Terra Magazine

 

Quinta, 11 de novembro de 2010, 10h10 Atualizada às 17h13

Caso Mayara provoca ação por "discriminação a paulistas"

Ana Cláudia Barros

O caso da universitária Mayara Petruso, autora das declarações contra nordestinos que ganharam repercussão na web, incendiou o debate sobre preconceito regional, catalisou ressentimentos e ódios, deflagrou uma guerra virtual. Mas para o líder do Movimento República de São Paulo (MRSP), o também estudante de Direito Paulo Roberto Silva - ou Bartollo, como prefere ser chamado -, 25 anos, o episódio serviu de argumento para uma petição que pretende apresentar ao Ministério Público, à Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de São Paulo (OAB-SP) e à Defensoria Pública.

Empenhado em reunir provas para mostrar que paulistas são tão vítimas de preconceito e de discriminação quanto os nordestinos, Bartollo conta que já teve sua vida ameaçada e reclama que "só um lado que ganha repercussão".

- A gente também recebe muita mensagem preconceituosa contra São Paulo e contra o Sul. Recebemos ameaças de morte e nunca isso foi relatado. Não estamos querendo inocentar a Mayara. Ela vai receber o processo dela e tudo mais. A questão é que só está aparecendo um lado da moeda. Então, estamos organizando um manifesto na internet e estamos colhendo provas de preconceito. Queremos acionar o Ministério Público, a OAB-SP para que esse tipo de hipocrisia não continue acontecendo - falou, por telefone, a Terra Magazine, da casa onde mora sua mãe, em Bragança Paulista, mesma cidade de Mayara.

Apesar do aparente tom beligerante do discurso, ele garante que a iniciativa não deve ser interpretada como um contra-ataque. Diz ainda que acionar a OAB-SP não é uma tentativa de resposta à notícia-crime apresentada pela OAB-PE contra Mayara e outros que destilaram na internet preconceito endereçado ao Nordeste.

Para atestar que sua motivação nada tem a ver com revanchismo, Bartollo garante que dentro do MRSP, movimento criado em Rio Claro, há quase dez anos, há nordestinos, "inclusive, em posição de destaque". Entretanto, não soube estimar quantos deles havia entre os 1285 filiados ao movimento, que abandonou a ideia inicial de tornar São Paulo um país independente para abraçar um "projeto confederativo", que daria autonomia tributária e judiciária ao Estado.

- São Paulo recebe, no máximo, um e meio por cento da verba que destina a Brasília. É um absurdo São Paulo ser o Estado que deve mais, tendo 40% do Produto Interno Bruto nacional. É uma discrepância. Chegou um certo momento em que nos reunimos e falamos: "Olha, esse negócio de separatismo não vai funcionar agora".

Confira a entrevista.

Terra Magazine - O que exatamente vocês reivindicam?
Paulo Roberto Silva (Bartollo) -
Só um lado que ganha repercussão. A gente também recebe muita mensagem preconceituosa contra São Paulo e contra o Sul. Recebemos também ameaças de morte e nunca isso foi relatado. Não estamos querendo inocentar a Mayara. Ela vai receber o processo dela e tudo mais. A questão é que só está aparecendo um lado da moeda. Então, estamos organizando um manifesto na internet e estamos colhendo provas de preconceito. Queremos acionar também o Ministério Público, a OAB-SP para que esse tipo de hipocrisia não continue acontecendo.

Vocês receberam ameaças, agressões. "Vocês" quem exatamente? O Movimento República de São Paulo?
Essa questão não é relativa ao movimento. Eu, por ser líder desse movimento, que recebo as ameaças.

Você pode ser mais específico? Que tipo de ameaça?
Formação de grupos para descobrirem onde moro, ameaça de agressão na rua. Coisas que já aconteceram várias vezes, mas alguns anos atrás. E outra: há ofensas também do mesmo calão do que foi posto na internet contra nordestino ou piores. Durante muito tempo, parece que a lei foi feita para pessoas diferentes. A gente não vê isso na Constituição Federal.

Você citou a Constituição para falar de direitos, mas a ideia de separatismo é inconstitucional. Você tem consciência disso?
Veja bem, o Movimento República de São Paulo não prevê a separação total de São Paulo. Não queremos que São Paulo se torne um país sozinho. Esta é uma ideia equivocada. Existem alguns artigos que autores fizeram e a gente agregou. Por que no ínício do programa, em 2001, tinha realmente essa ideia radical de que era preciso separar.
Hoje não. Hoje queremos organizar um debate sobre a discussão do atual modelo federativo brasileiro. Visamos maior autonomia judiciária e legislativa para os estados.

