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Sábado, 17 de julho de 2010, 08h12 Atualizada às 08h53

Caldela é principal apóstolo da alta fantasia brasileira

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

O Caçador de Apóstolos, Leonel Caldela. Porto Alegre: Jambô, julho de 2010, 409 páginas. Capa de Greg Tocchini.

por Jeremias Moranu

Propelida pela notável repercussão de O Senhor dos Anéis entre nós, a alta fantasia brasileira tem apresentado exemplos numerosos nos últimos oito ou dez anos, numa escalada constante - mas que, salvo engano, ainda não produziu obras de uma significância maior.

Contudo, por trás da capa assinada por Greg Tocchini - com sua arte ágil e atraente, com a liberdade e o vigor do esboço - pode estar o primeiro exemplo de um romance brasileiro de alta fantasia realmente memorável.

A sua origem não deixa de surpreender, e de expressar algo da situação atual do nosso mercado para esse gênero. É que a experiência prévia de seu autor, o gaúcho Leonel Caldela, junto à mesma jovem Jambô de Porto Alegre, foi com uma trilogia de romances situados dentro do universo do jogo brasileiro de RPG Tormenta, uma criação de Marcelo Cassaro, J. Mauro Trevisan e Rogério Saladino.

A Trilogia Tormenta, composta de O Inimigo do Mundo (2006), O Crânio e o Corvo (2007) e O Terceiro Deus (2008), pode não ser uma ocorrência única dentro da fantasia nacional. Afinal, livros de ficção relacionados a jogos são comuns no mercado americano, e eu não saberia dizer se existem outros exemplos locais, vinculados a outros jogos - salvo pelo empreendimento da Hoplon/Devir, de livros que exploram o universo do videogame de internet, Taikodom.

O fato é que a trilogia de Caldela (que começa a entrar na sua segunda edição) sublinha a atuação dos role playing games e do seu boom ocorrido em meados da década de 1990, no enraizamento da fantasia como gênero literário no Brasil. Que um autor surgido dessa relação venha a produzir uma fantasia de alta qualidade não deve, portanto, causar estranhamento, ainda que a primeira imagem que se faça de uma ficção subsidiária de um jogo seja a de um espaço de literatura puramente comercial.

As evidências indicam que Caldela nunca enxergou o seu trabalho com Tormenta apenas pelo ângulo comercial. E o que isso tem a dizer sobre o state of affairs da ficção especulativa no Brasil é que, com o contexto rudimentar do mercado e da crítica, e até mesmo do público leitor, recai quase que exclusivamente sobre o escritor encontrar a motivação para superar o lugar-comum e impor seu projeto pessoal. Felizmente, alguns escritores respondem a esse desafio.

O que Caldela traz ao campo da fantasia brasuca é um forte pathos - o sentimento tristeza profunda e identificação com a dor alheia, mais associado à tragédia. O pathos é muito importante para a sensação do mítico que se obtém da alta fantasia, mais até do que a presença de duendes, elfos e objetos mágicos. Tolkien certamente sabia disso, embora os seus imitadores frequentemente não saibam. Autores que vão além da imitação reforçam a sua alta fantasia com uma qualidade mítica que os coloca na linha de frente dos escritores do gênero - nomes como Robin Hobb, George R. R. Martin e Barbara Hambly.

O Caçador de Apóstolos é o primeiro romance de Caldela, fora do universo de Tormenta. Traz boas doses de pathos e de ironia, o outro efeito literário tão determinante para a tragédia (a "ironia do destino" que assola os personagens), quanto para o mainstream. A ironia aparece no hábito do narrador de O Caçador de Apóstolos, de dizer e desdizer, de fazer seus personagens transitarem entre o heróico e o patético, e vice-versa.

O romance acompanha três protagonistas: Iago, um dramaturgo que é também o narrador - bem pouco confiável, a propósito; Jocasta, uma jovem muito inteligente que pode ou não ser uma profeta; e guerreiro Atreu, membro de uma espécie de ordem templária desse mundo de totalitarismo teocrático, misticismo onipresente, facções em conflito e vassalagem rebelada. A idéia do fundamentalismo religioso perpassa a narrativa do começo ao fim e traz uma inquietante atualidade ao romance de ambientação medieval.

