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Ivan Pacheco/Terra
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Marcelo Carneiro da Cunha
De Fortaleza (CE)
Estimados leitores, sintam um pouco de pena de mim, por favor. Apenas nessa semana eu voei desde Frankfurt até São Paulo, quase doze horas sentado naquela poltrona e cercado de pessoas muito, muito perto de mim, todas com as mesmas dificuldades para pegar no sono, ou ao menos encontrar uma posição menor dolorosa do que um pau-de-arara dos bons tempos da outra ditadura; e menos de 48 horas depois estava num avião para Fortaleza, três horas sentado em uma coisa que só a TAM chamaria de poltrona, porque eu sei como é poltrona, e sei como era banco de bonde, e aquilo onde eu passei sentado por três horas era um banco de bonde, estimados leitores.
Não satisfeito, na madrugada de hoje pego um avião às duas da manhã daqui do Ceará e que promete me depositar no Rio de Janeiro amanhã às oito, se tudo correr bem e eu não tiver um treco tentando dormir a bordo ou brigar com o pessoal à bordo por insistir em dormir no chão - me deixem!
Quem, mas quem mesmo, disse que viagem aérea era bom? Quem inventou que era bom, e ainda por cima romântico? Alguém que nunca sentou a distinta bunda num banco de bonde de avião, se me permitem o baixíssimo calão, estimadíssimos leitores. Só mesmo quem nunca voa, ou voa de business class ou primeirona, quando voa, é o que eu penso. Voar é para o gado, estimados leitores, é o que eu penso, quando entro feito vaquinha em mais um Boeing ou Airbus que atormenta a minha vida nessa época de transportes de massas em que vivemos.
Na semana passada, por exemplo, viajamos, a baronesa Carneiro da Cunha e eu, num super hiper trem ICE, o trem-bala alemão, entre Berlim e Heidelberg. Cinco horas e uns minutos, e sabem como chegamos ao final da experiência, a baronesa e eu? Descansadíssimos e prontos pra outro tanto, se necessário fosse, estimados consumidores dessas mal traçadas linhas. Simplesmente porque havia espaço, porque a poltrona era uma poltrona e a gente podia sair dela quando quisesse e ir fazer um jogging ou tomar café no vagão restaurante. Isso, mas isso mesmo, é viagem de gente, estimados leitores. Não o que me fazem passar cada vez que sento no banco de bonde de avião e afivelo o cinto de segurança.
Um banco de bonde de avião é uma forma contemporânea de castigo que deveria estar na relação do Tortura Nunca Mais, meus leitores. A Inquisição não teria inventado um troço pior, e olhem que eles passagem o tempo inteiro pensando nisso! Ele não apenas é duro e desconfortável, mas ele são muitos bancos iguais a ele. Você senta e não consegue mais se separar da alma do passageiro ao lado e à frente, porque não há espaço.
E não é isso, apenas. Existem os aeroportos, queridos leitores e leitoras, não é mesmo? E, no Brasil, para piorar as coisas ainda mais, existe a Infraero.
Estimados leitores, eu seria um bom cristão se acreditasse um tiquinho que fosse em qualquer misticismo. Eu sei que amaria ao próximo, mesmo um tão próximo quanto os próximos do avião e respeitaria pai e mãe e nunca cobiçaria a mulher do próximo, até mesmo porque dói demais virar o pescoço e olhar a gostosona da 13D. E, nunca, nunca, detestaria a nada ou ninguém. Mas, - e aqui vai uma confissão -, eu detesto a Infraero. Eu detesto tudo que me pareça desrespeitoso, incompetente e ultrapassado, portanto, detesto outras coisas que não são apenas a Infraero. Mas ela se esforça. Querem ver desrespeito? Entrem num banheiro da Infraero. Leiam as placas que dizem "Brazilian" e "Foreigner" nas filas do passaporte, num desrespeito ao idioma e à cortesia. Paguem os preços das comidas nos aeroportos da Infraero. Querem ver incompetência? Tentem navegar pelos nossos aeroportos usando apenas a sinalização deles, que nem ao menos grandes são. Olhem pro quiosque da Coopertaxi de Guarulhos, para pensar quem botou aquele troço ali e deixou que cobrassem 100 reais da gente para nos levar até em casa. Ultrapassado? Quem ainda acredita em granito e vidro fumé como solução para todas as coisas? Quem deixa os aeroportos sem equipamentos mais modernos e anti-neblina, ou deixa construírem barracos por todos os lados que impedem a construção de mais ou melhores pistas? E, acima de todas as coisas, QUEM ainda nos oferece aqueles esteiras de bagagem do tempo do Centenário da Independência, de onde as nossas malas caem o tempo inteiro e um coitado fica ali encarregado de colocá-las de volta no lugar? Alguém aí já viu todos os jeitos de distribuir bagagem que existem nos bons aeroportos do mundo? Não sei se as esteiras são ultrapassadas ou ridículas, mas sei o que elas nos dizem sobre a Infraero.
Ah, mas não é apenas a Infraero. E a segurança que inferniza a nossa entrada nos aviões (e aqui vale dizer que é muito pior lá fora do que no Brasil)? E aquele inglês que os comissários usam para nos informar que estamos precisando fazer alguma coisa absolutamente incompreensível? Imaginem um viajante chinês chegando ao Brasil e recebendo instruções naquele inglês? O cara nunca vai nem sequer chegar ao Brasil, vai, e isso é certo, pular do avião antes.
E, e agora confesso que rolou uma lágrima furtiva por esse rosto cansado e insensível -, e a comida que nos dão, estimados leitores? Quero dizer, a ex-comida, porque comida era o que nos davam há uns quinze anos.
Eu sei que o mundo virou o que virou, e que simplesmente não queremos levar dois dias para viajar o que um avião resolve em uma hora. Com tudo isso que eu descrevi e mais a Infraero, eu ainda assim cheguei a Fortaleza três horas depois de sair de São Paulo, e isso faz a vida ser o que ela é.
Apenas, e aqui compartilho com vocês da minha indignação cívica, não precisava ser assim. Se o sexo, por exemplo, algo igualmente essencial e central em nossas vidas, virasse algo regido e controlado pela Infraero, não dou vinte anos para a humanidade chegar à extinção, não concordam?
Não é o processo, ou o produto, mas a forma. Aviões são um jeito e tanto para a gente ir de um lado para o outro sem perder o tempo de uma vida nisso. Apenas, e aqui fica a minha sensação, não precisava, mesmo, ser do jeito que ficou, que virou, que fizeram virar. E a gente paga por isso na forma de que hoje, a única forma de a gente suportar o que uma viagem aérea se tornou, é deixar de ser o que somos, para voltarmos a ser ali adiante, se tudo, mas tudo mesmo, der certo.