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Quinta, 19 de agosto de 2010, 17h44 Atualizada às 17h50

Tradutora pede a preservação da casa de Caio Fernando Abreu

Graciela Ferraris
De Córdoba, Argentina

"Moro no Menino Deus, do qual Porto Alegre é apenas o que há em volta."
Caio Fernando Abreu

Num canto da moderna cidade, pertinho do Guaíba (rio ou lago?) fica o bairro onde morava Caio Fernando Abreu. Menino Deus se chama. Numa ruela tranquila, paralela à Avenida Getúlio Vargas está o sobrado colonial que pertencera à família.

Quem somos leitores do Caio conhecemos essa casa muito bem: mencionada sutilmente em algumas cartas aos amigos é forte presença nas crônicas publicadas no seu livro Pequenas Epifanias(1). Caio voltou a morar nela em junho de 1994 e foi aí onde passou boa parte dos dias seguintes, escrevendo desde e sobre ela, na experiência de descobrir uma nova vida quando a dele estava chegando ao final.

Além de ter sido a casa da família desde o momento em que se mudaram do interior para Porto Alegre, foi também a casa de um novo Caio F., ligado às coisas vivas, como plantas, flores e os pequenos seres que povoavam esse seu universo.

Grande palco dessas vivências foi o jardim, aí o nosso caro escritor observou um mundo em miniatura, metonímia das grandes cidades que ele conheceu e às quais escreveu. Cuidou desse jardim junto do seu pai, plantando flores que protegiam de pragas e perigos corriqueiros. Segundo a amiga Paula Dip (2), nesse convívio do Caio com a natureza, aí no Menino Deus, parecia que ele reencontrava as palmeiras, os plátanos, as luas cheias, os grilos e as corujas de sua infância, e o Caio dizia que junto com seu jardim ele regava o seu passado.

Hoje a casa está vazia, mas guarda a memória de boa parte da vida de um dos grandes escritores do Brasil. O nosso apelo é por resgatar esse acervo, por preservar esse lugar na memória da cidade, concretizar o bonito sonho de termos uma Casa da Cultura Caio Fernando Abreu. Ele merece. A gente também.

1- ABREU, Caio F. (2006) Pequenas Epifanias, Editora AGIR, Rio de Janeiro
2 - DIP, Paula (2009) Para sempre teu, Caio F., Editora Record, Rio de Janeiro.

Graciela Ferraris é professora de língua portuguesa e tradutora. Reside em Córdoba, Argentina. Traduziu para o espanhol "Pequeñas Epifanías", de Caio Fernando Abreu.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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