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Sexta, 18 de junho de 2010, 15h43 Atualizada às 16h13

Não existe lógica por trás das ações do governo dos EUA

Paul Krugman
Do The New York Times

BERLIM - Subitamente, criar empregos saiu de moda, causar dor entrou. Condenar déficits e recusar auxílio a uma economia ainda em luta virou a nova moda em toda parte, incluindo os Estados Unidos, onde 52 senadores votaram contra aumentar o auxílio aos desempregados, apesar da mais alta taxa de desemprego de longo prazo desde os anos 1930.

Muitos economistas, inclusive eu, consideram este passo em direção à austeridade um enorme erro. Traz lembranças de 1937, quando a tentativa prematura de Roosevelt de equilibrar o orçamento ajudou a afundar uma economia em recuperação de volta em uma grave recessão. Aqui na Alemanha, alguns acadêmicos veem paralelos com as políticas de Heinrich Brüning, chanceler de 1930 a 1932, cuja devoção à ortodoxia financeira acabou selando o destino da República de Weimar.

Mas, apesar destes alertas, os pregadores do déficit estão levando a melhor quase em toda parte - e em nenhum lugar mais do que aqui, onde o governo prometeu 80 bilhões de euros, quase 100 bilhões de dólares, em aumentos de impostos e cortes de gastos, apesar da economia continuar a operar muito abaixo da capacidade.

Qual é a lógica econômica por trás das ações do governo? A resposta, no meu entender, é que ela não existe. Pressione as autoridades alemãs para que expliquem por que precisam impor austeridade a uma economia em depressão, e eles dão explicações que não fecham. Observe isto, e eles vêm com outras explicações, que também não fecham. Discutir com pregadores do déficit alemães lembra muito discutir com os pregadores do Iraque americanos em 2002: eles sabem o que querem fazer, e a cada vez que você refuta um argumento, eles simplesmente vêm com outro.

Esta é mais ou menos a conversa típica (isto é baseado na minha própria experiência e na de outros economistas americanos):

Pregador alemão: - Precisamos cortar os déficits imediatamente, porque precisamos lidar com o ônus fiscal de uma população envelhecida.

Americano feio: - Mas isto não faz sentido. Mesmo se vocês conseguissem poupar 80 bilhões de euros (o que não vão conseguir, porque os cortes no orçamento vão prejudicar a sua economia e reduzir a receita), os pagamentos de juros em cima de toda essa dívida seriam menos que um décimo de ponto percentual do seu PIB. Portanto, a austeridade que vocês estão buscando ameaçará a recuperação econômica, ao mesmo tempo que não fará quase nada para melhorar sua posição orçamentária de longo prazo.

Pregador alemão: - Não vou tentar discutir a aritmética. Você tem que levar em conta a reação do mercado.

Americano feio: - Mas como você sabe como o mercado vai reagir? Aliás, por que o mercado seria afetado por políticas que não tem quase nenhum impacto sobre a posição fiscal de longo prazo?

Pregador alemão: - Você simplesmente não entende a nossa posição. O ponto-chave é que enquanto os defensores da austeridade posam de realistas frios, fazendo o que tem que ser feito, eles não podem e não vão justificar sua postura com números de verdade - porque os números realmente não dão suporte à sua posição. Eles também não podem argumentar que os mercados estão demandando austeridade. Pelo contrário, o governo alemão continua podendo tomar empréstimos a taxas de juros mínimas.

Assim, os motivos reais da sua obsessão por austeridade estão em algum outro lugar.

Nos Estados Unidos, muitos que se dizem pregadores do déficit são pura e simplesmente hipócritas: eles correm para cortar benefícios para os necessitados, mas seu receio da tinta vermelha desaparece quando se trata de alívios fiscais para os ricos. Assim, o senador Ben Nelson, que hipocritamente declarou que não podemos arcar com US$ 77 bilhões para ajudar os desempregados, foi essencial para a aprovação do primeiro corte fiscal de Bush, que custou um bom US$ 1,3 trilhão.

A pregação do déficit alemão parece ser mais sincera. Mas ainda assim não tem nada a ver com realismo fiscal. Em vez disso, trata-se de lição de moral e pose. Os alemães costumam achar que ter déficits é moralmente errado, enquanto que equilibrar orçamentos é considerado virtuoso, não interessam as circunstâncias ou a lógica econômica. - Essas últimas horas foram uma demonstração singular de força - declarou Angela Merkel, a chanceler alemã, após uma reunião de gabinete especial ter concordado com o plano de austeridade. E demonstrar força - ou o que é percebido como força - é o que conta.

Haverá, é claro, um preço para esta pose. Apenas parte deste preço será pago pela Alemanha: a austeridade alemã vai piorar a crise na zona do euro, tornando assim mais difícil a recuperação da Espanha e outras economias com problemas. Os problemas da Europa estão também levando a um euro fraco, o que, ironicamente, ajuda a indústria alemã, mas também exporta as consequências da austeridade alemã para o resto do mundo, incluindo os Estados Unidos.

Mas os políticos alemães parecem determinados a provar sua força impondo sofrimento e os políticos ao redor do mundo estão imitando eles.

Qual vai ser a gravidade? Vai realmente ser uma repetição de 1937? Não sei. O que eu sei é que as políticas econômicas ao redor do mundo deram um grande passo em falso, e que as chances de uma recessão prolongada crescem dia a dia.


Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
 

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