Terra Magazine

 

Sexta, 17 de setembro de 2010, 10h44 Atualizada às 12h00

PT ainda pode ser chamado de esquerda, afirma sociólogo

Fabrício Escandiuzzi/Especial para Terra
Em Santa Catarina, Lula encontra operários
Em Santa Catarina, Lula encontra operários

Ana Cláudia Barros

Não é difícil encontrar hoje quem defenda a ideia de que os rótulos "esquerda" e "direita" foram desbotando com o tempo, perdendo sentido, dada as semelhanças entre os projetos dos principais partidos políticos brasileiros. O sociólogo Marcelo Ridenti, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), encorpa a lista dos que discordam disso.

Autor do livro Brasilidade Revolucionária: um século de cultura e política, editado pela Unesp, cujo lançamento nacional acontece na próxima quinta-feira (23), ele afirma que ainda é possível delimitar uma fronteira.

- Não acho que isso é algo ultrapassado. Se a gente pega a tradição do Brasil, há uma certa briga, que é meio cíclica, entre liberais internacionalistas e nacionalistas estatistas. Alguns que apostam na internacionalização da economia e no mercado como possibilidade de futuro para o desenvolvimento da nação e outros que apostam na forte intervenção do Estado, na proteção das empresas nacionais. Temos isso ciclicamente. Por exemplo: o governo Fernando Henrique era mais para o lado do internacional liberal, privatizante. O governo Lula é mais para o lado nacional estatizante, embora, as duas coisas convivessem, houvesse no governo anterior também investimento estatal grande.

Em entrevista a Terra Magazine, o também autor do livro O fantasma da revolução brasileira (Unesp), publicado originalmente na década de 1990 e que será relançado com edição revisada, fala sobre a constituição de um certo nacionalismo de esquerda no país, forte tanto na política quanto no meio artístico, durante a ditadura militar. Ridenti analisa a atuação do PT, que, segundo ele, apesar das mudanças sofridas ao longo dos anos, ainda pode ser identificado como um partido de esquerda.

O professor faz, também, um breve balanço dos oito anos do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apontando pontos altos e baixos.

Confira a entrevista.

Terra Magazine - Em "Brasilidade Revolucionária...", o senhor discute como se formou e, depois, se dissipou uma certa hegemonia cultural de esquerda no país. Havia um "romantismo revolucionário" por parte da classe artística durante a ditadura militar?
Marcelo Ridenti
- No início dos anos 60, até depois no começo da resistência à ditadura militar, constitui-se uma cultura de esquerda muito forte no Brasil. Se você quer que eu resuma, tem uma frase muito interessante do Caetano Veloso. Uma vez, perguntaram para ele: "Caetano, mas se o socialismo tivesse triunfado naquele tempo no Brasil, o que o socialismo teria feito no país?" Ele respondeu: "Não me interessa saber o que o socialismo faria do Brasil, mas o que o Brasil faria do socialismo."
Quer dizer, essa ideia da diversidade do povo brasileiro, das possibilidades culturais, que tornariam, digamos assim, possível o sonho, um tipo de socialismo moreno. Ia desde o socialismo nacionalista do Brizola até o nacionalismo dos comunistas. Se você pensar no nacional popular, que era muito influenciado pelo Centro de Cultura da UNE (União Nacional dos Estudantes) e pelas ideias do partido comunista, como também, de outro lado, o próprio Tropicalismo. O nome já diz: tropical. Mesmo sendo uma outra visão do Brasil... De qualquer maneira, havia várias ideias, muito efervescentes na época, de que estava em curso uma revolução brasileira, com vários projetos políticos, culturais diferenciados entre si, mas que apostavam muito nessa mistura de brasilidade. Uma aposta na potencialidade do Brasil e uma revolução que permitiria o povo brasileiro se expressar com toda sua potencialidade.

