Terra Magazine

 

Terça, 20 de julho de 2010, 08h56 Atualizada às 16h07

Deputado que "se lixava": Me importo com a opinião pública

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O deputado federal Sérgio Moraes, do PTB gaúcho, que polemizou sua relação com a opinião pública
O deputado federal Sérgio Moraes, do PTB gaúcho, que polemizou sua relação com a opinião pública

Eliano Jorge

Para o Brasil inteiro, ele se resumiu ao deputado que se lixava para a opinião pública, nas suas próprias palavras. Ficou rotulado por sua frase aparentemente lapidar, apesar de inúmeras outras - menos ou mais sinceras - em cerca de 30 anos como vereador, prefeito e parlamentar. Candidato ao oitavo mandato, Sérgio Moraes, do PTB gaúcho, não retira nada do que já disse, mas garante se importar com a tal opinião pública. "É evidente que sim".

Quanto às declarações marcantes, acrescenta algumas novas, em entrevista a Terra Magazine, repassando suas recentes polêmicas. Acredita até ter se fortalecido por elas, por mais negativas que sejam. Como no suposto aumento de popularidade atribuído ao discurso de "se lixar", em que, aliás, ele alega ter sofrido edição televisiva e enxerga uma conspiração.

Moraes ainda aponta uma manipulação revanchista do colega ACM Neto (DEM-BA), a quem acusa de "menino mimado". Próximo ao estilo do conterrâneo treinador Dunga, o deputado vive às turras com a mídia, detona os jornalistas, além de pregar o trabalho, a transparência e o comprometimento.

Casado com a prefeita de Santa Cruz do Sul, Kelly Moraes, e pai do vereador Marcelo Moraes, ele anuncia para breve sua aposentadoria, cansado da carreira política, embora se declare "candidatíssimo" a permanecer no cargo.

- A gente trabalha que nem um louco, que nem um condenado. Apanha, ganha pouco... Eu particularmente acho que ganho muito pouco, pelo tanto que eu trabalho, né, tchê?

De salário, um deputado federal embolsa R$ 16.512. A Cota por Exercício de Atividade Parlamentar varia de R$ 23.033 a 34.258,50, para despesas com o trabalho, como combustível e passagens aéreas.

Lei a entrevista.

Terra Magazine - O senhor é candidato este ano?
Sérgio Moraes -
Sou candidato, sim. Candidatíssimo. A deputado federal.

Quais são os principais pontos da sua plataforma de campanha?
Os mesmos de sempre: o pequeno produtor, de que sempre fiz a defesa; trabalhando na saúde, que é outro ponto alto meu; ajudar as pequenas prefeituras, pois sou campeão na liberação de recursos. Enfim, aquele velho trabalho de quase 30 anos de estrada.

O senhor ficou famoso ao dizer que estava se lixando para a opinião pública. Teme que isso atrapalhe sua candidatura?
Não, o povo compreendeu perfeitamente que não foi para o povo que eu me manifestei. Todo mundo sabe disso, minha região sabe. E aliás, na minha pesquisa interna, aumentou o número (de popularidade) depois de toda essa polêmica, que o povo percebeu que foi editada só a parte que interessou. Tudo o mais que falei não saiu, né?

E o que foi mais que o senhor falou?
O desacerto começou porque, naquela época, foi televisionado um programa pela Globo, acusando de trabalho infantil os fumicultores que eu defendo. E a Globo, na verdade, estava completamente certa porque eu também sou contra o trabalho infantil, porém esqueceu de dizer que eles também usam trabalho infantil nas novelas. E, quando eu disse isso, caiu a casa, vieram pra cima de mim com tudo.

Então essa polêmica deu uma popularidade ao senhor? As pessoas procuraram saber quem era o senhor?
Na verdade, o tempo vai mostrar isso: a população já não acredita nessas notícias de imprensa. Por exemplo, acredita neste caso do Ismael, que matou a mulher, o goleiro não sei o quê. Mas essas coisas assim, quando é uma coisa forçada, a população consegue perceber que foi forçado pela imprensa, não cola. Qualquer coisa que tu tentas forçar muito não funciona.
Como a imprensa fez aquele escândalo, meu Deus, a nível nacional, parecia que tinha terminado o mundo, o povo em casa logo viu que esse negócio não merecia um destaque desse tamanho e que tinha uma coisa enrustida nisso. E com isso eu passei a ser, digamos, defendido pela comunidade que me elege há mais de 30 anos e conhece meu trabalho.

