Terra Magazine

 

Quinta, 13 de maio de 2010, 09h10 Atualizada às 17h48

Fonoaudióloga vê agressividade em fala de candidatos

Carolina Oms
Especial para Terra Magazine

A pedido de Terra Magazine, a fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller analisa voz e entonação dos pré-candidatos à presidência. Para ela, a petista Dilma Rousseff possui uma voz "ditatorial":

- Sinto que ela tem muita coisa para trabalhar, porque nós falamos com o corpo inteiro e os gestos de mão também são perigosos.

Para a candidata do PV, Marina Silva, falta entusiasmo:

- Eu gosto da Marina, mas é preciso que ela tenha mais entusiasmo para falar. Entusiasmo é uma inspiração divina.

E a fonoaudióloga se diz surpresa sobre a evolução de José Serra (PSDB):

- Eu sinto que o Serra cresceu demais de uns tempos para cá, ele está procurando ser simpático e se preparou para essa campanha.

Por 18 anos, Glorinha Beuttenmüller foi responsável pelo padrão Globo de qualidade no que diz respeito a fala, uniformizando o modo de falar dos jornalistas e auxiliando artistas como Edson Celulari e Fernanda Montenegro.

Atualmente, Glorinha afirma que ajuda políticos e empresários, mas, por motivos éticos, não pode revelar quais. Terra Magazine apurou que, entre os celébres alunos, estão dois ex-governadores, um ex-prefeito e um ex-ministro da Fazenda.

A campanha oficial ainda não começou e os pré-candidatos já apresentam sinais de cansaço diante da agenda intensa. Nas últimas duas semanas, as agendas de José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva tiveram que esperar diante de gripes, dores de garganta e rouquidão resultantes da pré-campanha eleitoral.

Para a fonoaudióloga, os problemas com a voz resultam de agressões e da falta de equilíbrio demonstradas pelos candidatos.

Leia a entrevista.

Terra Magazine - Os três pré-candidatos à presidência já tiveram problemas com a voz, chegando até a cancelar compromissos e entrevistas. Isso é esperado? Onde está a causa desses problemas?
Glorinha Beuttenmüller -
Palavra, linguagem e emoção são tudo uma coisa só, e o político precisa saber ouvir para responder sem agressão. Todo ato de agressão destrói a voz, e a voz é a pessoa. O político precisa ter sempre em mente que ele precisa ter equilíbrio e controle, ou a voz vai sempre falhar. A voz é a personalidade, e a fala é a pessoa. Você observando, vai ver o motivo das rouquidões, qual foi a palavra que ele disse que agrediu a sua garganta. Uma voz verdadeira é aquela que não vai desmentir as suas palavras.

A maioria dos políticos, principalmente ao defender uma opinião, fala gritando, essa é a melhor maneira de se expressar?
Você não pode verticalizar a voz, se você fala alto demais é um grito, uma voz aguda sem freios. Precisa ter controle e equilíbrio para entender o nosso Brasil, o nosso país.

Qual a importância, para um político em campanha, de falar corretamente?
A simplicidade sempre comove mais, isso é o que eu penso. Eu digo que, por exemplo, "este país" é agressivo, é melhor falar "o nosso país". São determinados termos que não se deve dizer, você tem que fazer do seu público, da sua plateia, do seu eleitorado, seus amigos e quererem ouvir a sua verdade. A voz detecta quando nós estamos mentindo.

Quais outros termos seriam "proibidos"?
São muitos... "Eu acho" é ficar em cima do muro, deve-se dizer "eu penso", "eu acredito". O público que agora tem televisão vê a sua imagem fisionômica, e é através da fisionomia que nós damos a modulação da palavra.

Mas o presidente Lula, apesar de ser criticado por falar errado, se comunica muito bem com a população...
Ele tem carisma e sabe se comunicar bem com o público, mas, se nós precisamos que nosso país cresça, a cultura sempre permanece vantajosa. Nós devemos saber falar corretamente para melhorar o Brasil que tem ainda muitos analfabetos.

A senhora defende que a voz demonstra sentimentos. Como a senhora vê, no geral, a maneira de falar de Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva? O que podemos saber deles através da voz?
Sentimentos e sensações. Eu sinto da Dilma uma voz ditatorial, que eu não aprecio. Quando estamos falando com o público devemos procurar dar um abraço sonoro a este público e esse abraço nunca pode ser forte demais nem agressivo. É um movimento de querer bem o eleitorado para que o nosso país cresça e procurar dar, com simplicidade e naturalidade, o nosso recado para aquele eleitorado. Sinto que ela tem muita coisa para trabalhar, porque nós falamos com o corpo inteiro e os gestos de mão também são perigosos.

E o pré candidato do PSDB, José Serra? Recentemente ele discutiu com uma jornalista...
É isso que eu digo, a pessoa tem que saber ouvir e dar a resposta com equilíbrio, embora discordando, não deve haver agressão, porque a agressão é a destruição do homem e da nossa voz, causando rouquidão.
Eu sinto que o Serra cresceu demais de uns tempos para cá, ele está procurando ser simpático e ele se preparou para essa campanha, para poder fazer um Brasil melhor, ele não é um aluno de escola que o outro diz o que ele faz, ele está criando seu próprio método. O Serra me surpreendeu, mas ainda precisa ter o controle para não ser agressivo, como a repórter não deve ser agressiva.

E a Marina Silva?
Eu gosto da Marina, mas deixe-me explicar: a escrita é linear, está sempre dormindo, é morta pra mim, a fala é uma ressurreição da escrita. Então, é preciso que ela tenha mais entusiasmo para falar. Entusiasmo é uma inspiração divina.

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