Até que ponto a ditadura militar potencializou isso?
Entre 1964 e 1968, a repressão foi mais branda, sobretudo, nos meios intelectuais, porque a classe média, em parte, havia apoiado o Golpe. Dava para respirar mais, digamos assim, até o Ato Institucional número 5, em setembro de 1968. Mas nesse período entre 1964 e 1968, o fato de existir uma ditadura, de alguma maneira, agregou esses projetos de esquerda contra ela. Cada um tinha seu projeto, mas havia um espírito muito forte de combate à ditadura. Havia uma certa diferença entre os grupos culturais e políticos, mas eles tinham uma unidade no sentido de que todos eram contra a ditadura. Por um lado, isso potencializou esse movimento. Por outro, quando a repressão vem muito dura, a partir de dezembro de 1969 e quando há o "milagre brasileiro", a sociedade foi tomando outro rumo. Esse sentimento revolucionário, de brasilidade, de esquerda tendeu a se diluir ao longo do tempo a partir dos anos 70.

O senhor já declarou que alguns estudiosos da democracia veem conexão entre o projeto político do atual governo e a proposta do Partido Comunista antes de 1964, "caracterizada por um poli-classicismo empenhado em tirar o país do atraso social". Disse também que, por outro lado, há analistas afirmando que este mesmo governo despolitizou movimentos populares e que evita críticas ao capitalismo. Para o senhor, o governo Lula está mais alinhado com quais ideais?
O Lula me parece que faz um governo poli-classista. Ele consegue um certo milagre em torno dessa ideia. E essa que é, digamos assim, a aproximação dele, não propriamente com as ideias comunistas, mas com o chamado desenvolvimentismo, e que era apoiado pelos comunistas. A ideia de que os problemas do pais se resolveriam com o desenvolvimento econômico.
No tempo da Guerra Fria, havia muita mobilização popular que hoje não há. Então, você ter possibilidades de alternativas de poder podia significar, aos olhos de alguns, a adesão ao bloco soviético. Isso dava uma efervescência política que hoje não existe mais. Você ter um governo hoje que fala em desenvolvimento, que desenvolverá enormemente, até de maneira inédita, o capitalismo no Brasil, mas, ao mesmo tempo, garantindo ou dando direitos, concessões trabalhistas, de bem-estar para a população, isso hoje não é mais perigoso.
Hoje, temos um governo que, à sua maneira, recupera o desenvolvimentismo daquele tempo, mas um desenvolvimentismo menos politizado e que consegue agradar desde o Delfim Neto até outros mais à esquerda, que dizem: "Retorna o desenvolvimento, aumenta a carteira assinada, melhora a educação". Tem contrapartidas sociais.

É por conseguir agradar diferentes seguimentos que o governo Lula tem aprovação popular expressiva, segundo pesquisas?
Na verdade, seja por que motivos forem, o fato é que está havendo um desenvolvimento. Como há desenvolvimento, é possível atender às demandas de vários setores da sociedade. É isso que, ao meu ver, faz com que o governo consiga essa enorme aprovação popular. Fora o aspecto da liderança carismática do Lula. Ao seu modo, ele está conseguindo atender os interesses de todo mundo. Agora, fica muito dependente da continuidade do desenvolvimento e dos bons ventos da economia.

Há quem diga que, hoje em dia, quando se fala nos principais partidos do país, não há sentido nos rótulos esquerda e direita. Quais são as reais diferenças políticas entre eles?
A gente poderia dizer que o pensamento de direita está mais centrado no mercado e o de esquerda na ideia de uma distribuição melhor de riquezas. Não acho que isso é algo ultrapassado. Se a gente pega a tradição do Brasil, há uma certa briga, que é meio cíclica, entre liberais internacionalistas e nacionalistas estatistas. Alguns que apostam na internacionalização da economia e no mercado como possibilidade de futuro para o desenvolvimento da nação e outros que apostam na forte intervenção do Estado, na proteção das empresas nacionais.
Temos isso ciclicamente. Por exemplo: o governo Fernando Henrique era mais para o lado do internacional liberal, privatizante. O governo Lula é mais para o lado nacional estatizante, embora as duas coisas convivessem, houvesse no governo anterior também investimento estatal grande.
Assim como hoje, o investimento do capital privado é muito importante. Até mais importante do que o capital do Estado. De qualquer maneira, são linhas divisórias. É possível encontrar, até mesmo dentro do atual governo, setores mais para o liberal, mais para o estatal e outros que avançam um pouco mais no sentido de pensar efetivamente uma distribuição de riqueza e uma reorganização mais profunda.
Essa metáfora da esquerda e da direita pode ser inútil se servir só como um rótulo, mas continua sendo muito útil se for pensada como uma metáfora espacial. Quer dizer, sempre há quem puxa mais na direção da igualdade, da distribuição de um lado. E outros que tendem mais para o lado do mercado como condução para o desenvolvimento do social.

