Terra Magazine

 

Sexta, 16 de abril de 2010, 13h46

Da Próxima Vez, o Fogo*

Paul Krugman
Do The New York Times

Na terça-feira, 13, Mitch McConnell, o líder da minoria republicana no Senado, defendeu a abolição dos corpos de bombeiros municipais. Bombeiros, declarou ele, "não resolverão os problemas que levaram aos incêndios recentes. Eles vão piorá-los". A existência de corpos de bombeiros, prosseguiu McConnell, "não apenas possibilita o socorro financiado pelo contribuinte a edifícios em chamas; ela o institucionaliza." Ele concluiu: "a forma de resolver esse problema é deixar as pessoas responsáveis pelos erros que levam aos incêndios pagarem por eles. Não resolveremos esse problema até que se deixe os maiores edifícios pegarem fogo."

Ok, eu viajei um pouco na estória. McConnell disse tudo o que atribuí a ele, mas estava falando sobre a reforma financeira, não sobre a reforma do combate a incêndio. Particularmente, ele estava contestando não a existência dos corpos de bombeiros, mas a legislação que daria ao governo o poder de assumir e reestruturar instituições financeiras falidas. Mas equivale à mesma coisa.

Agora, McConnell certamente não está sendo sincero; enquanto finge se opor aos resgates de bancos, está na verdade fazendo o jogo dos banqueiros. Mas, antes de abordar esse ponto, vamos falar sobre por que ele está errado a respeito do assunto.

Em seu discurso, McConnell parecia estar dizendo que, no futuro, o governo dos Estados Unidos deveria apenas deixar os bancos quebrarem. Nós "devemos colocar um fim nos socorros a bancos de Wall Street" realizados às custas do contribuinte. O que há de errado nisso?

A resposta é que deixar os bancos quebrarem - em vez de intervir e reestruturá-los - é uma má ideia pela mesma razão de que é uma má ideia ficar de fora enquanto um edifício urbano de escritórios pega fogo. Em ambos os casos, o dano tende a se espalhar. Em 1930, as autoridades americanas ficaram de fora enquanto os bancos faliam; o resultado foi a Grande Depressão. Em 2008, ficaram de fora enquanto o Lehman Brothers desmoronava; dentro de poucos dias, os mercados de crédito tinham congelado, e estávamos contemplando o abismo econômico.

Por isso, é crucial evitar o colapso desordenado de bancos, assim como é crucial evitar incêndios urbanos descontrolados.

Desde os anos 1930, tínhamos um procedimento-padrão para lidar com bancos falidos: a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC, agência que garante os depósitos nos Estados Unidos) tinha o direito de assumir um banco que estivesse à beira da falência, protegendo seus depositantes enquanto esvaziava os acionistas. Na crise de 2008, ficou claro que esse procedimento não era adequado para lidar com as instituições financeiras modernas complexas como o Lehman ou o Citigroup.

Por isso, a legislação de reforma proposta dá aos reguladores a "autoridade de resolução", que significa basicamente dar a eles a habilidade para tratar instituições semelhantes ao Lehman da mesma forma que a FDIC trata os bancos convencionais. Quem poderia se opor a isso?

Bem, McConnell está tentando. Os pontos de seu discurso saíram de uma nota que Frank Luntz, o consultor político republicano, colocou em circulação em janeiro sobre como fazer oposição à reforma financeira. "Francamente", escreveu Luntz, "a única melhor forma de assassinar qualquer lei é associá-la ao socorro dos grandes bancos." E McConnell está seguindo essas orientações.

É uma atitude realmente descarada: McConnell está fingindo defender os contribuintes contra Wall Street, enquanto, na verdade, está fazendo justamente o contrário. Nas últimas semanas, ele e outros líderes republicanos tiveram encontros com executivos de Wall Street e lobistas, nos quais o GOP (Grande Velho Partido, como os republicanos são conhecidos) e o setor financeiro procuraram coordenar sua estratégia política.

E posso lhe assegurar: Wall Street não está fazendo lobby para evitar futuros socorros a bancos. Na verdade, está tentando garantir que haja mais socorros. Ao retirar dos reguladores as ferramentas de que precisam para intervir em empresas financeiras falidas, os lobistas do setor financeiro aumentam as chances de que, quando a próxima crise atacar, os contribuintes acabem pagando um resgate para os acionistas e executivos como o preço para evitar o colapso.

Ainda mais importante, porém, é o fato de que o setor financeiro quer evitar uma regulação rigorosa; quer ser deixado livre para adotar o mesmo comportamento que gerou a crise atual. Vale lembrar que, entre os anos 1930 e 1980, não houve socorros financeiros realmente grandes porque a forte regulação manteve a maioria dos bancos longe de problemas. Foi somente com a desregulação da era Reagan que os desastres dos grandes bancos vieram à tona novamente. De fato, em relação ao tamanho da economia, os custos, para o contribuinte, do desastre das instituições de poupança e empréstimos, que se desenvolveu nos anos Reagan, eram muito mais altos do que qualquer coisa que poderia acontecer na administração do presidente Barack Obama.

Para entender o que realmente está em jogo agora, assista à crescente batalha sobre os derivativos, os complexos instrumentos financeiros que Warren Buffett notoriamente descreveu como "armas financeiras de destruição em massa". A administração Obama quer uma regulação mais rígida dos derivativos, enquanto os republicanos se opõem. E isso diz tudo o que você precisa saber.

Portanto, não se deixe enganar. Quando Mitch McConnell denuncia os socorros a grandes bancos, o que realmente está tentando fazer é dar aos banqueiros tudo o que eles querem.

*O título do artigo é uma alusão ao título do livro do escritor americano James Baldwin, The Fire Next Time (Da Próxima Vez, o Fogo).


Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
 
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Mitch McConnell, o líder da minoria republicana no Senado

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