Atualizada às 08h46 Lecticia Cavalcanti
Do Recife (PE)
A culinária africana é generosa como a alma de seu povo. Uma mistura de tradições nativas e influências de longos períodos de colonização. Cada lugar tem uma maneira própria de cozinhar. Na Costa do Marfim e na Argélia, por exemplo, se assemelha à francesa; na Etiópia, à italiana; na África do Sul, à inglesa; em Angola e Moçambique, à portuguesa; em Namíbia, Tanganica e Burundi, à alemã. Enfim, "Em África come-se de tudo", segundo Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), presidente de Portugal entre 1923 e 1925. Só para lembrar no fim da vida, e já desencantado, escreveu: "A política, longe de me oferecer encantos ou compensações, converteu-se para mim num sacrifício inglório. Sinto necessidade de voltar às minhas preferências, às minhas cadeiras e aos meus livros". Um sentimento que, passado o tempo, também acompanha muitos outros políticos. Mas essa é outra história.
Certo é que, neste domingo (20), o Brasil enfrentará a Costa do Marfim - "La patrie de la vrais fraternité" (a pátria da verdadeira fraternidade), como lembra seu hino nacional, o L'Abidjanaise (Canção de Abidjan). Os portugueses já andaram por essa terra, em fins do século XV, caçando escravos e elefantes. Depois chegaram os franceses, impondo aos locais sua própria língua - que ainda hoje ali se fala, predominantemente. Não por acaso o país se chama Côte d'Ivoire (Costa do Marfim). Marfim das presas dos elefantes, claro, evocando um tempo em que ainda havia muitos por lá. Hoje se dedica à exportação de abacaxi, banana, cacau, óleo de palma.
Sua culinária reflete as preferências dos muitos povos que andaram por lá. Entre as entradas, destaque para patê de mariscos, avocat (abacate) aux crevettes, escargots. Pratos principais são capitaine (peixe de carne firme, embrulhado em folha de bananeira), baulé (camarão frito na manteiga, polvilhado com pimenta vermelha e flambado com uísque), camarões salteados com alho e salsa (ou enrolados em massa folhada), lagosta grelhada, filet de boeuf grillé, blanquette de vitela, brochettes de poulet, frango com leite de coco, kadjenou (frango cozido com tomates e verduras), frango, carne ou porco com sauce d'arachide (molho de amendoim), pernas de rã (frita com alho e salsa).
Como acompanhamentos, aloco (banana cortada em fatias, fritas em óleo de amendoim e temperadas com molho de pimenta), attieke (espécie de cuscuz de mandioca), arroz, banana, mandioca, milho e batatas fritas (francesas, claro). Mais vegetais: berinjela, cebola, tomate. Como sobremesa, frutas frescas: ananás, coco, mandarina, manga, mangostão, maracujá, papaia, romã, toranja e sobretudo banana, muita, sempre, de todo tipo; mais doces preparados com cacau e nozes, gallet (bola de massa frita coberta de açúcar) e gateau (bolo como pão).
Agora esse país tão simpático vai enfrentar o Brasil. Antes do jogo, nas ruas de sua capital Yamoussoukro, só se ouvirá o nome de seu filho predileto - Drogba, orgulho da raça. E a esperança vã de que um David, de cor diferente, depois de batalhar por 90 minutos, derrote o Golias em que se transforma o Brasil, nas Copas do Mundo. Não vai funcionar. Se Deus quiser. Viva o Brasil!

Torcida marfinense colore as arquibancadas (foto: Reuters)
RECEITA: CAPITAINE COM FOLHA DE BANANEIRA
INGREDIENTES:
4 filés de peixe (de carne branca e firme)
folhas de bananeira
2 tomates
1 cebola
sal e pimenta
manteiga
PREPARO:
- Lave as folhas de bananeira, retire a nervura central e mergulhe em água fervente por alguns minutos.
- Tempere os filés de peixe com sal e pimenta. Coloque cada um deles sobre as folhas de bananeira. Cubra com tomate (sem pele e picado), cebola (picada) e manteiga. Dobre as folhas para formar um embrulho. Feche com palitos. Cozinhe, no vapor, por 30 minutos. Sirva logo.
Fale com Lecticia Cavalcanti: lecticia.cavalcanti@terra.com.br
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