O senhor então se importa com a opinião pública?
É evidente que sim.

Outra declaração sua é que, embora os jornalistas batam no senhor, não impedem sua reeleição. Nunca bateram tanto quanto recentemente. Existe alguma possibilidade de, desta vez, o senhor não se reeleger?
Urna, ninguém conhece dentro. Só conhece depois que abrem os votos. Mas se há alguma coisa de que não tenho medo é de urna. Aliás, eu gosto demais de urna. Tanto é que fui contra a lista fechada porque, se fosse assim, eu me ficaria eleito o resto da minha vida. E isso, pra mim, não me serviu porque sou sempre o mais votado aqui e isso me daria a preferência, ou seja, a primeira cadeira seria minha. E, com isso, eu acho que o eleitor ficaria impedido de me substituir ou de se manifestar na urna qual era o seu desejo. Então eu não aceitei a lista partidária porque eu gosto e quero a urna. Não tenho medo dela.

Essa polêmica da opinião pública também estava relacionada ao julgamento da Câmara sobre o deputado Edmar Moreira (DEM-MG)...
Pois aí é que tá, ali foi outro fato. A notícia saía assim nas entrelinhas e todas as pessoas entendiam que o Edmar havia desviado dinheiro na Câmara e feito um castelo com 23 ou 25 milhões (de reais). Só que todo mundo sabia que ele tinha aquele castelo há mais de 20 anos. Inclusive, (isso) o fortaleceu demais na região dele porque as pessoas de lá diziam: "Pô, mas que absurdo! Este castelo tem 20 anos, não foi roubado da Câmara, não foi desviado!".
A imprensa não se dava conta de que estava fazendo uma notícia que, fora da região do Edmar, o agredia e desmoralizava, mas logo as pessoas da região dele viam que ele estava sendo vítima. E tanto é verdade isso que ele foi absolvido em todos (os processos), inclusive pelo Tribunal e Contas da União. E todo este barulho foi porque o ACM Neto (deputado do DEM-BA), inconformado com a derrota que teve no cargo da Mesa (Diretora da Câmara) para o Edmar, ficou descontrolado, menino mimado, partiu para o ataque, convenceu a mídia a ir atrás e moeram o Edmar. Depois o Edmar foi absolvido em todos os pontos e o que aconteceu? Ficaram todos desarmados, sem poder falar.

Também noticiaram que uma estátua de São João Batista, construída pela administração municipal da sua esposa em Santa Cruz do Sul, teria o rosto inspirado no senhor...
A verdade é que sou muito polêmico porque digo as coisas que penso. E doa em quem doer. Não tenho medo de dizer absolutamente nada. E isso, às vezes, me custa um pouquinho caro, mas, por outro lado, eu tenho meus seguidores que me admiram justamente porque digo aquilo que sinto. Sobre a história do santo, que não está construído em lugar nenhum - e é uma pena porque deveria -, o João Batista é o padroeiro da nossa cidade. A catedral São João Batista, que é a maior em estilo neogótico da América Latina, tem esse nome há mais de 100 anos.
Bueno, a prefeita da cidade resolveu construir uma estátua, um ponto turístico, homenageando os 100 anos da catedral. Um desses gênios da imprensa olhou para a imagem do santo e concluiu que era parecido comigo porque o santo usa barba e eu também uso. Bastou essa frase e a história entrou por este caminho. A prefeita simplesmente desistiu de construir e quem perdeu foi o povo. Era um dinheiro federal, que estava aprovado, liberado, e acabou indo para outra cidade, para construir outra imagem. O jornalista que caiu nessa é um idiota. Uma bobagem, uma frescura, sem pé nem cabeça, e virou uma polêmica.

O senhor já chegou a processar algum jornalista por causa desses episódios?
Eu tenho um processo contra a (Revista) Veja. Que, daqui a pouco, vai ser julgado. Processo por calúnia e difamação, danos morais. Os demais, eu nem quis processar porque sinceramente falaram tanta bobagem que a própria população diz pra mim nas ruas: "Sérgio, é lógico que isso não é verdade". Então isso me fortalece. Andei fazendo palestras por universidades de Jornalismo e digo que a imprensa está ficando desacreditada por estas besteiras: "A pessoa falou isso, mas vamos tentar fazer parecer que falou aquilo, vamos tentar jogar". Isso não pega mais, hoje o povo lê e já sabe que não é (verdade). Não funciona mais.
Por exemplo, o CQC. Tenta desmoralizar, ridicularizar. A audiência deles está caindo porque as pessoas não são bobas e veem que ali é editado. Que a pergunta é feita e, quando a pessoa vai responder, existe um corte. As pessoas têm conhecimento disso e acabam desprezando aquele tipo de programa e vão olhar outra coisa com seriedade. Pretendo me afastar logo, logo da vida pública, mas ainda vou ver a imprensa cair na real e dar conta de que está agindo de forma equivocada quando passa a emitir opinião. Agora, começa a fazer jogo de palavras, edição do que foi dito, faz parecer que o sujeito disse outra coisa.

