Terra Magazine

 

Segunda, 25 de outubro de 2010, 08h01 Atualizada às 08h41

Encontro com sertanistas

Felipe Milanez
De Manaus (AM)

"Esse ano completa o centenário da criação do Serviço de Proteção aos Índios, pelo Marechal Rondon", pensei, uns meses atrás. "Isso não pode passar em branco."

Estava no Rio, junto de um amigo, Hugo Meireles, indigenista que segue uma das maiores tradições políticas de defesa dos índios, aprendidas com seu pai, Xará, seu tio, Apoena e o avô, Chico Meireles. "Hoje ninguém sabe da luta dessas pessoas, da luta dos índios", Hugo me disse.

Procurei Noel, outro amigo, já em São Paulo, filho de Orlando Villas-Bôas. "Ninguém valoriza esse passado, nem conhece o presente do que está acontecendo com os índios", Noel me disse, na sua casa, junto de sua mãe, a linda Marina, enfermeira que salvou muitas vidas no Xingu. Nos fundos da casa, um acervo imenso compõe parte incrível da história do Brasil.

Antes de eu ir trabalhar na Funai, a imagem que tinha de Rondon era um tanto desfigurada, com interferências de pouco conhecimento histórico meu, associada à imagem negativa que existe atualmente sobre os militares.

Na Funai, conheci o idealismo do Rondon em defesa dos índios. Indo a campo em expedições com sertanistas, nas fronteiras internas onde o choque cultural da modernidade se vê mais forte, nos locais é possível sentir a morte acelerada de uma cultura, ou ouvir relatos em primeira pessoa do assassinato de um povo. Percebi que o idealismo de Rondon, aquele de respeitar os índios como nações autônomas, e às quais deve-se pedir licença para entrar em seus territórios, estava vivo.

Uma das principais fontes de um trabalho jornalístico é o depoimento direto. A fonte primária. Ouvir diretamente da pessoa que presenciou o fato. E um dos aspectos mais interessantes no trabalho jornalístico é aquele de ter contato direto com essas pessoas.

Foi José Porfírio de Carvalho quem me contou a reação dos wairimi atroari, assustados e traumatizados da violência do exército, depois de um suposto ataque dos índios que teriam matado o seu grande parceiro da Funai, Gilberto Pinto - que investigações posteriores, feitas pelo próprio Carvalho, indicam que o assassinato tenha sido perpetrado pelos militares. Esse mesmo exército, alguns anos depois, colocou Carvalho na prisão, onde estava nos dias em que nascera sua filha.

"A primeira flecha entrou aqui, a outra, quando eu caí no chão", ouvi de Afonso Alves da Silva, quando passei por Altamira. Ele estava defendendo os índios arara do avanço da colonização durante a abertura da rodovia Transamazônica. Os índios estavam sendo massacrados, sofrendo ataques de colonos, e reagiam contra qualquer invasor. "Eu compreendo o sofrimento deles", me disse Afonsinho, "eles não tem culpa pelas flechas, pois não sabiam quem eu era. Nós, os brancos, estávamos destruindo o território deles."

José Carlos Meirelles também foi flechado. Ele mesmo me contou, certo dia, no distante posto de fiscalização Xinane, na fronteira do Acre com o Peru. No crânio. Sobreviveu. Os índios, ele justifica, defendem seu território. "São calejados de balas e correrias. Foram massacrados por seringueiros. Hoje, por madeireiros e garimpeiros no Peru. Estão se defendendo", ele diz. E Meirelles luta para ajuda-los a defender o território, mesmo sem ter contato direto com esses povos.

Da repressão que causa exílio de pessoas, foi de Odenir Pinto que ouvi o drama do tempo que passou, refugiado, numa aldeia xavante. Durante a ditadura militar, a abertura de fazendas em territórios indígenas era a política oficial. Pinto, funcionário público da Funai, lutava em defesa da demarcação do território xavante.

Passado o processo autoritário da ditadura, hoje em dia, me disse Odenir, "a situação dos índios está muito difícil". "A Força Nacional impede a entrada dos índios na Funai, isso é de uma violência tremenda", relata, entre uma série de análises sobre a relação da sociedade contemporânea com os índios que só a sua experiência permite fazer.

