Terra Magazine

 

Terça, 27 de abril de 2010, 07h39

Despedidas de um homem casado

Paulo Rebêlo/Terra Magazine
O cronista Paulo Rebêlo, que já se mudou 14 vezes, comenta as saudades que ficam depois da mudança
O cronista Paulo Rebêlo, que já se mudou 14 vezes, comenta as saudades que ficam depois da mudança

Paulo Rebêlo
De São Paulo (SP)

Não parece, mas toda mudança me parte o coração. Seja de bairro, cidade ou país. Seja em lugares onde morei cinco anos, cinco meses ou até mesmo cinco semanas, como já aconteceu certa vez.

Do dia em que cortaram meu umbigo gordo até hoje, são 14 mudanças de CEP. Com exceção de uma, na qual ainda era muito guri, lembro de todas as outras 13 como se fosse hoje.

Por mais desregrados que tentemos ser, sempre sobra saudade por abandonar as poucas raízes que a gente deixa pelo caminho. E me pergunto se vamos voltar a nos encontrar um dia, nem que seja para um café com bolo de bacia na padaria.

É o garçom no bar da esquina que já se considera um amigo e fala dos problemas domésticos, pede conselhos e sempre lhe consegue um pedaço extra de bife sem cobrar nada.

É o porteiro que está sempre dormindo quando você chega bêbado e fica no meio da rua, esperando ele acordar e abrir o portão, como se nada tivesse acontecido.

É o zelador evangélico que lhe acha um devasso. A secretária que abre um sorriso largo quando lhe vê, por causa do bombom de cupuaçu. A atendente da livraria onde você sempre vai e nunca compra nada, mas troca um alô de vez em quando e compra uma caneta Bic porque elas sempre se perdem.

São as pessoas que, anos depois, ainda se espantam quando você toma café ou suco de limão sem açúcar. Os colegas de trabalho que sempre conseguem lhe arrancar risadas na hora do almoço e nunca se acostumam com seu jeito limão sem açúcar de ser.

O taxista que pergunta "para onde vamos" e você pode simplesmente dizer "para casa". Não por piada, mas porque às vezes a gente realmente não sabe onde está ou para onde ir.

É a cobradora do ônibus que descobriu como você ganha seu pão e sempre pergunta quando você vai entrevistar o pagodeiro Belo e trazer um autógrafo dele. Mas se for do Alexandre Pires (ele ainda vive?) também serve.

É o cabeludo da banca de revistas que deixa você ler quase tudo em troca de umas cigarrilhas holandesas. A faxineira que não entende como você sobrevive em meio aquela bagunça toda e com a geladeira quase sempre vazia.

São as moças bonitas (ou não) que você conhece e, mesmo sabendo que não estaremos ali durante muito tempo, conseguem superar a eterna expectativa do compromisso sério e da casa própria, talvez porque enxerguem alguma coisa em você que provavelmente nenhum dos dois saiba ao certo o que é.

Talvez na esperança que a mudança de hoje seja a última.

Mas ainda há tantas cidades para conhecer, tanta gente com tanta coisa para lhe ensinar. E todas essas pessoas estão em todos esses lugares, tudo sempre igual e tudo sempre diferente ao mesmo tempo.

As histórias podem ser todas iguais, mas são contadas de diferentes maneiras. Difícil saber se, a cada mudança, vamos aprender menos ou mais com elas.

Algumas raízes seguem firmes e fortes, outras se quebram completamente, seja pela morte da esperança de que fosse a última mudança, seja pelo esquecimento de um reles passatempo.

E é sempre uma tristeza, quase um divórcio, quando você contabiliza quantas dessas pessoas vão parar de lhe ver e nunca vão saber o que aconteceu.

Elas vão continuar lhe esperando no bar, no restaurante, na livraria, no interfone da portaria.

E você não vai chegar.

Vai parar de tomar aquele café, de comer aquele bife, de abraçar o porteiro da sua terra quando o Sport Recife ganha uma partida, de brincar com as religiões alheias, de tentar mostrar às jovens donzelas que talvez exista um vasto mundo novo lá fora, que vai muito além de um emprego fixo, um carro na garagem e um homem para chamar de seu.

Mas a gente nunca tem tempo de conferir de verdade se conseguimos ensinar algo também.

E quando você chega em um novo bairro, vizinhança ou cidade, começa tudo de novo.

Quase como um casamento. Você vai descobrindo, aos poucos, aqueles detalhes mais escondidos, aquelas curvas mais sinuosas. Vai criando intimidade com as pessoas que lhe cercam, vai entendendo o modo de pensar delas, as necessidades, frustrações, esperanças.

E enquanto todos se entendem, o casamento dura um bocado. No dia de ir embora e cada um seguir o seu caminho, nem sempre as pessoas vão lembrar de todos os momentos bons que passamos juntos, de tudo que aprendemos um com o outro.

Às vezes fica aquela lembrança boa, aquela saudade gostosa. Às vezes algumas mágoas, quiçá muitas raivas. Mas não haverá despedida, geralmente nunca há. Estamos aqui um dia, no outro deixamos um bilhete. Ou um e-mail.

Daqui a pouco tempo aparece outro viajante, outro eremita, outro limão sem açúcar, outro ranzinza na vida de todas essas pessoas que a gente deixou para trás.

E começa tudo outra vez. Até a hora de ir ali comprar cigarro de novo.


Paulo Rebêlo é jornalista, cronista e consultor.Para saber mais sobre ele, clique aqui . Para ler as crônicas antigas da Hipopocaranga, clique aqui .


Fale com Paulo Rebêlo: hipopocaranga@terra.com.br

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