Então, vocês abandonaram a ideia de separar São Paulo do restante do país, a exemplo daquele movimento do Sul, que ganhou visibilidade na década de 90?
A ideia é um projeto confederativo, porque na confederação, o Brasil não deixa de existir. O que acontece é que os Estados têm tal grau de autonomia que, por exemplo, se o governo central não assinar um tratado internacional, é possível que o governador de São Paulo possa assinar e o Estado venha a cumprir essa resolução, mesmo não estando separado.
Uma autonomia que já houve quando éramos província. Tanto que a São Paulo Railway foi construída por um acordo entre engenheiros britânicos e o presidente da província de São Paulo.

Qual o cerne da ideia? Por que isolar São Paulo do resto do País? Tem a ver com a questão tributária?
Na verdade, faço parte de um pequeno grupo que tem família que está há mais de 300 anos no Estado. Então, a gente já viu muita coisa acontecer e essas pessoas que vêm de famílias com uma cultura antiga... Na época colonial, São Paulo acabou se desenvolvendo de forma um pouco à parte do império. Então, é um sentimento que vem naturalmente.
Nesse caso, se preservou esse anseio. Só que, atualmente, a maior propaganda dos movimentos separatistas é a questão tributária. A grande concentração em Brasília dos impostos e a divisão injusta entre os Estados. Inclusive, São Paulo recebe, no máximo, um e meio por cento da verba que destina a Brasília. É um absurdo São Paulo ser o Estado que deve mais, tendo 40% do Produto Interno Bruto nacional. É uma discrepância.
Não há nada de xenofobia, de preconceito. É a questão tributária. Chegou um certo momento em que nos reunimos e falamos: "Olha, esse negócio de separatismo não vai funcionar agora".

Você diz "agora". Mas há planos para o futuro?
Não funciona pelo seguinte: constituir um outro País pode ocasionar uma separação dramática. A Constituição de 1988 realmente não permite isso. Então, a gente resolveu o lado prático. Se nosso problema é o repasse de verba, então vamos organizar um movimento que venha divulgar essa ideia de maior autonomia para os Estados, que os impostos fiquem neles e o governo federal exerça o controle militar e em relação à moeda e à soberania perante a comunidade internacional.

Quantos abraçaram a ideia, quantos fazem parte do movimento?
Dentro do movimento hoje são 1285 filiados. A filiação ocorre pelo site do movimento e um dos representantes vem abonar essa ficha.

Há critérios para aceitação dos integrantes?
Não existe um critério. Se a pessoa colocar os dados corretamente, não há porque não ser aceita. Inclusive, dentro do movimento, temos pessoas de todos os Estados.

Há nordestinos?
Também. Inclusive, em cargos de destaque. Os próprios nordestinos falaram: "A gente tem dentro do movimento uma convivência tão pacífica, de respeito".

Essa informação de que há nordestinos em cargos de destaque no movimento me provoca surpresa. Gostaria de conhecê-los para saber sobre o ponto de vista deles a respeito de toda essa polêmica.
Sim, claro. Posso encaminhar a proposta para eles e, dentro do possível, eles podem entrar em contato para falar um pouco. Temos pessoas de todos os Estados, pessoas que moram em São Paulo, mas são gaúchas, pernambucanas. Dentro dos cargos de liderança do movimento, tem gente até do Pará, cuidando indiretamente das finanças do movimento.
Então, a gente fica um pouco triste com esse tipo de divisão. A gente é uma família que luta pelo mesmo ideal.

Você consegue estimar quantos nordestinos fazem parte do movimento?
Não consigo estimar porque preciso dar uma olhada nos arquivos do movimento. Não posso te precisar o número exato porque a grande maioria mora em São Paulo e no cadastro não colocamos naturalidade. O movimento é mais forte no interior. Eu, praticamente, não tenho contato com a maioria dos filiados. Tenho contato com alguns da capital e da região do Alto Tietê: Suzano, Mogi das Cruzes...

Falando nisso, o que você achou das manifestações contra nordestinos na internet após a vitória da Dilma Rousseff ?
É a segunda vez que o País praticamente se divide na questão eleitoral. Essas ofensas, não quero culpar ninguém, mas isso é briga de militantes de partidos. Eles se ofendem mesmo. A gente faz parte das redes sociais e sabe que, em algumas comunidades, é direto esse assunto.
É provável que os eleitores da Marina (Silva) tenham ido com a Dilma, porque o (José) Serra, aqui em São Paulo, tem enorme rejeição, até por ter abandonado os cargos que ocupou. Eu, pessoalmente, tenho uma certa rejeição, porque ele nunca compareceu às comemorações da Revolução de 1932, na condição de governador.
A Dilma ia ganhar com ou sem o Nordeste. Então, essa é uma briga sem motivo. Essa questão das ofensas não é nova. O caso da Mayara foi o único que ganhou visibilidade, mas isso está rolando há muito tempo. Ela realmente errou e a lei está aí para punir crimes como o dela. Mas eu não aceito que apenas um lado seja punido, uma vez que isso está acontecendo há muito tempo. A gente quer Justiça para todos. Tanto que o manifesto se chama "Todos são iguais perante a lei".

