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Sábado, 21 de agosto de 2010, 08h15

Nessa eleição, exclusão social foi posta de lado

Reprodução
O jornalista Francisco Viana questiona os temas debatidos até agora na imprensa nestas eleições
O jornalista Francisco Viana questiona os temas debatidos até agora na imprensa nestas eleições

Francisco Viana
De São Paulo

Leio nos jornais e revistas os perfis dos candidatos à sucessão do presidente Lula e não posso refrear o sentimento de perplexidade. O elo em comum a quase todo o noticiário é o esforço para desqualificar a candidata petista, Dilma Rousseff.

A ideia chave é transformá-la numa personagem artificial, produzida pelo marketing. Não sorria, passou a sorrir. Era briguenta, passou a ser leve. Era radical, tornou-se contraditória. Seus únicos méritos: ter o presidente Lula como cabo eleitoral e dispor de maior tempo no horário político na televisão.

É como se ela não tivesse uma trajetória política construída passo a passo, tendo sido ministra das Minas e Energia e ministra da Casa Civil, entre outros cargos públicos, sem que jamais seu nome estivesse envolvido num escândalo ou contra ela pesasse alguma acusação de descaso, mínimo que fosse, interesse público.

E o que é pior: Dilma e tratada como vilã por ter pegado em armas contra a ditadura, quando este é justamente um elemento enriquecedor da sua biografia. É uma situação em que o noticiário procura criar uma ilusão enganosa de distanciamento, outorgando imunidade aos adversários do PT e descredenciando a candidata Dilma Rousseff como sendo incompatível com as funções. É o recurso ao éter da ilusão para sublimar o medo da mudança.

Despolitização versus participação. Um segundo elo em comum no tratamento dado pela mídia impressa aos candidatos é a tendência à despolitização. É verdade a campanha vem se revelando anódina. Não se aborda grandes temas a exemplo do papel do Estado na economia, do conflito entre desenvolvimento e conservação do meio ambiente, a violência versus a exclusão social e, enfim, não se faz a pergunta chave: quais as relações entre a democracia, a economia política e a efetiva inclusão de grandes massas nas decisões que irão modelar a vida brasileira nessa segunda década do século 21. Em contrapartida fica-se na periferia das questões discutindo aborto, casamento homossexual e harmonia entre desenvolvimento e meio ambiente, mas sem se ir fundo nas questões da economia e da política, discutindo, de fato, o que é uma sociedade moderno e democrática. É como se estivesse em marcha uma nova teologia política determinada a produzir a reconstrução imunológica à participação das massas na vida brasileira. A melhor indicação do caminho a seguir por uma sociedade é a sua história. Contudo, é estranho que nessa eleição a história tenha sido posta de lado. Ou vista, como sempre, de forma distorcida. A história brasileira é a história da exclusão das massas da política. É essa exclusão que determina a exclusão social e não ao contrário. A novidade que o PT trouxe à vida brasileira foi a inclusão das massas no processo. Essa foi a razão que levou o PSDB ao isolamento. Seu projeto político se esgotou na estabilização econômica. Carece de visão e alicerce social. É o mesmo impasse vivido pelo Partido Verde. Sua proposta é atual, mas o sujeito da ação não é a sociedade, mas a consciência de uma elite pensante e bem intencionada. Não é a consciência modelada pela ação das multidões, mas pela consciência das elites. É uma ideia do século XIX, resgatada da República platônica, que tem o seu lugar no processo histórico, mas possui mais limites do que horizontes de realização.

Mídias sociais e o éter da ilusão. Por essas razões é que pergunto: qual será o poder da mídia tradicional nessa eleição? O cidadão vai se deixar seduzir pelo retrato que lhe é apresentado pelos jornais e revistas de cada um dos candidatos ou irá além, buscando, ele próprio, compor seu próprio perfil de preferências? O que chamamos de era do conhecimento, era da sociedade em rede, era das mídias sociais é, também, e substancialmente, a era do construtivismo da realidade real, do negar-se a dissimular-se a si mesmo. A manipulação da crítica à candidata petista abre um campo imenso para questionar quem é a favor de uma democracia real e quem é a favor de uma democracia meramente fantasiosa, uma espécie de fantasmagoria do consumismo: a crença de que uma sociedade inteira pode ser iludida pelo discurso ou ser anestesiada pelo éter de palavras sem fundamentos. A análise do discurso anti-Dilma não supõe a sedução do argumento maniqueísta das teorias da conspiração, mas algo muito mais efetivo que é a essência, aquele elemento mais recorrente de um ser, do modelo de Brasil que boa parte da mídia tem em mente e que traduz no que escreve. Trata-se do agir como forma de pensar, uma subjetividade específica que trai o temor à mudança. Que espelha o apego ao conforto de uma democracia sem povo em que o noticiário começa e termina em premissas metafísicas, ancoradas num discurso cada vez mais distante da prática. Dilma Rousseff, ao pleitear, a presidência da República merece críticas e questionamentos, as mais duras, mas não à base de sofismas e manipulações como vem acontecendo. O cidadão, certamente, saberá discernir o que é sofisma e o que é fundamentado. E, certamente, irá mais além. Saberá discernir aqueles que falam da coletividade para defender seus interesses pessoais e de grupos daqueles que, de verdade, elevam o bem comum à cima dos seus interesses particulares. No fundo, mais do que votar está em jogo separar o ar que se respira do éter da ilusão-manipulação dos fatos. O éter é aquela região da linguagem que paira acima do ar, povoada de mentiras que envergam o traje da gala das verdades eternas, mas que se dissolvem com o simples contato com a realidade. O éter é o quinto elemento da natureza: mais vaporoso que o ar, mais sutil que o fogo, é o suporte natural das fantasias e ilusões. Tudo que se deve evitar numa eleição democrática.


Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)


Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br

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