Atualizada às 09h05 |
Roberto Stuckert Filho/Divulgação
Dilma Rousseff e Lula em comício em Campo Grande (MS)
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Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)
A crônica deve começar reconhecendo de forma emocionada a importância do movimento pela Lei da Ficha Limpa. A coisa mais importante do ano. Isso por que significa um movimento contrário à tendência histórica de apatia e passividade em nossa sociedade.
Lembra como foi difícil conseguir 26 assinaturas para mudar a cor das pastilhas do prédio? Sua mulher teve que ir em quase todos os apartamentos, e tome conversa - o que seria do verde se não fosse o laranja? Imagine um milhão!
Depois disso, corta para o tempo em que você estagiou (ou freqüentou?) aquele hospital psiquiátrico que trabalhava com o conceito de comunidade terapêutica.
Os internos, em liberdade, se reuniam em pequenos grupos, discutiam todos os assuntos (inclusive a liberação para saída no fim de semana), e quando necessário levavam as decisões dos grupos pequenos para uma grande assembléia, aos sábados.
Lembra que o bebedouro quebrou? E aí foi preciso aguardar o assunto passar pelos grupos e chegar até à assembléia? Foram quatro meses de democracia aplicada, alguns diriam que desviante, para conseguir consertar o bicho.
Daí você pergunta ao leitor quantos bebedouros quebrados ele acha que existem no Brasil - metaforicamente. Com isso, vai estar sugerindo que somos uma comunidade terapêutica (hospício?) de 200 milhões de habitantes, e que a democracia nunca é 'normal'. Interessante!
Há um diagnóstico curioso da sociedade brasileira feita pela psicanálise social. Relaciona falta de coesão do tecido social com a falta de uma referência paterna estável. Uma fome crônica de pais simbólicos. Gente de todo lugar do mundo foi jogada aqui durante séculos para cumprir os desígnios de outra ordem - cujo centro nem era aqui.
Fome de pai? Ora não sacrifique. Não, é coisa séria. Estamos falando de sintomas na organização social. No caso brasileiro, a apatia e a passividade, o insulto impune da corrupção, respondem a essa falha tectônica simbólica. O trânsito, o levar vantagem, os meninos de rua, a impunidade, tudo a mesma coisa...
Mas eu não sou psicanalista, nem jornalista, nem comentarista político - você acha que convence? Mas você tem voz. Pode dizer algo. E de preferência, algo útil.
Não vê que esse é o fulcro da campanha eleitoral?
Campanha eleitoral? Hospital psiquiátrico? Fulcro? Isso aqui não é novela das oito não.
A figura de Lula desperta uma sintonia enorme no conjunto da população - violando uma tradicional regra implícita de mando da elite, de constituição do líder a partir dos traços das elites.
Essa identificação responde diretamente à tal fome do líder, da referência simbólica. E isso, apesar do esforço cotidiano da grande mídia em direção contrária.
Na atual campanha tudo fica dramatizado. Difícil imaginar um outro candidato livre das projeções dessa inhanha, livre da imagem de usurpador desse poder que estabelece um legado, uma direção. O Pai recomenda a Mãe. Quanto mais a oposição bate, mais fere o invólucro emocional desse enredo, e mais difícil fica...
E isso não é simplesmente populismo? Peronismo? Opa, calma lá!
Se há mesmo tal fome, não há como fingir que não existe. A pergunta real é saber se essa construção narrativa (do líder), do envolvimento popular, vai ser capaz de gerar transformação desejável da sociedade ou não. Se vai resultar em articulação benéfica entre segmentos sociais distintos ou em algum bicho estranho e corporativo.
Mas, não se pode construir participação popular ignorando as emoções do coletivo.
A questão real é portanto saber como o próximo governo vai reforçar o caminho para a construção de autonomia, preservando e ao mesmo tempo ultrapassando a imagem de Lula. Uma equação delicada.
Nesse caso a vigilância da mídia será imprescindível. E justamente por isso, é preciso pedir para que abandone a parcialidade atual, pois já está comprometendo o seu futuro papel de avaliação crítica.
Por tudo isso, temos mesmo que comemorar com emoção o movimento da Ficha Limpa, que aponta para um Brasil filho de si mesmo. E o fato de termos conseguido esse avanço (que se espera confirmado pelo Supremo) aponta para a possibilidade (e a necessidade) de tantos outros!!!
Peraí que eu tou com uma sede danada! Já consertaram o bebedouro?