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Quarta, 30 de junho de 2010, 14h31

A bolsa de valores palestina é uma verdadeira revolução

Thomas L. Friedman
Do The New York Times

Ei! Tenho uma dica de investimento. Quer? O índice Al-Quds.

O que é isso? É a bolsa de valores palestina, a PSE. Com sede em Nablus, na Cisjordânia, o índice Al-Quds está tendo um ano muito bom - e aí começa nossa história.

"Ela superou as bolsas de valores da maioria dos países árabes", declarou Samir Hulileh, CEO da Palestine Development and Investment, que controla a bolsa. A PSE estabeleceu-se em 1996 com 19 empresas e agora tem 41 - e mais oito devem entrar neste ano. As empresas listadas nela incluem o Banco Comercial da Palestina, o Centro Cirúrgico Nablus, a Empresa Elétrica da Palestina e os Shopping Centers Árabes Palestinos. "A maioria está com seus preços abaixo de seu valor real por conta do risco político", declarou Hulileh. Portanto, se você não se importa com um pouco de volatilidade, há um grande potencial lá. Sem dúvidas, logo será criado um ETF - um fundo de ações - que se mantém atualizado com o índice Al-Quds para que você possa ficar nos Estados Unidos controlando tranquilamente a situação da Palestina.

A expansão do índice Al-Quds é parte de mudanças mais amplas que iniciaram na Cisjordânia nos últimos anos com a liderança do primeiro-ministro Salam Fayyad, ex-economista do Banco Mundial que deflagrou uma verdadeira "revolução" palestina. É uma revolução baseada na construção do potencial palestino e instituições que não apenas resistem à ocupação de Israel, com base na teoria de que os palestinos podem construir uma economia de verdade, uma força de segurança profissional e uma burocracia de governo transparente e eficiente - logo será impossível para Israel negar aos palestinos um estado próprio na Cisjordânia e territórios a leste de Jerusalém.

"Preciso admitir que nós, do setor privado, mudamos", disse Hulileh. "Antigamente só conseguíamos reclamar e dizer que não podíamos faze nada. E então os políticos tentaram criar uma atmosfera de resistência, e resistência significava que não haveria desenvolvimento sob ocupação".

Fayyad e seu chefe, o presidente Mahmoud Abbas, mudaram isso. Agora, conta Hulileh, sentimos que o progresso da economia palestina "é o que nos permitirá resistir e nos tornará inabaláveis. Fayyad nos disse: 'Vocês, a comunidade empresarial, não são responsáveis por dar um fim na ocupação. A sua responsabilidade é empregar o povo e preparar a estrutura para o estado. E isso significa que vocês precisam fazer parte do mundo globalizado, exportar e importar, de forma que quando o estado chegar não haja lixo embaixo do tapete. Vocês estarão prontos'".

Quando nos encontramos em seu escritório em Ramallah há duas semanas, Fayyad me pareceu otimista. O economista que virou político parece mais à vontade em meio a seu eleitorado na Cisjordânia, onde ele sedimentou sua popularidade construindo poços artesianos e novas escolas - acabando assim com as duplas jornadas - e uma unidade de tratamento de água. Os membros mais antigos do exército israelense declararam que a força de segurança montada por Fayyad é de primeira linha - tanto que Israel removeu a maioria de seus postos dentro da Cisjordânia. Dessa forma, o comércio e os investimentos estão começando a crescer e alguns moradores de Gaza já estão se mudando para lá. "Pode ser que estejamos próximos de um acordo", disse Fayyad.

O esforço de construção do estado da dupla Abbas-Fayyad ainda é frágil e depende de um pequeno time de tecnocratas, elites de empresários palestinos e em uma nova força de segurança profissional. Quanto mais esse time crescer, mais ele desafia e será desafiado por alguns radicais do Fatah na Cisjordânia ou do Hamas em Gaza. Mas é a última esperança de uma solução que permita a existência dos dois estados, então ela precisa ser apoiada.

A coisa mais importante que o presidente Barack Obama pode fazer quando se encontrar com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no dia 6 de julho, é encorajá-lo a ceder o controle das maiores cidades palestinas da Cisjordânia gradualmente para a autoridade palestina, para que Fayyad possa mostrar a seu povo, como ele mesmo diz, que está construindo um estado independente, "e não um exercício de adaptação a uma ocupação permanente" - e para que Israel possa testar se as novas forças de segurança da Palestina podem mesmo manter a paz sem a intervenção de Israel. Nada poderia reforçar o movimento de Fayyad ainda mais.

O que me espanta, no entanto, é como a atuação de Fayyad deixa árabes e israelenses desconfortáveis. Para os árabes adeptos da ideia de que os palestinos são vítimas permanentes, para sempre envolvidos em alguma "luta armada" heroica para recuperar a dignidade palestina e árabe, a construção metódica do estado proposta por Fayyad parece ilegítima. Alguns árabes, infelizmente, são contra e apenas os Emirados Árabes ofereceram ajuda financeira.

E para os israelenses da direita, especialmente os líderes de assentamentos na Cisjordânia, que acreditam que não há palestinos responsáveis e lutam para manter o status quo, Fayyad é uma ameaça séria. Akiva Eldar, colunista do jornal israelense Haaretz, descreveu esse grupo perfeitamente outro dia dizendo que "não há como acabar com a oposição árabe. Ou, como escreveu o poeta Constantine Cavafy em 'À espera dos bárbaros'... : 'E agora, o que será de nós sem os bárbaros? / Eles, aquelas pessoas, eram uma forma de solução'".

Thomas L. Friedman é colunista do jornal The New York Times desde 1981. Foi correspondente-chefe em Beirute, Jerusalém, Washington e na Casa Branca (EUA). Conquistou três vezes o Prêmio Pulitzer, até que em 2005 foi eleito membro da direção da instituição. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
AP
O presidente palestino Mahmoud Abbas

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