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Terça, 17 de agosto de 2010, 08h16

É provável que consumo familiar tenha ditado a desaceleração

Julio Gomes de Almeida
De São Paulo (SP)

O tema da desaceleração do crescimento da economia brasileira entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano continua em evidência. Todas as indicações vão na direção de que a mudança de ritmo foi forte, após a grande evolução da atividade ocorrida nos meses iniciais de 2010. Toda desaceleração potencialmente não é neutra sobre a economia, pois pode afetar as expectativas dos agentes e isso, por seu turno, pode desencadear um processo de adicional perda de velocidade no crescimento ou até mesmo gerar uma retração da atividade. Esse é o receio que se apresenta neste momento no Brasil: a desaceleração do segundo trimestre corresponde a uma mera compensação para baixo de um crescimento inusitado do consumo que teria sido antecipado para o primeiro trimestre ou é reflexo de uma nova etapa da economia em que a expansão é bem menor?


Retração do consumo familiar é um dos principais fatores do
crescimento menor da economia brasileira (foto: Getty Images)

Na indústria há sintomas de que o risco de uma desaceleração mais acentuada pode contaminar o desempenho do setor no restante do ano. O recuo em junho da produção de bens de capital foi forte, após vários meses de aumento. Isso pode refletir um menor ímpeto investidor do empresário, que se acautela diante da perspectiva de que a economia crescerá menos. Decisões de investir mais comedidas podem também estar respondendo às grandes elevações de taxas de juros que o Banco Central vem promovendo desde abril.

A despeito das considerações acima, é mais provável que a desaceleração do crescimento esteja sendo ditada por uma acomodação do consumo familiar, após a já observada extraordinária trajetória do primeiro trimestre. Os últimos dados do movimento do comércio, segundo a pesquisa que mensalmente o IBGE realiza, suportam uma consideração como essa. Como na indústria, é nítida a diferença entre o primeiro e o segundo trimestre em termos de vendas do varejo. Na comparação com o mesmo período do ano passado, o aumento foi de +12,8% no primeiro trimestre, sob o impulso de uma grande injeção de crédito para as pessoas físicas e do incentivo fiscal na aquisição de bens duráveis. Já nos três meses seguintes, quando esses fatores já não se apresentavam ou passaram a ter menor impacto, a elevação chegou a 10,2%.

A propósito, um percentual muito próximo a esse era o que vigorava no trimestre imediatamente anterior à crise financeira internacional, vale dizer, julho/setembro de 2008, período no qual o varejo assistiu ao aumento de 10,1% de suas vendas reais. Ou seja, o consumo doméstico, após o período tão especial dos primeiros meses de 2010, pura e simplesmente retornou ao ritmo de crescimento anterior à crise financeira internacional. Se houve, portanto, queda do ritmo do comércio, isso não significa dizer que se reduziu o padrão elevado de crescimento que antes caracterizava esse setor.

Às autoridades cabe acompanhar a conjuntura, para confirmar ou não o diagnóstico acima sobre o comércio - o qual poderá crescer em torno de 11% esse ano, em parte devido à intensa atividade do primeiro trimestre. Do lado da indústria, a questão é um pouco mais delicada. O governo deve avaliar como está se comportando o setor de bens de capital, que é um indicador do investimento na economia. Caso as novas inversões declinem, como parece ter acontecido no mês de junho, serão necessárias ações para reduzir a taxa de juros. Para além das críticas até agora exageradas e carentes de fundamentação sobre sua atuação no último ano, o BNDES poderá voltar a ter papel tão importante como teve durante a crise internacional para também auxiliar na reativação das decisões de investir.


Julio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Fale com Julio Gomes de Almeida: jgomesalmeida@terra.com.br

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