A sua reclamação, então, é que os paulistas, sulistas também sofrem discriminação?
Com certeza. Temos provas. Elas não param de chegar por e-mail. Coisa de anos, meses atrás, mas que não tomaram proporção. Sempre foi assim. Sempre um lado (os nordestinos) apareceu e outro não. Eu me indignei com isso. Eu recebo preconceito. Então, essa é a função do manifesto. Ele vai ser online, mas as provas de descriminação estão sendo recolhidas. Vamos fazer uma petição.

Essas iniciativas do manifesto e da petição podem ser interpretadas como um contra-ataque?
Não é um contra-ataque. Queremos que os casos sobre esse tipo de preconceito (contra paulistas) comecem a aparecer. A gente não quer parcialidade nas histórias. Num Estado Democrático de Direito, não podemos admitir que a balança da Justiça seja pesada de um lado só.

Em relação ao caso Mayara, vocês vão tomar alguma providência?
A gente deixa a cargo da Justiça. É claro que o manifesto veio depois do caso dela. Pela indignação por uma parte ter aparecido e a outra não. Em relação ao movimento, quero deixar bem claro que o Movimento República de São Paulo não faz parte disso. É uma ação que tem apoio de alguns integrantes do movimento, sim, e conta com o apoio de alguns paulistas da internet. Inclusive, o manifesto está tendo uma boa aceitação.

Vocês são contra ou a favor da migração de nordestinos para São Paulo?
Na verdade, a gente não é contra. A questão não é essa. Nosso assunto principal é a discussão do atual modelo federativo e como ele pode ser mudado para melhorar a administração não só de São Paulo, mas também do país todo. Não faz parte da pauta do movimento a discussão sobre fluxo migratório. A gente está formando um projeto de federação.
Até por esse ponto, a pessoa que vem para São Paulo também tem direito a ter acesso aos serviços públicos, ter uma vida boa. Se a gente não recebe verba do governo federal, como essas pessoas que vêm para cá, na esperança de ter uma vida melhor, vão conseguir isso?

Você falou que o movimento é mais forte no interior. Quais cidades?
Ele está em Campinas, Vale do Paraíba, Ribeirão Preto... Em quais órgãos vocês pretendem apresentar a denúncia? Ministério Público, a OAB-SP, porque nós queremos que a entidade também tome providência a nosso favor, afinal, ela está aí para nos representar. Se for o caso, vamos cobrar providências do Ministério Público Federal.
Vamos pedir que também haja investigação sobre o preconceito contra paulistas. Ele existe e é secular. Queremos que o poder público tome parte disso, porque nós temos direitos e somos excluídos.

Você falou que a OAB-SP "está aí para nos representar". Parece uma contrapartida à ação movida pela OAB-PE, que se colocou em defesa dos nordestinos. É isso?
Na verdade, a gente não pode fazer uma representação, falando de preconceito contra paulistas, na OAB de Brasília, por exemplo. Queremos chamar a atenção para esses casos que vêm ocorrendo há muito tempo. A gente vai para o MP, para a OAB, procurar a Defensoria Pública e falar: "De um lado está acontecendo uma coisa. E a gente, como vai ficar?" Estamos tendo tratamento desigual. Eu mesmo já peguei no Twitter dizeres muito piores do que o da Mayara em relação aos nordestinos. Até declarando guerra a São Paulo.

Mas você não considera que esse tipo de declaração pode ser uma resposta à hostilidade contra nordestinos? Não é uma justificativa. Só estou avaliando. Isso não pode ser uma reação?
Não é, porque a gente vê muita declaração sem motivo nenhum. Agressão gratuita. Acredito que esse fenômeno acontece no mundo inteiro, mas isso fica a cargo dos sociólogos analisarem.

Você pode dar um exemplo de uma agressão considerada grave na sua opinião?
"Os paulistas são animais racistas e devem morrer. Defendo a execução contra todos os paulistas racistas e não racistas. Vão tudo pra debaixo da terra. Somos mais fortes do que eles. Somos 26 estados e eles, apenas um. Além do mais, os nordestinos e descendentes são maioria na capital. É hora de matarmos esses filhos da p... como se livra de um inimigo mortal. Pisar em um escorpião. Não tem essa de correr o risco de matar um bom paulista ou um paulista inocente. Isso faz parte do riscos..."
Este post estava em uma comunidade no Orkut e é do dia 9 de maio de 2008.

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