O pontapé inicial da intriga é uma revolta lançada no âmago da Igreja, que controla o mundo secundário de O Caçador de Apóstolos apoiada em uma única figura, a jovem profeta criada desde criança para ser (ou fingir ser) "A Voz de Urag". Desdêmona é a atual Voz, que, cansada de ser manipulada pelo aparato clerical, reúne em torno de si tropas rebeldes que se sublevam contra a Igreja. A história propriamente começa, porém, com a ação já em andamento: Iago se une às tropas de Atreu, e logo fica claro que os dois já se conheciam e tinham um passado de conflitos em comum. Numa outra linha narrativa, Jocasta se une uma multidão herege que se move como uma nuvem de gafanhotos assolando as vilas periféricas dos grandes baronatos. Essa coluna é comandada por uma falsa Voz de Urag, uma oportunista que talvez só tenha encontrado oportunidade porque a Voz de Urag "oficial" está em luta aberta contra a Igreja. Ao fim de peripécias sangrentas, a adolescente Jocasta assume o lugar dessa líder da multidão de miseráveis.

Enfim, na terceira parte do romance, com a ação concentrada no cerco ao Farol dos Órfãos, os conflitos se tornam abertos, e seus protagonistas mais marcados.

O Caçador de Apóstolos é um romance complexo não apenas por essa inversão da estrutura clássica do começo-meio-e-fim, ou pelo desafio de lidar com um elenco de dezenas de personagens que entram e saem e vivem simultaneamente no presente e no passado do livro. A complexidade também é sublinhada pela natureza não-confiável de Iago como narrador - o que ele conta das suas experiências e de seus companheiros e inimigos é admitido por ele como sendo composição literária: a imaginação do dramaturgo preenche as lacunas do seu desconhecimento, realça momentos dramáticos, ou expõe os seus limites quando o assunto escapa ao seu controle. Com isso Caldela soma uma dimensão metaficcional - de literatura que discute a si mesma - muito rara na fantasia brasileira (embora o conto "História de Cassim, o Peregrino", de Braulio Tavares, venha à mente).

Iago começou sua vida literária como dramaturgo mambembe, para então conquistar a corte e os cardeais da Igreja - antes de deitar a pena e levantar a espada contra eles. Como personagem que vive situações, e não apenas narra, ele reforça a inclinação metaficcional do romance, pois é manipulado pela Igreja, sendo obrigado a manipular o público que lerá ou ouvirá os seus textos. Mesmo aquilo que lemos nas páginas de O Caçador de Apóstolos pode muito bem ser só mais uma manipulação - admitida pelo narrador não confiável.

Mesmo oferecendo os prazeres usuais da alta fantasia - batalhas, conflitos e intrigas palacianas -, O Caçador de Apóstolos desafia o leitor no modo como ele se posiciona diante da obra literária. Além disso, oferece um esforço consistente e violento (às vezes exagerado) de remover o lustre romântico da Idade Média, cujas estruturas sociais são retrabalhadas no romance. Como quase tudo em O Caçador de Apóstolos, isso se dá no plano da forma e do conteúdo: o amor, o companheirismo, as virtudes guerreiras e a vida na corte são implacavelmente diminuídos pelas ações de homens e mulheres desesperados; ao mesmo tempo, a prosa assume a qualidade brutal de Rubem Fonseca ou o tom escatológico e cínico de Charles Bukowski, duas influências admitidas por Caldela.

Contudo, se este jovem autor de admirável ambição e dotes literários tem um problema significativo em O Caçador de Apóstolos, esse problema também apresenta a mesma dupla face de forma e conteúdo. Efeitos sofisticados exigem uma precisão maior do que a prosa de Caldela apresenta; ao mesmo tempo, o fator choque de violência e escatologia também deveria ser melhor dosado. Na terceira parte, já próximo do fim, a leitura se torna cansativa pela repetição de recursos e por alguns exageros nas cenas de ação. De fato, uma moderação maior e uma variação de timing e da cadência narrativa tornariam o romance ainda mais envolvente e reforçariam os seus efeitos mais poderosos.

Algo que a última parte faz com grande eficiência é introduzir novos elementos, muito curiosos - alguns apontam, inclusive, para a ficção científica, como Bráulio Tavares fez com "História de Maldun, o Mensageiro" (1989), ou Barbara Hambly com Knight of the Demon Queen (2000), por exemplo -, que só serão realmente explorados na seqüência, que vem por aí provavelmente no primeiro semestre de 2011. Não acredito, contudo, que precisemos esperar a seqüência para confirmar o talento deste autor. Este romance já é testemunho suficiente de que Leonel Caldela é o apóstolo número um da alta fantasia no Brasil.

Jeremias Moranu é autor de A Deusa do Amor

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
Divulgação
O Caçador de Apóstos, de Leonel Caldela

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