O senhor também teve um problema com o pessoal do CQC, não?
Eu peguei o (repórter Danilo) Gentili beijando um outro homem no banheiro. E, quando eu perguntei isso, ele desconversou em três momentos. Eu o enquadrei três vezes. Ele tentando fazer um deboche de mim, só que ele não esperava que eu tinha assistido a uma cena dele.

Assistiu onde? No banheiro do Congresso?
Não, pergunte pra ele, ele sabe qual é o banheiro em que o vi beijando outro homem. Eu o intimei, ele desconversou. Eu tenho a gravação (do diálogo no CQC). Na semana seguinte, ele pegou uma foto minha e foi pra Parada Gay, em São Paulo, e me acusava de ser contra os gays. Espera aí, não sou contra gay nenhum, não tem discriminação nenhuma. Quem discriminou foi ele, que, em quatro paredes, tem uma postura e, quando intimado em público, desconversa e foge do assunto. Ele é que tem preconceito, eu não tenho nenhum.

Mas o senhor acabou partindo para o lado pessoal, quando ele lhe fazia perguntas?
Ele perguntou a mim se eu e o Edmar Moreira botaríamos uma boate, um bordel lá naquele castelo, e eu disse: "E a tua mãe vai inaugurar". E fui pra dentro do banheiro. Quando saí, olhei pra ele e disse: "Ah, lembrei de ti, agora sei quem tu és, aquele cara que peguei beijando um homem no banheiro". Aí ele desconversou e começou a fazer deboche, que gaúcho era viado, não sei o quê. Respondi algumas perguntas pra ele e, de novo, disse: "Fala pro povo aí que tu estavas beijando um homem no banheiro". Ele desconversou três vezes. Isto tudo foi pro ar. Não fui eu que editei, foram eles.
Dois ou três meses depois, veio alguém do CQC: "Deputado, agora parou, não vamos brigar mais, o senhor retira aquela acusação que o Gentili estaria beijando um homem". Não retiro nada do que falo, o que falo é pra sempre. Não sou homem de duas conversas.

Mas o senhor retirou sua frase sobre se lixar, agora diz que se importa com a opinião pública...
Espere aí, eu disse que estava me lixando naquele momento. Eu não podia negociar alguma coisa sob pena de, se eu negociasse, não estaria na opinião pública. Ou seja, se eu aceitasse a queixa contra a Globo, eles me perdoariam. Se não, eles me jogariam contra a opinião pública. Eu disse: "Amigo, não retiro absolutamente nada. Tô me lixando pra ti, pra teu jornal, pra tua televisão, pra opinião pública, não retiro. Nasci sem mandato e vivi com honras, vou morrer com honras; mandato, se tenho ou não, não é problema meu". Então não retirei absolutamente nada. Porque, na verdade, era um negócio que queriam fazer comigo. Se eu tiver que me vender para ter a opinião pública do meu lado, eu prefiro que ela esteja contra mim, mas eu com a verdade. E de cabeça erguida.

Sobre as acusações de ter um prostíbulo...
Fui totalmente inocentado porque não era verdade. Fui julgado e inocentado. Ganhei em todas as instâncias.

Também foi acusado de receptar joias, telefonar para o disque-sexo...
Não. O telefonema pro disque-sexo foi o seguinte: um telefone público tinha ligações para o disque-sexo, mas, ora, se alguém, na frente do teu trabalho, discar de um orelhão para o disque-sexo és tu o responsável? Me acusaram porque este telefone público estava na frente de um armazém que era do meu pai, que já tinha falecido, o armazém não era mais dele e não tinha mais nada a ver com a gente. Aí alguém, por maldade, pegou e acusou a mim. Ora, se eu preciso a um telefone público pra discar pra disque-sexo, se tenho meu próprio telefone se eu quiser discar.

