Terra Magazine

 

Segunda, 16 de agosto de 2010, 18h06

Vitória se vinga do Santos com revelação do São Paulo

Franciel Cruz
De Salvador (BA)

Esta província da Bahia se vende, de forma literal e sem o mínimo pudor, como uma cidade-verão. Porém, neste domingo, 15, a chuva caía de forma inconsequente desde as primeiras horas da madruga, insistindo em contrariar os dogmas da Bahiatursa e dos outros órgãos de enganar turistas, otários e afins.

Oquei, minha comadre, tenha sua calma. Já vou encerrar este papo meteorológico. Relatei o episódio apenas para informar que, apesar do dilúvio, desci a pirambeira rumo ao Parque Sócio Ambiental para presenciar a peleja entre Vitória x Santos.

"Oxente, Sêo Françuel, e qual é a novidade? Afinal, o senhor abandona afazeres e compromissos até no Dia dos Namorados para ver Vitória x ABC pelo Nordestão, quanto mais...", resmunga, com reticências, a moça do shortinho gerassamba, que andava mais sumida do que dinheiro em meu bolso.

É fato que a sacaninha tem alguma razão. O que ela não sabe, porém, é que existe um outro motivo, digamos assim, transcendental que me leva ao Barradão.

Como assim? Já explico. Seguinte é este.

Os times de fora do grande Eixo-Sul-Sudeste são como os bordéis de ponta de rua: Só conseguem trazer para suas hostes as putas velhas. A verdade que salva e liberta é a seguinte: Somente depois que esbanjaram suas volúpias e saúde nos grandes centros é que as estrelas do pebolismo e da cama finalmente deslocam-se para os clubes periféricos. O desembarque aqui só se dá quando as pernas cheias de flacidez (e histórias felizes) já não mais lhes obedecem. Todos assim sofrem. E desta lei da natureza do livre(?) mercado, ninguém tem isenção.

Antes que alguém venha me acusar de conformismo, digo que vou ao estádio não (apenas) para ver as estrelas promíscuas que já rebolaram nos mais diversos gramados e hoje pisam no solo sagrado de meu time. Nécaras. O inverso é o verdadeiro.

Tal e qual o nonagenário de Memória de Minhas Putas Tristes, eu vou ao Barradão sempre na esperança de encontrar aquela estrela do Ludopédio que exale a pureza de quem ainda não foi conspurcada. É uma quase vingança diária. Eu sei que a vedete não ficará em minha agremiação, porém eu fui o primeiro a vê-la e tê-la.

Hoje, por exemplo, quando todo o Brasil se verga para um David Luiz, relembro que há pouco mais de três anos ele era um (quase) anônimo que só os torcedores do Esporte Clube Vitória, digamos assim, usufruíam. E ele foi só nosso durante 55 jogos e sete gols.

E ontem, eu dizia lá no início, desci ao Barradão para ver Vitória x Santos não apenas pelo jogo em si. Pouco me interessava a vingança do jogo final da Copa do Brasil, até porque o santos e a taça não existem mais. O tão temido peixe de duas semanas virou uma pititinga. Então, eu fui ao Estádio, mais uma vez, possuído pelo espírito de Lion, o líder dos ThunderCats. Traduzindo para os incultos que não assistem a desenho animado: espada justiceira e visão além do alcance para ver a nova virgem que estrearia no Santuário. E o guri de 19 anos e sobrenome estranho, Henrique Almeida Caixeta Nascentes, não me decepcionou: Guardou dois na caixeta e me vingou dos riquinhos do futebol. Novamente, antes deles, mais uma vez, vi nascer uma nova estrela com a camisa do Leão.

E, às vezes, estas glórias e vinganças me bastam.

PS - Em 10 partidas pelo São Paulo, Henrique fez apenas um gol. Na estreia no Barradão - havia jogado um tempo contra o Vasco -, meteu logo dois.


Franciel Cruz é jornalista, editor do blog Victoria Quae Sera Tamen (http://victoriaquaeseratamen.wordpress.com/). Assim como o Papa Bento XVI e Mahmoud Ahmadinejad, é torcedor do Vitória.


Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
Lúcio Távora / Ag. A Tarde/Futura Press
Emprestado pelo São Paulo, o atacante Henrique, de 19 anos, fez dois gols para o Vitória contra o Santos

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