Nenhum texto que já li sobre a violência histórica, que é sentida até hoje, em Rondônia, me ensinou tanto sobre lá quanto as conversas que tive com Rieli Franciscato, Altair Algayer e Marcelo dos Santos, três sertanistas que vivem esse ambiente de velho oeste brutal ainda instalado nessa parte da Amazônia.

Franciscato, junto dos índios uru-eu-wau-wau, fiscaliza incansavelmente as invasões que são perpetradas no território indígena, por grileiros, garimpeiros e madeireiros. "Alguns garimpeiros voltaram a invadir a área, estou organizando uma expedição para comprovar essa denúncia e fazer a desintrusão", ele me disse, quando o convidei a vir para São Paulo, relatar o que está acontecendo por lá.

Ano passado, Altair Algayer passou uma semana tentando convencer Ururu de que a vida valia ser vivida. Mas ele não tinha argumentos potentes, frente ao desconhecimento que temos da cultura desse povo, que sofreu um genocídio e os remanescentes são pessoas traumatizadas. Descrevi esse drama na reportagem Tristeza Índia, publicada na edição de dezembro de 2009,da revista Rolling Stone. O relato de Algayer é cortante. Ele acompanhou, compondo a equipe de campo do sertanista Marcelo dos Santos, o martírio a que foram submetidos. E sofre, ao lado deles, com um fim iminente dos últimos sobreviventes no sul de Rondônia. Algayer aprendeu a ler escrevendo relatórios de expedições que fazia junto de Santos. Andavam por toda sobra de mato entre as fazendas de Rondônia, atrás dos últimos sobreviventes de povos massacrados. Encontrar a última família kanoe, a última akunts'u, e o índio do buraco, cujo mistério do genocídio que seu povo sofreu continua uma página em branco da violenta expansão da sociedade brasileira na Amazônia. Santos foi inúmeras vezes ameaçados de morte. Como cumpria uma função do Estado brasileiro, esta pode ter sido a razão pela qual os pistoleiros hesitaram abatê-lo.

Não são os únicos. Outros sertanistas continuam lutando nas frentes, ou estão aposentados, e guardam a memória dessa fronteira brutal entre as civilizações indígenas e a ocidental nos últimos anos. Tendo como forma de agir e viver, a moral que começou a ser instituída por Rondon, de dedicação aos índios até com a própria vida, e que foi seguida pelos irmãos Villas-Bôas, os Meireles, por Curt Nimuendaju, Darcy Ribeiro.

As conversas iniciais com os amigos Hugo Meireles e Noel Villas Boas, que ouviram de berço as histórias, e eu, que tive a chance pela profissão de ouvir estes relatos, resultaram num encontro, com patrocínio e realização do Sesc em parceria com a Associação Revista do Cinema Brasileiro, curadoria minha e de Noel, onde estas pessoas vão contar as experiências de vida nessas fronteiras. "Memórias sertanistas", que acontece nessa semana no Sesc Consolação (veja o convite ao lado). Hugo decidiu não continuar no projeto, mas deixou a inspiração da luta que trava hoje como funcionário da Funai.

De Altamira, Goiânia, Ji-Paraná, Boa Vista, lugares distantes pelo Brasil, estes sertanistas aceitaram vir compartilhar suas experiências. Tendo consciência do papel histórico que vivem e viveram. E que o registro dessas memórias é preciso ser feito - e compartilhado com o público que se dispuser a comparecer.

Rondon, quando chegava no Rio das expedições da Comissão Rondon, promovia palestras contando o que descobria naqueles distantes sertões. Os sertanistas de hoje, rondonianos, vão também expor o mundo desses sertões, que ainda vivem, em intenso conflito e choques de civilizações.

Felipe Milanez é jornalista e advogado, mestre em ciência política pela Universidade de Toulouse, França. Foi editor da revista Brasil Indígena, da Funai, e da revista National Geographic Brasil, trabalhos nos quais se especializou em admirar e respeitar o Brasil profundo e multiétnico.

Fale com Felipe Milanez: felipemilanez@terra.com.br

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Encontro "Memórias sertanistas" acontece nessa semana no Sesc Consolação

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