O senhor falou que pretende deixar a vida pública em breve. Vai fazer o quê?
Ah, tchê, eu moro no interior, aliás nem tenho casa na cidade. Sempre morei no interior, sempre tive propriedade no interior. Eu pretendo ficar alguns anos retirado, vivendo a minha vida, cuidando das minhas coisas, sem precisar estar nesta pressão que enlouquece, trabalhando as horas que a gente trabalha. Outro dia, a gente estava discutindo na Câmara 40 horas, 44 horas, 42 horas semanais. Eu disse: "Olha, com 70 horas semanais, eu fecho (acordo), pra mim está bom". Se me derem a oportunidade de trabalhar só 70 horas, está de bom tamanho porque a gente trabalha que nem um louco, que nem um condenado. Apanha, ganha pouco...

"A gente" são os políticos?
É, eu particularmente acho que ganho muito pouco, pelo tanto que eu trabalho, né, tchê? Só para tu ter uma ideia, essa madrugada, acordei às 3h da manhã, lá em Buenos Aires, tinha ido defender a minha região, os meus produtores, um frio de louco, indo para aeroporto, chego em Porto Alegre, não dá tempo de almoçar, corre para uma audiência em Santa Cruz. Então, isso é uma loucura, não tenho mais idade para isso, tenho 52 anos, meu amigo. Isso chega a um ponto que não vale mais a pena, tchê.

O senhor também afirmou que não valia mais a pena o processo contra jornalistas. Por que então processou a Veja?
Porque a Veja fala o que quer, de quem quer, e fica por isso mesmo. Eu optei, depois de três ou quatro vezes: "Não, mas está demais isso aqui, vou entrar com uma ação". Entrei e vou ganhar a ação. Não existe possibilidade de eles escaparem dessa. Estão publicadas três grandes mentiras. É mentira o que eles falaram.

O que o senhor pede no processo e o que eles publicaram?
A Justiça é que vai definir, peço uma indenização moral. Peço uma reparação dos danos morais de todas as mentiras descaradas que escreveram. Vou ganhar a ação porque eles me acusam de ser muito mentiroso, mas digam em que eu menti, eles não sabem dizer. (Dizem) que tenho nepotismo cruzado, mas não me dizem com quem e eu desafio me mostrar. Chega a um ponto que tu não aguentas. Não existe defesa para eles. Vou ganhar a ação, mas não porque quero ganhar, até porque, se eu ganhar, vou repassar o dinheiro a alguma entidade, um asilo dos velhos, casa da criança, sei lá, não quero um centavo deles. A agressão moral é muito forte.

O senhor alega que estes episódios o fortalecem no seu reduto, mas sua imagem fica desgastada no resto do país, não?
Pois é, fazer o quê? Se não acho um local que me garanta ou que me deixe espaço para que eu fale a verdade? A não ser o Jô Soares, que realmente me deu um espaço bom e que, dali pra cá, realmente o resto do país se aquietou. Por exemplo, em toda esta entrevista contigo, com certeza as partes boas tu não vais publicar, tu vais publicar somente as partes que possam me deixar um pouquinho de saia justa.

Por quê? O senhor acompanha Terra Magazine? Publicamos a íntegra da entrevista.
Às vezes, dou uma olhadinha. Talvez eu seja injusto contigo, mas na verdade tu serias um caso muito isolado em todos os meus 30 anos de vida pública. Porque tudo que tu me perguntas eu te respondo na ponta da língua sem ter medo, sem errar, sou aplaudido na comunidade. Veja bem, fui eleito duas vezes vereador, duas vezes deputado estadual, duas vezes prefeito de uma cidade de polo na minha região, hoje sou deputado federal, a minha mulher foi deputada federal, foi deputada estadual, é a prefeita da cidade, nosso filho é vereador na cidade e será com certeza deputado estadual. Se fosse verdade isso que a imprensa escreve, e diz, e fala, e insiste, este sujeito não ia conseguir esse espaço e ser aplaudido pelos jovens. Entro nas universidades e sou aclamado. Então não é possível que todo mundo aqui não perceba e só a imprensa que percebe. É uma pena, né, tchê?
Essa democracia, lutei tanto por ela, está indo por água abaixo. Por exemplo, por estes dias, a gente (os deputados) não queria deixar o CQC entrar na Câmara. Eu fui um que, mesmo apanhando do CQC injustamente, fui lá fazer a defesa do CQC. Porque lutei tanto pela liberdade de expressão, tanto pela democracia e ela já estava começando a ser cerceada. Mas quem estava cavando isso? O próprio CQC, que ia lá ironizar, debochar, ridicularizar, e isso começa a cair, a democracia pode começar a complicar.

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