Atualizada às 08h35 Rui Daher
De São Paulo
Semanas há em que é difícil encontrar tema atual, relevante e polêmico para comentar. Especialmente como aqui, limitado aos assuntos do agronegócio. Há semanas, no entanto, como esta, ricas de assuntos, o que torna difícil a escolha.
Poderia discutir a ótima matéria "Milagre Agrícola do Brasil" ("The Economist" - 28/08 a 03/09/10), que exalta nossa bonança atual e credita grande parte dela ao trabalho da Embrapa. Ou mostrar a necessidade crescente dos agricultores utilizarem opções naturais, de baixo custo, capazes de proporcionar mais produtividade e/ou redução nas doses de aplicação de agroquímicos.
Também, poderia alertar para um fato frequente hoje nos grandes jornais. Textos assinados, que mais parecem informes publicitários a serviço de grandes corporações ou de suas entidades, para a defesa de produtos e teses nocivas à saúde e ao ambiente.
Uma suposta credibilidade encapsulada num truque: o de introduzir no contexto algo ou alguém que a opinião pública já demonizou ou folclorizou. O MST e João Pedro Stédile são bons fregueses. Outro? O Tiririca. A partir daí pode-se escrever que, no Brasil, não se comercializa substâncias proibidas em outros países ou relativizar nossa democracia.
Mas o caso de hoje, que espero não esteja na hora de acabar como desconfiou Dolores Duran (1930 - 1959), não é com nada disso, mas com a paulistana da Barra Funda, Ignez Magdalena Aranha de Lima, que para ingressar no mundo da música caipira adotou o nome de Inezita Barroso.
Cantora e folclorista, aos 85 anos, Inezita ainda comanda o trintão "Viola, Minha Viola", programa da TV Cultura de São Paulo, apresentado às 9h dos domingos, com reprise sábados, às 21h30. Em resistência, correção e compromisso com o meio rural brasileiro, o "Viola" somente encontra par no também trintão "Globo Rural".
Gravado ao vivo, no Teatro Franco Zampari, em São Paulo, com uma plateia que lembra Francisco Petrônio e seu "Baile da Saudade", o programa tem um cenário singelo inspirado nas folias de reis e nas festas santas. Histéricos canhões de luz, explosões de fogos e fumaça, coreografia de lânguidas "inezetes", estão ausentes.
Na sua edição de agosto, a revista "Caros Amigos" entrevistou a apresentadora do programa, que não economizou verdades.
Perguntada sobre a música sertaneja atual, respondeu: "Um modismo. (...) A verdadeira cresce no caipira, o verdadeiro amor pela terra vem de dentro para fora. E tudo isso que está aí vem de fora para dentro". Pior: trata-a de "sertanejo universitário", como já o fizeram com o forró. Pobres universitários.
Inezita não compreendeu o ethos caipira por acaso. Estudou piano, violão e, "de ouvido", conta ter chegado à viola. Antes de se profissionalizar, frequentou rodas de violeiros, festas paulistas e mineiras, viajou pelo país e pesquisou nosso folclore. Da culinária aos repentistas do Nordeste e às danças gaúchas.
Seu primeiro contrato profissional foi com a Rádio Clube do Recife. Mais conhecida e já um sucesso, cantou com as melhores orquestras da época, trabalhou em diversas TVs, fez teatro e foi atriz em sete filmes.
Se um martelo agalopado acelerar o coração de um cordelista do semiárido nordestino e for, de pronto, respondido pelo toc-toroc-toc de colher e prato do ritmo de um samba de roda do Recôncavo Baiano, o leitor que pratica agricultura pode estar certo de que um longo e agudo assovio saído de pífanos vindos lá de Caruaru (PE), chegará a São Paulo para se aninhar à viola de Inezita. Aí, então, nossa viola.
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Divulgação
A cantora Inezita Barroso
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