Quais são as verdadeiras diferenças políticas entre os principais partidos do país?
A tendência dominante hoje no PT, por exemplo, é esse lado nacional estatista desenvolvimentista, embora haja, dentro do partido ou das forças que estão no governo, setores mais privatizantes. Se você pega o PSDB, é o contrário. Embora haja forças, como o próprio (José) Serra, que tende para o lado mais desenvolvimentista. O partido é mais afinado com as políticas que se chamaram neoliberais nos anos 90. Um peso maior do mercado, da iniciativa privada. Acho que isso não é uma diferença pequena.

O senhor acredita que o PT se descaracterizou ao longo dos anos, mesmo conservando essa tendência desenvolvimentista? O partido ainda pode ser identificado como um partido de esquerda?
Acho que ele ainda pode ser considerado um partido de esquerda. Eu diria que o PT é um partido de esquerda, mas diferente do que era no começo, quando apostava numa alternativa socialista e democrática, na possibilidade de construir um outro tipo de sociedade, de fazer reformas sociais mais profundas.
Hoje, ele é um partido muito mais institucional. O compromisso dele com reformas sociais radicais, digamos assim, é mais isolado dentro do partido do que foi em outro momento.

Falando em partidos de esquerda, há os mais radicais, como Psol, PSTU, PCO. O senhor considera que as propostas deles seriam viáveis nos dias de hoje?
É preciso analisar cada caso concreto. Tem desde o PCdoB, que é um partido que está na tradição dos partidos comunistas e hoje apoia o governo do PT, até o PSTU, o PSOL. Enfim, são partidos que, ao meu ver, têm importância porque eles forçam um debate e, ao mesmo tempo, uma possibilidade de alternativa para a gente enxergar que o mundo não termina no nosso quintal. Esta última crise mundial mostrou que a gente não pode imaginar, a médio e longo prazo, que a sociedade capitalista é o horizonte máximo da humanidade. Inclusive, em razão da agressão à natureza com o desenvolvimento quase ininterrupto, que tem um limite material. Daqui a 100, 200 anos, é possível que a sociedade tenha se modificado muito.
Esses grupos, às vezes, parecem muito pouco viáveis num projeto imediato, mas é importante que seja mantida a utopia de se conseguir uma sociedade mais justa, mais solidária, mais igualitária, com respeito ao meio ambiente. É isso que faz avançar democraticamente a sociedade.

Quais são os pontos fortes e fracos do governo Lula após oito anos?
É difícil fazer um balanço. Eu diria que um ponto forte é uma certa capacidade de retomar o desenvolvimento, mas direcionado para o social. Mas isso poderia ser bem melhor. A gente vê hoje que há projetos do governo para educação, saúde, o próprio bolsa-família, que apontam no sentido de uma sociedade brasileira que exija uma melhor distribuição de riqueza. A distribuição de renda melhorou razoavelmente, mas, ao mesmo tempo, a concentração de capital também aumentou muito.
O governo poderia investir, mais do que tem feito, em reformas socializantes, que melhorassem a vida da população.
Ao mesmo tempo, muitas vezes, a corrupção do sistema, tanto no Estado, quanto na iniciativa privada, acaba entrando nos vários partidos e isso, naturalmente, é algo que tem que se condenar. É preciso buscar o exercício do poder público com lisura. O governo tem se envolvido em certos escândalos que se pensava, anteriormente, serem exclusividade de outros partidos. Partidos que antigamente ocupavam o poder. E agora também está acontecendo com os que ocupam o governo, inclusive, com o PT.

Serviço:

Lançamento dos livros Brasilidade Revolucionária: um século de cultura e política e O fantasma da revolução brasileira
Data: Quinta-feira, 23 de setembro
Local: Ponto do Livro - Livraria, Café & Arte, em Pinheiros
Hora: 19 horas

 

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