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Terça, 17 de agosto de 2010, 08h15

Nolan é um farsante, enquanto Bellocchio, genial

André Setaro
De Salvador (BA)

1) Se a ida ao cinema nos dias atuais consiste em ver algo do tipo de A Origem (Inception), de Christopher Nolan, o melhor mesmo é desistir de vez do espetáculo cinematográfico, deixar o hábito de ir ao cinema todas as semanas e ser mais seletivo, pois, de qualquer maneira, a indústria, vez ou outra, oferece algo a ver de interessante, mas nunca como antes cuja produção média americana, por exemplo, era notável, sem falar das outras cinematografias, como o belo e insuperável cinema italiano que se encontra na UTI.

2) A Origem é pretensioso e, apesar de mero caça-níquel, tenta se passar por filme sério na tentativa de embaralhar a sua narrativa com sonhos dentro de sonhos. Nolan não é um artista, como Buñuel (O discreto charme da burguesia) ou, como Resnais (Providence). Nem tem a estilística de um Steven Spielberg. Nolan, na verdade, é uma farsa, uma falácia, um mistificador, que não deve nunca ser levado a sério como realizador.

3 Há semelhanças com A ilha do medo, de Martin Scorsese, inclusive com a utilização do mesmo ator, Leonardo DiCaprio. Mas Scorsese encara o sonho com ambiguidade, e Nolan o usa na estrutura narrativa para embrulhar o filme e se fazer passar por poético. O conselho que se pode dar ao cinéfilo é o seguinte: passe ao largo da sala onde esteja sendo exibido A Origem. Não perca seu tempo e seu dinheiro. O filme é uma imensa e incontrolável mixórdia.

4) Mas, mudando de um polo a outro, que extraordinária a sequência final de A princesa e o plebeu (Roman Holiday, 1953), de William Wyler, filme que consta da programação do Telecine Cult no momento. A emoção que o cinema é capaz de proporcionar se encontra toda ali, no ato final, quando Audrey Hepburn dá uma entrevista coletiva aos correspondentes estrangeiros. Ela conseguira sair do cerimonial e passa uma pequena temporada ao lado do jornalista Gregory Peck passeando nos pontos de Roma. Na sequência citada, Hepburn, que faz a princesa, já está novamente de volta à vida rotineira, e, enquanto fala, olha, com um olhar penetrante, Gregory Peck, que encontra no espaço reservado aos profissionais. Wyler desenvolve a sequência com simplicidade e grande poder de convencimento. Enquanto estava a ver, disse, comigo mesmo: "Isto é que é cinema!" Finda a entrevista, os repórteres saem do grande palácio, ficando apenas Peck, que caminha resoluto para a porta de saída e surge o the end.

5) Apesar de bastante criticado pelos turcos do Cahiers du Cinema, não resta dúvida que William Wyler foi um grande cineasta. Aborrecido com as críticas, nas entrevistas dizia que não gostava da Nouvelle Vague e a partir de certo momento colocou na lapela um broche com a inscrição Ancien Vague. Fez filmes inesquecíveis, brilhantes, a exemplo de Os melhores anos de nossas vidas (The best years of our lives, 1946), Pérfida, Da terra nascem os homens (The big country), O colecionador (com Terence Stamp), e muitos outros, inclusive a superprodução Ben Hur. Não daria para ficar citando aqui a filmografia maravilhosa de William Wyler.

6)Tenho o propósito de escrever uma coluna para fazer uma separação ousada: separar, entre as chamadas narrativas audiovisuais que nos são dadas a ver, aquilo que é cinema daquilo que não o é. O assunto é polêmico, mas tentarei me arriscar. Considerar, por exemplar, os filmes que são Cinema daqueles que não passam de meros Experimentos Audiovisuais.

7) Vi um "filme" feito por um telefone celular. A sensação foi de aporrinhação, de cansaço, da constatação da completa desarticulação entre as imagens, ou da tentativa de articular estas de maneira tosca. Mas como foi o primeiro filme que vi feito do celular, espero ver outros para ver se esta sensação desaparece. É uma sensação incômoda, que aborrece e chama ao espectador que se demita, logo, do espetáculo (?).

8) Escrevi que o cinema italiano estava morto. Não deixa de ser verdade, pois a galeria de excelentes diretores desapareceu. Mas sempre há exceções. Um deles, Marco Bellocchio, cujo Vincere, que se encontra em cartaz, é, ao que tudo indica, o melhor filme exibido em 2010 (se Alain Resnais não lançar nenhum). Realizador contundente, com um cinema personalíssimo, surpreendeu a todos na década de 60 em De punhos cerrados (I pugni in tasca, 1965), e, mais adiante, em A China está perto, Diabo no corpo (Diavolo in corpo, 1986), Bom dia, noite, entre outros. Bellocchio ainda consegue fazer obras de impacto, e é um catalisador de polêmicas. Uma voz, no entanto, no deserto da terra arrasada do cinema italiano.


Cena de Vincere, dirigido por Marco Bellocchio (foto: Divulgação)

9) Vincere tem sua ação localizada na época da Primeira Guerra Mundial, quando Benito Mussolini, ainda um jovem cheio de ideias (interpretado por Firmino Timi) tem um estranho relacionamento com uma mulher que lhe dá um filho. Ele o reconhece, mas logo depois o renega. A mulher, porém, ainda que rejeitada, segue a sua trajetória.

O grande crítico Carlos Alberto de Mattos faz, no seu site, observações muito pertinentes sobre Vincere, que ouso transcrevê-las: "É inevitável o paralelo com Silvio Berlusconi. Paralelo não somente na aparência física, mas também no comportamento clownesco, no priapismo e no culto que essas figuras despertam na massa italiana. Vincere não deixa de ser um filme sobre o presente. Por fim, cabe destacar duas manifestações artísticas que formam um subtexto do filme: o cinema e a ópera. Várias cenas se passam no interior de cinemas, e é pelos cinejornais que Ida acompanha o amado durante a guerra e todo o período da separação. Os filmes funcionam como substitutivos da realidade e comentários à trama central. Bellocchio não teme o pathos exacerbado, como quando mostra Ida comovida com o reflexo de sua vida nas cenas de O Garoto, de Chaplin. Pathos, por sinal, é o que não falta a Vincere. Em seu filme mais operístico, Bellocchio apela a sentimentos profundos da alma italiana, fundidos com elementos de tragédia grega. Ida Dalser não chega a ser uma Medéia, mas carrega as cores trágicas das grandes amantes rejeitadas e mães obstinadas".

10) Nunca é demais repetir: alguns cinemas que exibem filmes em versão digital não o fazem de acordo com o formato original da película, deformando-o completamente. Além do problema da janela do projetor, há a economia da lâmpada. Ou deixam-na acabar a luminosidade para trocá-la (e a lâmpada tem um tempo estabelecido a partir do qual começa a diminuir a luminosidade) ou deixam-na com pouca luz para que ela permaneça mais tempo sendo utilizada. Um absurdo e um desrespeito ao espectador que paga ingresso com preço elevado e necessita de respeito e boa projeção. É bom que se verifique se a versão de determinado filme é em digital, porque é melhor o espectador se dirigir a um cinema que esteja a passar filmes em películas.


André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br

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