José Pedro Goulart
De Porto Alegre (RS)
Dia desses eu vi um mendigo oferecendo uma flor para uma moça defronte uma vitrina. Mas a moça recusou o gesto. Eu estava longe, atravessando a rua, desviando dos carros que vinham pelo lado direito. Mesmo assim garanto que vi um mendigo; uma moça bonita e bem vestida; e uma flor que ela, surpresa com a abordagem, recusou gentilmente.
A recusa daquela forma delicada era estranha. Pus-me a pensar então que talvez ela não quisesse nutrir uma esperança sem sentido naquele sujeito estranho; que a vida afinal não é um filme e que aquilo não ia acabar bem: daquela flor poderiam vir outras, o que poderia gerar uma mágoa no futuro.
(E então pensei na minha vida. E de como que a gente não faz aquilo que a gente sabe que devia fazer. E que tudo que a gente adia vicia.)
Por outro lado imaginei que talvez ela pudesse ter aceitado a flor. Como forma de coragem. Porque é preciso ter coragem para aceitar uma flor de um arruinado; fácil é quando vem de um príncipe. Sobretudo esse, que não era nenhum Chaplin, um vagabundo de cinema. Esse tinha um aspecto repugnante, ranho no nariz, dentes podres. Contudo ele tinha uma flor. Um passaporte de afeto. Um clichê amoroso da natureza.
Diante disso, talvez ela pudesse chorar. Choraria não por ele, mas por ela. Veria a tristeza que é ter que negar. Porque negar é da vida. Entretanto ela não podia conter a repulsa e o nojo que vinha junto com a piedade. Sofria com isso porque sabia que o mendigo que segurava aquela flor, na mão suja e trêmula, era um homem. Um ser humano. Ou pelo menos um borrão de um. Se é um homem, um dia foi menino, uma criança, teve mãe, pai, e provavelmente irmãos. Uma família. Ou não.
O que o teria feito o mendigo para se tornar mendigo? Loucura, bebida ou excesso de lucidez? Amor perdido, raiva ou desvalia? Incompreensão, solidão, abandono?
Ao par das razões, mendigo é o que ele era. Imagino que dormisse com um cachorro sobre uma caixa de papelão em algum canto perdido da cidade. Que catasse lixo e tivesse um dedo roído por um rato numa noite de bebedeira. E que não lembrasse de nada e nada importasse.
Exceto a moça da vitrina e o que ela lhe despertou quando a viu pela primeira vez. Foi então que ao encontrar uma flor correu apressado. Quis entregar. Mas ela infelizmente não pôde aceitar.
Essa foi a cena que eu vi. Não inventei, asseguro. E descrevo isso porque a tristeza precisa de testemunhos. A tristeza dá sentido à vida.
@ZPgoulart
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