Terra Magazine

 

Segunda, 9 de agosto de 2010, 09h15 Atualizada às 11h27

Manifesto de paulistas é estupidez, critica líder nordestina

Dayanne Sousa

Manifesto de jovens paulistas na internet que combate "supervalorização da cultura nordestina" é uma estupidez, defende a fundadora do Conselho Estadual da Comunidade Nordestina de São Paulo, Francis Bezerra. O Conselho, parte da Secretaria de Relações Institucionais do Governo do Estado, foi criado em 2005 para garantir a criação de políticas públicas em prol da divulgação das tradições do Nordeste e pelo combate ao preconceito.

- Nós não entendemos que direito é esse que eles acham que têm de nos privar de divulgar nossa cultura. Por simples vaidade ou ignorância de alguma pessoa, nós não vamos aceitar.

Batizado de "São Paulo para os paulistas", o manifesto virtual já reuniu cerca de 600 jovens, boa parte universitários de 18 a 25 anos.

Francis defende que manifestações assim podem ser enquadradas como preconceito de origem. A lei nacional nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, diz que estão sujeitos a punição "os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional".

Francis é escritora e jornalista, também fundadora e uma das responsáveis pela Associação dos Nordestinos de São Paulo (Anesp), que dá apoio a migrantes nordestinos no Estado.

Leia a entrevista na íntegra.

Terra Magazine - O que você acha do surgimento desses movimentos que reivindicam que os nordestinos não têm espaço no Estado?
Francis Bezerra - São Paulo não é dos paulistas, São Paulo é dos brasileiros. E, se for para reivindicar direito, fomos nós que há anos viemos a São Paulo com a nossa mão de obra e aqui nos esforçamos para construir a capital. Não foram os paulistas que trabalharam com a mão pesada. Fomos nós nordestinos que trabalhamos. Aqui nós construímos família. Muitos nordestinos aqui são engenheiros, advogados, médicos. Nós ainda continuamos com a mão de obra pesada na construção e continuamos crescendo. O Conselho Estadual da Comunidade Nordestina cria políticas públicas não só para os nordestinos, cria para a comunidade. Nós lutamos contra a discriminação por origem. Hoje nós podemos pôr na cadeia essas pessoas que estão nos discriminando.

Você mesma é uma migrante, não é?
Sim, eu sou maranhense, filha de cearenses, neta de árabes. Há quarenta anos eu estou em São Paulo.

Um dos argumentos do "São Paulo para os paulistas" é que os nordestinos que vêm para São Paulo têm dificuldades de conseguir emprego e que essas pessoas acabam tendo más condições de vida. Você concorda com isso?
Realmente São Paulo não é mais a galinha dos ovos de ouro. A profissão de "faz tudo", a globalização destruiu. O nordestino é capaz, inteligente e quer trabalhar, mas a globalização engoliu essa função. A nossa consciência hoje é que isso tem aumentado a volta. Aqueles que realmente não têm profissão e não têm uma situação definida estão voltando. E nós estamos trabalhando com governadores, prefeitos e com vários municípios para que apoiem o homem do campo. O homem do campo sabe o cheiro da terra mais do que ninguém e o lugar dele é lá. Mas nós não estamos roubando emprego de ninguém. Tem vários nordestinos aqui que geram emprego. Uma só pessoa chega a gerar mais de cem empregos. Em várias indústrias, nós temos empresários nordestinos que geram de oito a 10 mil empregos.

É uma política que você defende essa de evitar que o homem do campo saia do Nordeste e se perca?
Com certeza. Ele é muito mais importante lá no Nordeste do que aqui sem profissão. Ele criando galinha, pescando seu peixe, ele é muito mais feliz. Mas, acima de tudo, São Paulo é Brasil. E nós temos o direito de morar onde quisermos.

Outro ponto defendido pelo manifesto é que há divulgação da cultura nordestina aqui, mas que falta divulgar a história do Estado, a história dos paulistas. O que você acha disso?
Nós divulgamos a nossa cultura, os nossos hábitos, costumes e tradições. Para isso nós criamos o dia 2 de agosto, o Dia do Nordestino. Está no calendário oficial do Estado. E essas pessoas querem nos tirar das estatísticas de São Paulo. Eles que divulguem a história deles! Eles divulguem a cultura de São Paulo e nós vamos divulgar a dos nordestinos. Nós não entendemos que direito é esse que eles acham que têm de nos privar de divulgar nossa cultura. Se há alguma lei que nos impeça, que apliquem a lei. Mas por simples vaidade ou ignorância de alguma pessoa, nós não vamos aceitar.

Vocês da Associação já foram alvo de ataques por serem nordestinos?
Já. Isso é uma estupidez. Por isso nós lutamos para ter o Conselho e políticas públicas. Nós temos muito orgulho de divulgar nossa cultura e já criamos até a Semana Nordestina, tudo oficializado que é para evitar esse tipo de canalhice. Isso, para mim, além de ignorância, é canalhice, é racismo!

Que políticas públicas que você acha que precisam ser criadas em São Paulo especificamente para os migrantes nordestinos?
Uma delas é justamente isso. Dar fim a esse tipo de preconceito e de discriminação por origem. Outra é a orientação daqueles que não têm emprego fixo e não têm renda fixa. Para que eles realmente voltem para o Nordeste. E que o seu Estado de origem dê a condição para que essa pessoa fique no campo. Porque permanecer em São Paulo sem profissão realmente não é justo. E não é que não é justo para nós, não é justo para a pessoa! Já a divulgação das nossas tradições é indiscutível. Não há lei que nos impeça isso. Esse tipo de gente nos preocupa. Até então nós éramos atacados às escondidas e hoje existe um site desse.

Que tipo de ataque vocês já sofreram?
Nós tínhamos um restaurante próximo à estação do Metrô Armênia que nós tivemos que fechar porque foi apedrejado. Um carro já foi quebrado. Isso é uma estupidez. É até triste. É vergonhoso para o meu país. O meu país não é o Nordeste, não é o Maranhão. Eu sou escritora e sempre digo que eu sou nordestina de naturalidade, paulista de coração e brasileira de opção. Se eu nascesse mil vezes eu queria nascer no Brasil! Isso é uma ignorância, é uma falta de conhecimento.

O que motivou você a militar em prol de políticas para os migrantes nordestinos?
Medo. Há alguns anos atrás aqui em São Paulo, a mulher nordestina era mal vista, sofria abusos dos patrões. Eu tinha filhas pequenas e tinha medo que isso acontecesse com elas. Foi quando eu comecei a ver, a me preocupar. No medo, eu me fiz forte. Na época, nós denunciamos. Tudo isso me fez criar voz por aquelas pessoas que não sabiam falar, que tinham medo de falar, que não tinham condição de falar. Paulista tem mania de trazer nordestino para o corte de cana e depois largar na rodoviária como um bicho. Nós, da Associação dos Nordestinos, corríamos para lá e conseguíamos 14, 15 passagens para colocar as famílias de volta para o Nordeste. Corríamos, fazíamos marmita e dávamos para eles. Como a gente não tem política pública, eles ficam jogados lá.

Ainda acontece isso? De gente procurar a associação porque não tem como voltar para casa?
Acontece. No mínimo três ou quatro vezes por ano. A própria assistente social da Prefeitura liga e diz que há várias pessoas abandonadas, jogadas na rodoviária. Isso é impressionante.

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