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Quinta, 8 de julho de 2010, 21h08 Atualizada às 21h59

Ziraldo: "Se Nani for processado, vou depor a favor dele"

Claudio Leal

Em 1974, ao tomar posse na presidência da República, o ditador Ernesto Geisel citou a Arena, partido de sustenção do regime militar, em seu discurso. Piscadela. No Congresso, correram de enxurro mais de 50 discursos de parlamentares, em comemoração ao afago presidencial. Diante da prancheta, Ziraldo pensou: "Essa Arena é uma prostituta!". E desenhou uma eufórica rameira na rua, com o nome da Arena escrito na saia, gritando: "Ele sorriu pra mim... Ele sorriu pra mim...".

Deu M... para Ziraldo.

"Foi a minha charge que mais repercutiu. Chamei a Arena inteira de prostituta. E a Arena não me processou", recorda-se o cartunista, fundador do legendário "Pasquim".

De volta à esquina. O PT estuda entrar com um processo contra o cartunista Nani, depois da publicação de uma charge que compara a montagem do programa de governo de Dilma Rousseff a uma negociação de prostituta. "Charge canalha merece repúdio geral. Humor e crítica nada tem a ver com ofensa moral", atacou o coordenador de comunicação da campanha petista, Rui Falcão.

Terra Magazine apurou que o PT consultou advogados para processar Nani por danos morais, na área criminal. O presidente do PT, José Eduardo Dutra, não atendeu aos telefonemas da reportagem, na noite desta quinta-feira, 8. Mestre do cartum brasileiro, Ziraldo defende o direito do humorista de criticar a candidata, mas avisa: "Mineiro não mete a mão em cumbuca".

- Achar que ele está chamando a Dilma de prostituta é querer caçar chifre em cabeça de cavalo. Segundo eu sei, Nani é do meu time. Nós podemos achar a Dilma esquisita, mas nós gostamos do Lula. Eu diria: fazer piada com todos os candidatos é um direito de todos os chargistas. O político não deve passar recibo. Ninguém quer desrespeitar a figura hierática da Dilma. É piada, porra. Amo o Nani. Acho de mau gosto, mas, se houver o processo, vou depor a favor do Nani.

José Eduardo Dutra viu "baixaria" no desenho. "Bons tempos aqueles em que os chargistas políticos brasileiros eram reconhecidos pela inteligência e não pela baixaria preconceituosa", declarou o petista no Twitter.

Em seu microblog, a ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina (PSB) acusou o chargista de "machismo": "Nós, mulheres, nos sentimos profundamente desrespeitadas com a grosseria machista postada no blog contra a candidata Dilma Rousseff".

Eles não sorriam pra Nani.

"O humorista não atira para matar. Precisamos ter humor pra lidar com os fatos. O brasileiro ama fazer isso. A charge não tem essa importância. O humor vai mal no Brasil. Estamos aprendendo a rir", avalia Nani. "Como diz o escritor mineiro Wander Pirolli, 'quem não ri, não presta'".

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Reprodução
Charge de Ziraldo, em 1974: a Arena rodando bolsinha

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