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Terça, 3 de agosto de 2010, 08h12

Desaceleração era esperada, mas desestimula empresários

AFP
Setor industrial de automóveis registrou queda de 3,1% na produção
Setor industrial de automóveis registrou queda de 3,1% na produção

Julio Gomes de Almeida
De São Paulo

No segundo trimestre deste ano a economia perdeu fôlego com relação ao primeiro trimestre. Isso não deveria surpreender, pois houve um excessivo crescimento nos primeiros meses de 2010. Interpretado por muitos analistas como sinal de que estávamos diante de um novo estágio das forças produtivas brasileiras, o resultado do primeiro trimestre ganhou status de "crescimento chinês".

Longe disso, se tratou de um período atípico porque muitos fatores se apresentaram nos três primeiros meses e não seriam reproduzidos posteriormente. Após um ano de muitas dificuldades e apreensões como foi o ano de 2009, o período assistiu ao retorno pleno da confiança de consumidores e empresários e do crédito fácil e das prestações longas para as famílias consumirem bens duráveis. Isso animou extraordinariamente o consumo e o investimento, para o que também concorreram os incentivos fiscais para a compra de veículos e outros bens duráveis. A indústria e o comércio se beneficiaram enormemente disso, o que impulsionou de forma concentrada no tempo o ritmo de atividade, gerando a falsa sensação de que estávamos diante de um patamar de crescimento bem superior.

Os sinais do segundo trimestre não deixam margem a dúvida. O movimento de veículos pesados nas estradas brasileiras um indicador de nível de atividade da economia caiu 0,4%, segundo dados desazonalisados. Somente em junho com relação a maio do corrente ano a queda foi de 2,5% indicando que o processo pode estar se agravando. Para o comércio, de acordo com a Associação Comercial de São Paulo, os dados preliminares são de que houve uma queda nas vendas a prazo de 1,7% no segundo trimestre com relação ao primeiro e, quanto às vendas à vista, estas ficaram estagnadas no mesmo período.

Já no importante setor industrial de automóveis, o trimestre em tela registrou queda de produção de 3,1% após o término dos incentivos que geraram enorme euforia de produção e vendas no setor. Na mesma direção, o indicador de nível de atividade da FIESP acusou retração de 1,9% em junho, denotando que para o setor industrial brasileiro como um todo o segundo trimestre de 2010 foi de fato significativamente pior do que o primeiro trimestre.

A princípio, não há porque temer a queda de ritmo da economia que apenas expressaria uma transferência para o primeiro trimestre de um dinamismo que teria se apresentado de forma mais homogênea ao longo da primeira metade do corrente ano. Sem os "fatores extras" que se apresentaram no início do ano, devemos esperar uma evolução mais equilibrada no segundo semestre, de forma que na média o crescimento do PIB em 2010 chegue a algo como 6,5% ou um pouco mais. Será um bom crescimento, passível de cuidados a respeito de seu impacto sobre a capacidade de produção de alguns setores, mas nada explosivo como parecia ser à primeira vista. A propósito, esse ritmo de crescimento nada mais é do que o ritmo com que a economia convivia nos momentos que precederam a crise mundial de setembro de 2008.

Mas há outro lado da questão que preocupa. A desaceleração do crescimento não é neutra em seus reflexos sobre as decisões de consumo e de investimento por parte de famílias e dos empresários. O mesmo se pode dizer de seus efeitos sobre a disposição dos bancos em disponibilizar recursos para o público na intensidade com que esse processo se desenvolvia no início do ano. Ou seja, a desaceleração do crescimento da economia no segundo trimestre que a princípio tão somente corresponderia a uma "ressaca" do "eufórico" crescimento do primeiro trimestre, pode contaminar as expectativas e prejudicar o desempenho do segundo semestre desse ano.

Teremos que acompanhar detidamente os indicadores desse início de segundo semestre, mas alguns deles já dão uma indicação. A confiança dos consumidores caiu 2,5% entre junho e julho pela pesquisa da Fecomercio. Segundo a FGV, entre os empresários houve queda da confiança de 1,5% e a utilização da capacidade produtiva recuou de 85,5% para 85,1% no mesmo período. Tendo continuidade, a piora da confiança de consumidores e investidores e o menor grau de utilização da capacidade podem desestimular as decisões de consumir e de investir.

Nesse contexto, o Banco Central que aumentou fortemente as taxas de juros nos últimos meses, deve estar atento para avaliar se não abusou na dose do remédio. Na dúvida seria mais seguro interromper desde já o ciclo de aperto monetário tanto porque lá fora a expectativa é de baixo crescimento das economias desenvolvidas.


Julio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Fale com Julio Gomes de Almeida: jgomesalmeida@terra.com.br

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