Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Taeco Toma Carignato

Quinta, 7 de outubro de 2010, 08h09

Mídia e debates não atendem aos interesses da população

Taeco Carignato
De São Paulo


Candidatos a presidência em último debate do primeiro turno, realizado pela Globo (Foto: Mauro Pimentel/ Futura Press)

As campanhas políticas foram engessadas. Tiraram a vida dos debates políticos. Os grandes comícios, com direito às canções de protesto e de esperança, às barracas de vendas de "botons" e de camisetas políticas, além dos carrinhos de cachorro-quente, pipoca e algodão-doce, aquelas concentrações populares que eram exercícios de cidadania para as nossas crianças e adolescentes - futuros eleitores - já são coisas do passado. Proibiu-se a campanha de boca-de-urna, mas isso não impediu que as calçadas amanhecessem cobertas de papéis. Contudo, civilizadamente e civicamente, os eleitores compareceram à votação. Mesmo diante do dissabor de chegar às urnas e verificar que elas haviam sido deslocadas para bairros distantes.

Desta lamentável campanha, em que prevaleceram a mentira, a calúnia e a difamação pública veiculadas como fatos e verdades pela indústria midiática, dos debates que amornaram as torcidas políticas, o que ficou? Ainda é cedo para saber, pois as eleições ainda não terminaram.

Contudo, podemos adiantar algumas questões. Em primeiro lugar, está em questão a democratização das verbas públicas para a propaganda e publicidade. Inclusive às destinadas às campanhas eleitorais. Também é necessária a democratização das concessões públicas das emissoras de rádio e televisão. Aliás, esse processo de democratização da Comunicação já se iniciou no governo que se encerra. As reações ao que a mídia tradicional qualificou de "atentados à liberdade de imprensa" denotam, não exatamente os clamores pela "liberdade" e pela "informação", mas os seus temores quanto ao que vai ganhar ou perder com este ou aquele candidato, com este ou aquele partido que chegar ao poder.

Nunca entendi porque desapareceu aquele pool de emissoras de rádio e de televisão que transmitiam a Copa do Mundo. Será que alguém se lembra daquela época em que a gente podia optar pelos apresentadores e comentaristas que falavam menos bobagens? Bom, dirão os entendidos, a Copa do Mundo não é uma entidade pública, nem política, sendo passível à venda aos mais poderosos. Mas, já aí, pode-se verificar a tamanha concentração de poder em uma única emissora privada que mantém para si o direito de mostrar o Brasil como quiser, com os próprios pontos de vista, em acordo com interesses particulares e daqueles que contratam os seus serviços publicitários.

Também não entendo porque não se faz um pool de emissoras de TV e rádio e um pool de jornalistas qualificados e confiáveis para a realização e transmissão de debates políticos de interesse nacional. Já que os comícios não têm vez, por que não se democratiza os debates políticos televisivos e radiofônicos, com direito à presença de público, como acontece nas sessões do Congresso Nacional e do Tribunal de Justiça? "Auditório?" dirão as elites, "Isto é cafona". "Está fora de moda", dirão os sofisticados marqueteiros.

Mas tem gente que ainda gosta de programa de auditório. Gente que não tem acesso à diversificação dos meios de comunicação. Gente que é, principalmente, das classes C e D, parte recém-saída da miséria absoluta. Gente que é lembrada somente na ocasião do voto e das tragédias sociais. Se essa gente das classes C e D são os novos e os principais atores sociais, por que não lhes dar o direito de escolher a forma de ver e ouvir aqueles que poderão chegar ao governo de seu país e de seu estado? Por que não lhes dar o direito de fazer perguntas? Por que apenas os candidatos e os jornalistas têm o direito de questionar?

Além disso, por que se faz debate político televisivo apenas a três dias das eleições? É para não dar tempo ao telespectador que, sob eventual impacto da performance de algum candidato, recupere sua capacidade de reflexão e voltar a pensar? Os atuais debates políticos e suas transmissões dos debates não são feitos para levar os eleitores à reflexão. Para a indústria midiática que se especializou em entretenimento, no qual o ibope é medido pelos escândalos que produz e reproduz, o povo não deve pensar.

Mais uma pergunta: Por que Marina Silva, a qual dedicava profunda admiração e respeito por sua atuação ministerial em prol do meio ambiente e pelo seu passado de luta pelo reconhecimento social, clamou pelo segundo turno sabendo que não chegaria lá? Não clamou pelo voto de protesto, como aconteceu nos tempos da ditadura. Não poderia ser contra a inclusão à cidadania dos povos da palafita, dos catadores de papel, dos freqüentadores dos lixões e outros que estavam e ainda continuam marcados pela exclusão. Então, a que interesses ela e o seu novo partido serviram? Que acordos ocultos foram realizados às vésperas das eleições?

Pois, apesar de o povo ser, na democracia, o principal ator - sua performance nas votações é que vai dar o poder a este ou aquele candidato, a este ou aquele partido -, o nosso povo foi excluído das campanhas. Só aparece como pano de fundo nos programas oficiais formatados por técnicos da Comunicação e pelo Tribunal Eleitoral. As festas políticas populares desapareceram.

Se os eleitores cumpriram civilizadamente a sua obrigação cívica que é, mais que tudo, um direito conquistado, vamos esperar que a indústria midiática cumpra civilizadamente o seu dever de informar, sem distorções e deformações na comunicação. Só assim teremos uma democracia mais consistente.


Taeco Toma Carignato é psicóloga, psicanalista e jornalista. Doutora em psicologia social (PUC-SP) e pós-doutora em psicologia clínica (USP), é pesquisadora do Laboratório Psicanálise e Sociedade (USP) e do Núcleo de Pesquisa: Violência e Sujeito (PUC-SP).

Fale com Taeco Toma Carignato: taecotoma@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol