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Quinta, 12 de agosto de 2010, 08h09 Atualizada às 13h57

Conexões Atômicas entre Animações e HQs

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A animação 1945-48 mostra a silhueta dos continentes com um numerador que avança mês a mês através dos mais de cinquenta anos de testes e explosões ...
A animação 1945-48 mostra a silhueta dos continentes com um numerador que avança mês a mês através dos mais de cinquenta anos de testes e explosões nucleares

Claudio Martini
De Campinas (SP)

No início deste mês, as explosões atômicas realizadas em Hiroshima e Nagasaki completaram 65 anos. Uma animação, feita em 2003 por Isao Hashimoto, está agora disponível na internet, mostrando de uma maneira didática e fria todas as explosões nucleares que aconteceram no mundo entre 1945 e 1998. O vídeo mostra apenas a silhueta dos continentes, em azul escuro sobre um mar azul celeste, com um numerador que avança mês a mês através dos mais de cinquenta anos de testes e explosões nucleares. Pontos luminosos e sons marcam cada nova detonação que vão sendo computadas ao lado da bandeira de cada país responsável (ou irresponsável).

Começa com o primeiro teste - Trinity - feito no Novo México pelos Estados Unidos, e avança até os últimos, feitos pela Índia (4 explosões) e Paquistão (2), em 1998. Só não estão ali os testes da Coreia do Norte, em 2006 e 2009.

A frieza e o didatismo desse vídeo não o deixa menos aterrador. Nele podemos ver e aprender muitas coisas:

- A escalada nuclear dos anos 1960 e 1970.

- Como a Terra foi usada impunemente como campo de teste pelos poucos países detentores da tecnologia nuclear (em nome da paz e da segurança).

- Que houve 2053 explosões espalhadas pelo globo: América do Norte, Ásia, Oceania, África do Norte, Pacífico e Atlântico Sul.

- Que mais da metade delas (1032) são de responsabilidade dos Estados Unidos, cuja grande maioria foi detonada no próprio território norte-americano.

- Que a França é o terceiro país que mais detonou bombas (210), ficando atrás apenas dos EUA e da União Soviética (715).

- Que, de uma maneira geral, apenas foram poupadas as regiões da América Latina, Europa Ocidental, Sul da África, Oeste da Rússia, Canadá e Alaska.

E, para deixar registrado, além dos países citados anteriormente, ainda temos como integrantes do clube a Inglaterra e China, com 45 bombas cada.

A sensação de impotência diante de atitudes tomadas por alguns poucos políticos de uns poucos países e que afetam todo o planeta é marcante quando assistimos 1945-98. Apesar de não vivermos mais na era da Guerra Fria, a ameaça e o poderio nuclear ainda são bem reais. Com apenas duas bombas pra valer, jogadas sobre o Japão em 1945, mas com milhares de testes realizados, sem contar as dezenas de acidentes em usinas, submarinos, fábricas e depósitos de resíduos. Essa sensação também está presente em acidentes como o recente vazamento de petróleo no poço da BP, no Golfo do México.


A conexão que podemos fazer é com a história em quadrinhos When the Wind Blows (Quando Sopra o Vento), publicada em pela primeira vez em 1982, quando a Guerra Fria estava a todo vapor. Nessa obra inspirada do desenhista inglês Raymond Briggs, vemos um casal de meia idade, aposentados, que moram em uma casinha na região rural da Inglaterra. A inocência ou ingenuidade dos dois contracena com a situação política do mundo que se deteriora cada vez mais. As notícias chegam pelos jornais e rádios. Os dois tentam sobreviver ao conflito nuclear resultante obedecendo às orientações do governo: como se proteger durante a explosão da bomba, como estocar alimentos e água.

Seguir as instruções do governo obviamente não vai livrá-los das consequências trazidas pela radiação e, isolados em sua casa, seu mundo vai desmoronando. Uma história comovente e amarga que retrata muito bem esta impotência do cidadão comum ante as decisões políticas e militares dos governantes e suas desastrosas consequências. Já tivemos HQs que mostraram os efeitos da bomba atômica, como Gen, Pés Descalços, de Keiji Nakazawa, mas a abordagem que When the Wind Blows faz é única e memorável.

De um lado temos um vídeo documental e que apresenta os dados estatísticos sobre as explosões de uma maneira mecânica e sem emoção. Do outro temos uma HQ de ficção, que se utiliza de todos os recursos narrativos para contar uma história terna e angustiante. Porém, há uma conexão evidente entre as duas obras que servem como testemunho de uma época que esperamos não retorne às manchetes.

1945-98: www.youtube.com/watch?v=jfpQNfcRE1o&feature=player_embedded

Claudio Roberto Martini é designer gráfico e publisher da editora de HQs Zarabatana Books

Fale com Claudio Martini: claudio.martini@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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