Terra Magazine

 

Quinta, 1 de julho de 2010, 08h07 Atualizada às 13h50

Roger comenta boato sobre PSDB proibir música do "Ultraje"

Ana Cláudia Barros


(foto: Reinaldo Marques /Terra)

A "notícia" parecia improvável, com jeitão e cara de boato, mesmo assim, desafiando o senso crítico, espalhou-se pela internet até se transformar no mais recente capítulo da "guerrilha virtual" travada entre tucanos, petistas, simpatizantes e afins.

O marco zero da confusão aconteceu quando o site de humor Notícias Globais - "O jornal com a credibilidade que você merece" - decidiu "informar" que o PSDB havia entrado com uma representação junto ao TSE, pedindo a proibição da música "Eu gosto é de mulher", da banda paulistana Ultraje a rigor, durante a campanha eleitoral. O motivo? A frase "mulher pra presidente", que aparece na canção.

Com ares de verdade, o boato começou a fazer jus à fama, causando rebuliço na rede ao ser amplamente reproduzido por blogs e no Twitter. E a brincadeira não pegou somente os incautos. Houve muita gente experimentada que também acreditou que os tucanos realmente consideraram a música uma espécie de mensagem subliminar a favor de Dilma Rousseff (PT).

Um deles foi o próprio Marcelo Branco, coordenador da campanha da candidata petista nas redes sociais. Na manhã desta terça-feira (30), ele chegou a postar em sua página do microblog:

@MarceloBranco Absurdo: PSDB pede censura p música do Ultraje a Rigor "Mulher dona-de-casa, mulher pra presidente"

No post, Branco ainda disponibilizou o link do site Jus Brasil, especializado na cobertura de assuntos jurídicos, que reproduziu o texto da página "Midiamax, O Jornal Eletrônico do Mato Grosso do Sul". Minutos depois, ao descobrir que se tratava de uma brincadeira, ele escreveu no Twitter:

@MarceloBranco É FAKE galera!!: PSDB pede censura p música do Ultraje a Rigor "Mulher dona-de-casa, mulher pra presidente"

Outro que reproduziu a "informação" foi o jornalista Paulo Henrique Amorim. Em seu blog Conversa Afiada, ele publicou texto, extraído do Blog da Dilma e intitulado "Tucano não gosta de mulher". E explicou: "Conversa Afiada achou muito engraçado e reproduz post do Blog da Dilma".

A assessoria de comunicação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esclareceu que não havia representação do PSDB com intuito de proibir a música. Terra Magazine conversou com o vocalista do Ultraje a Rigor , Roger Moreira, autor da música, que virou pivô de toda a história. Roger conta ter se surpreendido ao entrar na manhã desta terça em sua página no Twitter e se deparar com uma enxurrada de mensagens sobre o assunto. Mesmo com o transtorno, ele considerou a piada divertida e ficou perplexo com credulidade das pessoas.

Confira a entrevista

Como você ficou sabendo da piada?
Roger Moreira -
Eu me cadastrei no Google para procurar matérias sobre o Ultraje. Então, recebi por e-mail. É justamente a incapacidade do pessoal de checar. É meio paradoxal. É tão fácil achar uma informação hoje em dia. Ou a pessoa não sabe selecionar ou a pessoa não se aprofunda no assunto.

Quando você viu a notícia, qual foi sua primeira reação?
Fui checar. Aí, vi que era um site de notícias falsas.

E o que você achou da brincadeira?
Achei divertido. Na hora, eu mesmo postei o link da matéria no Twitter. Um ou outro estranhou. Isso faz uns três dias que saiu. Hoje, quando entrei no Twitter, pensei: "Nossa, o que está havendo?"

Você viu que até o Marcelo Branco tuitou, mas em seguida informou que era fake?
Ele tuitou ou resolveu usar a favor dele(risos)? Hoje, quando acordei, fui dar uma checada no Twitter. Pô, tinha gente me atacando dos dois lados(risos).

É mesmo?
Os kamikazes de esquerda falando, "Ah, está vendo?" Agora, eu não discuto tanto... Mas tem um pessoal que é muito radical. É aquele velho discurso: ou você concorda ou se não concorda é reacionário, de direita. É um discurso muito raso, sem embasamento, uma tática milenar de desqualificar a pessoa ao invés de apresentar argumento. Uma tática descrita no livro A arte da guerra (de Sun Tzu).
Então, no começo, eu ainda entrava em embates pessoais. Aí, falei: "Ah, esquece, os caras já são catequizados e não vão mudar de ideia. Mas o fato é que tinha gente do PSDB falando: "Pô, qual é, está apoiando a Dilma? Você não é tucano?" Nem um nem outro. Não enche o saco.

Foram as muitas mensagens?
Tantas que não dava tempo de ver. Enquanto estava lendo uma, ia pingando, atualizando, mudando a página. Uma em seguida da outra. E tinha, claro, os do meio, os mais esclarecidos. Eu mesmo fui lá, falar. Mas você acaba de escrever e o outro vem e escreve de novo. Continua essa falta de pesquisa. Não sei se é imediatismo, porque se o cara olhasse alguns tweets abaixo, veria que estava escrito: "Isso é fake, piada, não leve a sério".

Você se surpreendeu com o fato de as pessoas terem acreditado tão piamente em algo que, de cara, parecia improvável?
É um pouco de ignorância. Simplesmente porque está escrito na internet, que é uma coisa "super confiável" (risos). Eu não me incomodei nem um pouco com a piada.

E em relação à proporção tomada pelo boato?
Hoje eu me surpreendi. Falei: "O que está havendo?" Vi que estava em um dos blogs da Dilma. Não posso acreditar que foi sem querer. Eu mesmo fui no tal do blog e falei que estava aguardando moderação.

Na sua opinião, o episódio acabou sendo usado na "guerrilha virtual" que está marcando esta corrida eleitoral?
Pois é. Não é a primeira vez que isso acontece com pessoas públicas no Twitter. Mas eu, graças a Deus, tenho credibilidade muito boa, conquistada ao longo dos anos.

 

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol