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Terça, 27 de julho de 2010, 10h21 Atualizada às 11h38

Zagueiro convocado por Mano é avaliado em R$ 114,5 milhões

Eliano Jorge


David Luiz, que jamais atuou no Brasileirão, foi dispensado das
divisões de base do São Paulo e revelado pelo Vitória (foto: AP)

Presente na convocação inicial de Mano Menezes, David Luiz Moreira Marinho, de 23 anos, chega à Seleção pela primeira vez, cotado para se tornar o zagueiro mais caro da história do futebol. Atraiu Real Madrid, Manchester City, Chelsea e Zenit. Ainda especulam-se Manchester United, Internazionale, Bayern e qualquer outro esquadrão europeu que possua uma fortuna.

- Tem muitos times interessados, mas o Benfica é o mais interessado em segurá-lo. Não sei se vão chegar no valor da rescisão, que é de 50 milhões de euros (R$ 114,5 milhões). Ele é feliz no Benfica, mas de repente um desses tubarões resolve abrir a boca - analisa seu pai, Ladislau Marinho, o ex-meia Lau do time júnior do Atlético Mineiro.

Adaptado a Portugal, titular absoluto, campeão, premiado como jogador do ano, sob apelos de torcedores por sua permanência, David vive seu melhor momento, e lhe apontam um futuro ainda mais brilhante. Parecia algo impensável quando acumulou rejeições nas divisões de base, ameaçado de não conseguir, como o pai, ser jogador profissional.

O ídolo benfiquista foi mandado embora pelo São Paulo aos 16 anos. No Vitória, em seguida, chegou a ser dispensado duas vezes. Por isso, não esquece de quem mudou sua carreira. "Ele me agradece a vida toda porque sabe que, se não fosse eu, ele seria liberado. Era muito raquítico, estava na posição errada", lembra Ildérico Dias Peixoto, o Tiú, que atuava como observador-técnico do rubro-negro baiano e hoje é procurador de atletas, inclusive do próprio David.

"Estou muito orgulhoso, satisfeito. Quando o conheci, nem biotipo de jogador tinha, muito magro, franzino, procurei acreditar (nele)", conta Tiú, que precisou convencer o clube a transformar o volante em zagueiro. "Veio a segunda liberação, ele me ligou, chorando. O superintendente da base, Sinval Vieira, confiava muito em mim, pedi para segurá-lo, falei que estavam avaliando David Luiz de uma maneira muito equivocada, pois tinha muita qualidade".

Quando Anderson Martins, hoje titular do Vitória, ascendeu ao elenco de juniores, abriu uma vaga na zaga dos juvenis. "Sinval me disse: 'Vou dar a chance que você me pediu para David de zagueiro'. Eu falei a David: 'Sua posição agora é esta'. Ele arrebentou e subiu para o time profissional com 19 anos e quatro meses", exercita detalhes Tiú.

"Eu sempre falava com ele, brincando, que poderia ser um grande zagueiro e, mais tarde, jogar de volante. Só que ele não gostava", recorda. "Orientei como jogar, como chegar na bola, posicionamento, procurar ter equilíbrio, que nunca poderia perder o controle (emocional), pra jogar duro mas na bola. Aí ele, muito inteligente, de muita qualidade, foi assimilando. E segurou a posição".

O menino magro evoluiu também ao ganhar corpo. "No Departamento de Fisiologia, fez um trabalho de musculação de cinco ou seis meses, pegou 10 quilos de massa muscular", atesta seu "descobridor".

Em 2006, um monte de desfalques abriu espaço para sua estreia profissional, ainda chamado de David Marinho, num trio de defesa com inexperientes pratas-da-casa. Destacou-se no empate de 2 a 2 com o Santa Cruz, no Recife, pela Copa do Brasil, virou titular no Campeonato Baiano e na Série C.

- David é uma pessoa diferente. Botava os reservas para dizerem: 'Eu tenho que ficar no banco mesmo porque este cara joga muito'", derrete-se o fã Tiú.

O Vitória aceitou emprestá-lo ao Benfica em 2007 e negociar 50% dos seus direitos federativos, fixados em 1 milhão de dólares. Uma pechincha, admitiam os cartolas, mas a salvação para um clube em crise financeira, afundado na terceira divisão. Agora, na Série A e na final da Copa do Brasil, o Leão baiano ainda espera uma recompensa de R$ 6 milhões, graças a uma porcentagem por ter participado da sua formação como atleta.

A versatilidade de David Luiz o valoriza. "Foi volante, meia, atacante. Ele conhece todos os caminhos do campo", gaba-se Ladislau. Excelente no desarme, seu filho sempre matou, com arrancadas ao ataque, a saudade das posições ofensivas. A carência do Benfica na lateral-esquerda o deslocou para uma nova função.

De Dunga, só elogios

Em seguida ao anúncio de Mano Menezes, nesta segunda-feira, 26, David telefonou de Lisboa para o pai. "Falou que chegou o momento dele, o momento tão esperado. Este era um dos objetivos da carreira dele", conta Ladislau. "Pelo trabalho que ele vem desenvolvendo há muitos anos, foi mais que merecido".

"Ele ligou, feliz. Agora é ir lá, segurar a vaga e não soltar mais. Vai para comandar, para ser líder", empolga-se Tiú, que não esboça o menor sinal de surpresa com a convocação inédita. "Eu esperava há muito tempo, desde a época de Dunga. Ele estava no treino da sub-20, com a Seleção profissional ao lado (em 2007, na Granja Comary), Dunga o chamou para treinar e falou que ele parecia ter 20 anos de Seleção. Elogiou muito".

O chamado acabou sendo protelado por problemas médicos, garante. "Ele tinha sido operado do dedinho do pé porque o Benfica ficou adiando, adiando, adiando para não querer perdê-lo, ele chegou num ponto que começou a sentir dor até andando, perdeu a (convocação para a) Olimpíada. Quando fui visitá-lo, ele falou que o pessoal da CBF tinha convocado umas duas vezes, só que o presidente (benfiquista) disse que ele estava operado".

Agora, Ladislau deseja testemunhar o desempenho de seu filho com a camisa da Seleção, no amistoso de 10 de agosto, nos EUA. "Estou pretendendo, vamos ver". Afinal, não é mais um daqueles jogos por um time amador do bairro paulistano de Pirituba, em que começou. E é David quem guia as migrações da família.

Nascido em Diadema, na Grande São Paulo, o zagueiro conseguiu fazer os pais voltarem para Juiz de Fora, após o conforto financeiro. Além de acumularem visitas a Portugal. Resta saber o próximo roteiro, se Madri, Manchester, Milão, Londres...

"O Manchester City deu 35 milhões de euros. Mas ele gosta muito do Benfica. Por ele, ficaria lá. O Real Madrid demonstrou interesse forte nele. De repente, chega lá e paga a multa", cogita Tiú. Porém, o valor de R$ 114,5 milhões da rescisão era anterior à estreia na Seleção. E deve aumentar, seguindo reajuste salarial.

A felicidade, por enquanto, o ancora em Lisboa, idolatrado pela maior torcida do país. "Quando Luisão não joga, é o capitão. Ele fala: 'Sou feliz aqui, aprendi a amar este clube, todos me apoiam, os torcedores, a imprensa'. Conquistou todo mundo em Portugal". Falta ser devidamente apresentado aos brasileiros e conquistar Mano Menezes.

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