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Quinta, 7 de outubro de 2010, 11h43 Atualizada às 12h31

Trechos de artigo da psicanalista Maria Rita Kehl

O texto "Dois pesos...", da psicanalista Maria Rita Kehl, publicado no Estado de S. Paulo no último sábado (2), um dia antes das eleições, elogia a tomada de posição eleitoral do jornal - de apoio ao candidato José Serra, do PSDB - e critica as correntes de mensagens na internet que tentam desqualificar o voto dos mais pobres, beneficiados pelas políticas sociais do governo nos últimos anos.

Maria Rita Kehl ressalta o salto de qualidade de vida que as classes D e E tiveram nos últimos anos. "Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente", conclui a autora, depois de afirmar:

"Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola".

A psicanalista comenta mensagens que recebeu em sua caixa-postal relatando situações em que trabalhadores de renda baixa estariam supostamente recusando ofertas de trabalho no Ceará e no Piauí para continuar recebendo os benefícios do governo.

"Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria?", pergunta ela. "Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo".

Maria Rita Kehl afirma que o Brasil mudou para melhor, "ao contrário do que pensam os indignados da internet". E prossegue: "Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200?"

O artigo critica ainda os "cidadãos de classe A" que desqualificam a seriedade do voto de quem está saído da miséria: "Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos", conclui a autora.

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