Atualizada às 14h16 Thomas L. Friedman
Do The New York Times
As duras críticas do general Stanley McChrystal* a seus colegas civis não foram profissionais e podem custar-lhe seu emprego. Caso isso aconteça, será um triste final para uma bela carreira. Mas nenhum general é indispensável. O que é indispensável é que, ao envolver os Estados Unidos mais profundamente na guerra do Afeganistão, o presidente Barack Obama tem de ser capaz de responder às questões mais simples de compreensão intuitiva: nossos interesses justificam tal incremento e tenho aliados para chegar à vitória?
Obama nunca teve boas respostas para essas questões, mas seguiu em frente de qualquer forma. A triste verdade é que ninguém na Casa Branca de Obama queria esse reforço de tropas no Afeganistão. A única razão para terem agido foi que ninguém sabia como sair de lá - ou teve a coragem para colocar um ponto final. Não é uma razão suficiente para fazer o país entrar ainda mais fundo na guerra no terreno mais inóspito do mundo. Você sabe que está em apuros quando está em uma guerra em que o único lado cujos objetivos são claros, cuja retórica é consistente e cujo desejo de lutar nunca parece diminuir é o seu inimigo: o Taleban.
Obama não é um especialista em Afeganistão. Poucas pessoas são. Mas essa poderia ter sido a sua força. As três perguntas que ele precisava fazer sobre o Afeganistão eram quase infantis em sua simplicidade. Ainda assim, Obama não fez essas perguntas ou fracassou ao seguir em frente, porque temia ser tachado de fraco pelos republicanos se não o fizesse.
A primeira questão estava oculta à vista de todos: por que temos de recrutar e treinar nossos aliados, o Exército do Afeganistão, para lutar? É como se alguém viesse até você com um plano para recrutar e treinar meninos brasileiros para jogarem futebol.
Se existe algo que os homens afegãos não deveriam precisar ser treinados para fazer, é preparar-se para a guerra. Essa pode ser a única coisa que todos eles sabem como fazer depois de 30 anos de guerra civil e séculos de resistência a forças estrangeiras. Afinal, quem está treinando o Taleban? Eles vêm lutando contra o Exército dos Estados Unidos para um empate negociado - e muitos de seus comandantes não sabem sequer ler.
Não se trata de forma. Trata-se de determinação. Já disse isso antes e vou dizer de novo: o Oriente Médio apenas faz você sorrir quando começa com eles.
O acordo de paz de Camp David começou com os israelenses e egípcios se reunindo secretamente - sem nós. O processo de paz de Oslo começou com os israelenses e palestinos se reunindo secretamente - sem nós. O despertar da tribo sunita no Iraque contra as forças pró-al-Qaida começou com eles - sem nós. Quando começa com eles, quando eles assumem a posse, nosso apoio militar e diplomático pode ser um grande multiplicador, como vimos no Iraque e em Camp David.
A posse é tudo nos negócios, na guerra e na diplomacia. As pessoas lutarão com pedaços de pau e pedras e sem nenhum treinamento por um governo do qual elas sentem que têm posse. Quando eles - israelenses, palestinos, afegãos, iraquianos - assumem a propriedade de uma escolha política, tudo é possível, especialmente a coisa mais importante: o que é construído se torna autossustentável sem nós.
Mas, quando queremos isso mais do que eles, nada é autossustentável, e eles vão nos explorar por tudo o que merecemos. Simplesmente não vi um "despertar" afegão em áreas sob o controle do Taleban. E sem isso, em uma larga escala, nada que construirmos será autossustentável.
O que leva à segunda pergunta: se nossa estratégia é usar as forças dos Estados Unidos para limpar o Taleban e ajudar os afegãos a implantar um governo decente, para que possam manter o que foi limpo, como isso poderá ser feito quando o presidente Hamid Karzai, nosso principal aliado, frauda abertamente a eleição e nós fingimos não ver? A secretária de Estado, Hillary Clinton, e outros na administração nos disseram para não nos preocupar: Karzai teria ganhado de qualquer maneira; ele é o melhor que pudemos conseguir; ela sabia como lidar com ele, e ele mudaria.
Bem, espero que isso aconteça. Mas minha intuição diz que, quando você não chama as coisas pelo seu verdadeiro nome, você está em apuros. Karzai roubou a eleição, e nós dissemos: tudo bem, iremos construir um bom governo com a ajuda da máfia de Cabul.
O que leva à terceira pergunta simples, aquela que me tornou o maior opositor a esse reforço no Afeganistão: se vencermos, o que venceremos? No Iraque, pelo menos, se finalmente produzirmos um governo democrático decente, teremos, a um enorme custo, mudado a política em uma grande capital árabe no coração do mundo árabe-muçulmano. Isso pode ter uma ampla repercussão. Mude o Afeganistão a um custo enorme e você terá mudado o Afeganistão - ponto final. O Afeganistão não repercute nada.
Além disso, a al-Qaida hoje está no Paquistão - ou, pior, na alma de milhares de jovens muçulmanos de Bridgeport (Connecticut) a Londres conectados pelo "Afeganistão Virtual": a internet. Se as células da al-Qaida retornaram ao Afeganistão, poderiam ser enfrentadas por meio de aviões teleguiados, ou forças especiais alinhadas com as tribos locais. Não seria perfeito, mas perfeito não está no cardápio no Afeganistão.
Meu ponto principal: o presidente pode trazer Ulysses S. Grant** de volta dos mortos para travar a guerra do Afeganistão. Mas, quando você não consegue responder às mais simples questões, é um sinal de que você está em algum lugar onde não quer estar e de que suas únicas escolhas reais são perder cedo, perder mais tarde, perder muito ou perder pouco.
* O posto do general Stanley McChrystal, principal comandante americano no Afeganistão, entrou em xeque nesta semana após a divulgação de uma reportagem da revista Rolling Stones em que ele faz declarações polêmicas sobre o presidente Barack Obama e assessores.
** General americano que liderou as tropas nortistas na Guerra da Secessão e foi presidente dos EUA entre 1869 e 1877.
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Reuters
Para Friedman, Obama nunca teve boas respostas para as principais questões do Afeganistão, mas seguiu em frente de qualquer forma
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