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Sábado, 8 de maio de 2010, 08h39

História do cinema tem temas que infernizam Igreja Católica

Paulo Nassar
De São Paulo

O cinema, como outras artes, tem suas histórias de enfrentamento da censura, imposta por governos, autoridades, comunidades e instituições poderosas, em virtude de questões religiosas, comportamentais, ou políticas. Antigamente a exibição de um filme dependia das cópias da obra e das salas de cinema. O confisco de rolos e a ameaça de fechamento de salas operavam o sistema de controle sobre o que era julgado ofensivo. E a liberdade de expressão era coibida por grupos políticos à direita ou à esquerda.

Hoje, a liberdade de expressão cinematográfica, que trata de todo tipo de nudez, violência, dúvidas, questionamentos existenciais, de crenças e dos valores estabelecidos, se dá em virtude do fortalecimento da democracia e do enfraquecimento das referências tradicionais como a Igreja Católica que, diante das notícias de pedofilia dentro de suas paróquias, vê ruir seu poder de impor aos produtores de cinema, de Hollywood ou da Vila Madalena, orientações sobre o quê filmar e o quê podemos assistir.

Nos anos 1930, padres norte-americanos influenciavam fortemente a concepção e aplicação do "Código de Produção de Cinema", um documento que especificava, entre outras bizarrices, que "as partes mais íntimas do corpo humano são órgãos sexuais, masculinos e femininos, e os seios de uma mulher"; e que "eles nunca devem ser descobertos e nem cobertos com material translúcido ou transparente". O "Código", então apoiado pela "Legião da Decência", grupo formado por bispos católicos, recomendava limpar e desinfetar a peste de Holly(wood), que infectava o país com seus filmes lascivos e obscenos. Expressões como "vai para o inferno" estavam no index cinematográfico. Em "O Sindicato de Ladrões", 1954, EUA, dirigido por Elia Kazan, o personagem Terry Moran, protagonizado por Marlon Brando, foi autorizado a pronunciar por duas vezes a expressão "infernal", depois de uma negociação intensa com os administradores do "Código de Produção".

Filmes como "Smiles of a Summer Night", Suécia, 1955, de Ingmar Bergman; "Acossado", França, 1960, de Jean-Luc Godard; "A Aventura", Itália, 1960, de Michelangelo Antonioni, e "Blowup", Inglaterra e Itália, 1966; e "Bebê de Rosemary", EUA, 1968, de Roman Polanski, foram condenados pelos santos da "Legião da Decência". O "Código" pairou sobre o cinema dos Estados Unidos até 1968, mas foi muitas e muitas vezes desobedecido. Nas décadas seguintes, os olhos censores da Igreja chegaram, sem grande impacto, em filmes como "Jesus Cristo Superstar", EUA, 1973, de Norman Jewison; "A vida de Brian", Inglaterra, 1979, dos Monty Python; "Je vos salue, Marie", França, 1985, de Jean-Luc Godard; "A última tentação de Cristo", EUA, 1988, de Martin Scorcese; "A paixão de Cristo", EUA, 2004, de Mel Gibson; "O Código da Vinci", EUA, 2006, de Ron Howard.

A lista de filmes heréticos é interminável. E, será aumentada, em breve, com filmes sobre questões que infernizam a Igreja Católica atualmente. Entre elas, a pedofilia.


Paulo Nassar é professor da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Diretor-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE). Autor de inúmeros livros, entre eles O que é Comunicação Empresarial, A Comunicação da Pequena Empresa, e Tudo é Comunicação.


Fale com Paulo Nassar: paulo_nassar@terra.com.br

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Divulgação
Cena do filme "Bebê de Rosemary"

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