracos. E, observando a forma como o Partido Republicano está reagindo à aprovação da reforma da saúde, parece-me que o GOP (sigla de Grande Partido Velho, como os republicanos são chamados) está violando a primeira regra dos buracos: "Quando você está em um, pare de cavar".

Sim, eu sei, as pesquisas mostram que o GOP não está sendo afetado por sua estratégia de "apenas dizer não". Mas também não há perspectivas de nenhuma grande mudança de opinião. Os republicanos terão de propor mais do que "apenas dizer não para tudo, exceto para impostos mais baixos e mais perfuração de poços de petróleo" para emplacar um candidato viável para a eleição presidencial de 2012. Eis o motivo:

Se você recuar o suficiente no passado, poderá argumentar que George W. Bush levou a Revolução Reagan - com sua ênfase em corte de impostos, desregulação e "governo como o problema, não a solução" - à sua conclusão lógica e bem além disso. Mas, com um deficit crescente e uma crise bancária causada por um excesso de desregulação, o Reaganismo derreteu o seu limite. Enquanto isso, a aprovação da reforma da saúde do presidente Obama levou a Revolução Franklin Roosevelt - New Deal à sua conclusão lógica. Não haverá benefícios maiores para os americanos. O mercado de títulos se certificará disso.

Em outras palavras, ambos os partidos mais importantes agora completaram suas missões fundamentais do século 20, inicialmente estabelecidas pelos seus líderes icônicos. A questão real é qual partido irá construir a ponte dos Estados Unidos para o século 21 - a ponte que fortalecerá nossa capacidade de competir na economia global, enquanto se pratica muito mais disciplina fiscal.

Obama ao menos está tentando promover uma agenda política para a busca do sonho americano nestas novas circunstâncias. Não concordo com todas as políticas - gostaria de ver muito mais ênfase na inovação e nas pequenas startups (empresas nascentes, associadas a projetos inovadores) -, mas ele, claramente, está tentando. Não tenho a mesma impressão sobre os republicanos e especialmente aqueles articulados em torno do movimento oposicionista ultraconservador Tea Party.

O Obamismo pressupõe que estamos agora em uma economia global hipercompetitiva, na qual o país bem-sucedido será aquele que combinar a mais qualificada, criativa e diversificada mão de obra com a melhor infraestrutura - largura de banda, portos, aeroportos, trens-bala e uma boa administração. E estamos em um mundo com um clima em aquecimento que aumentará de 6,8 bilhões de pessoas para 9,2 bilhões até 2050, portanto, a demanda por energia limpa irá às alturas. Portanto, a TE - tecnologia da energia - será a próxima grande indústria global.

Por isso, o governo é importante. Ele precisa estar incentivando as empresas a construir sua próxima fábrica neste país - num momento em que todos os outros países estão lançando incentivos em seu caminho; precisa estar recrutando imigrantes altamente qualificados; precisa estar estabelecendo os mais altos padrões de educação nacional e financiando a pesquisa básica; precisa estar determinando as regulações de energia adequadas que estimularão mais empresas de tecnologia limpa.

E - algo em que nem democratas nem republicanos avançaram ainda - precisaremos pagar por tudo isso simultaneamente aumentando alguns impostos, reduzindo outros e eliminando alguns serviços para financiar os novos investimentos em infraestrutura e educação necessários. Não podemos mais escapar ilesos de um GOP que quer cortar impostos, mas nunca especifica de quais serviços planeja abrir mão, ou de um partido democrata que quer criar mais serviços taxando apenas os ricos.

"O sistema de saúde foi o ato final do New Deal", argumenta Edward Goldberg, que ensina negócios globais no Baruch College e está escrevendo um livro sobre globalização e política dos Estados Unidos. "O século 21 exigirá um mix de cortes, investimentos, inovação e empreendedorismo superior a qualquer coisa que tenhamos sonhado". Dizer simplesmente que o governo não é a resposta, acrescenta ele, "quando estamos essencialmente envolvidos em quatro guerras" - o Iraque, o Afeganistão, a Grande Recessão e a reorganização da economia americana - é ridículo. Um governo inteligente precisa ser o líder ou o parceiro silencioso em todos esses projetos.

Uma razão pela qual o GOP fracassou em elaborar uma agenda para o século 21 é que a globalização fragmentou o partido. Seu braço multinacionais/Wall Street compreende que precisamos de imigração, livre comércio, tecnologia limpa e apoio governamental para uma melhor infraestrutura e a pesquisa científica que é a fonte da inovação. O grupo do Tea Party se opõe a praticamente tudo isso. Tudo o que une os dois lados é o seu desejo comum por um período de impostos mais baixos.

A globalização também enfraqueceu a base dos democratas junto a operários e sindicatos, mas os democratas absorveram um novo eleitorado criado pela globalização - o que Goldberg chama de "Novocracia - que combina o gerente corporativo da multinacional, o empreendedor e o engenheiro de tecnologia e os membros aspirantes da meritocracia".

Esses "novocratas" antes tenderiam para os republicanos, mas agora muitos se inclinam na direção de Obama. Eles não concordam com tudo o que ele está propondo, mas percebem que ele está trabalhando na ponte para o século 21, enquanto o GOP/Tea Party atual está fora do jogo. Hoje, não temos um verdadeiro partido de oposição com um caminho próprio para o século 21. Temos apenas oposição.

Thomas L. Friedman é colunista do jornal The New York Times desde 1981. Foi correspondente-chefe em Beirute, Jerusalém, Washington e na Casa Branca (EUA). Conquistou três vezes o Prêmio Pulitzer, até que em 2005 foi eleito membro da direção da instituição. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

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