Terra Magazine

 

Terça, 23 de novembro de 2010, 08h18

O homem elefante

Paulo Rebêlo/Terra Magazine
Quando o orgulho de uma memória de elefante vira uma pequena maldição pessoal na vida
Quando o orgulho de uma memória de elefante vira uma pequena maldição pessoal na vida

Paulo Rebêlo
Do Recife (PE)

Invejo as pessoas de memória fraca. E desconfio que elas sejam mais felizes.

Antigamente, minha memória avantajada era motivo de orgulho. Hoje é um pouco maldição.

Pode ter sido alguma pancada na cabeça. Antes dos três anos de idade, não lembro de absolutamente nada. Parece-me normal.

O que me parece pouco normal é lembrar, dos três anos em diante, até da posição onde ficavam os brinquedos do primeiro colégio onde estudei, o Abelhinha, em Santarém, no Pará.

E de todos os outros. E de todos os amigos. E dos sonhos deles, das frustrações e das alegrias também. E de tantos detalhes de diálogos, atividades, argumentos e até paisagens de um monte de gente que, às vezes, só vi uma vez na vida.

Os anos passam e a gente não esquece de (quase) ninguém, querendo saber por onde estão e por que deixamos eles sumirem do mapa sem deixar um telefone, um endereço, um pombo correio.

A gente se muda pela décima quinta vez na vida e, em vez de malas com roupas, objetos e compras, trazemos apenas o peso da lembrança de pessoas interessantes e bons amigos que ficam para trás.

Amaldiçoados sejam eles.

Porque nós já somos. E nunca vamos conseguir explicar isso para nossas mulheres, sejam elas esposas, amantes, ex-namoradas, amores platônicos, paixões mal resolvidas, amizades coloridas.

Se a gente lembra até dos sonhos que sonhávamos quando criança, é lógico que lembramos de tudo sobre elas.

Cada detalhe, cada curva, cada sorriso, cada cheiro.

Passa uma década, duas, o mundo acaba e ainda parece que foi ontem.

E com tantas memórias pujantes como se fossem o presente, é inútil esperar que elas compreendam quando a gente joga fora um presente.

Presente de aniversário, que seja.

Ou quando não guardamos as fotos daquela viagem só de nós dois. Quando jogamos fora aquela camisa que ela tanto gostava. Quando queimamos aqueles cartões do Garfield.

Quem tem memória de elefante, se desfaz de coisas assim não é para esquecer.

É para tentar, inutilmente, não lembrar a cada minuto o que a gente já lembra a cada dia. Mesmo sem querer.


Paulo Rebêlo é jornalista. Site oficial - www.rebelo.org

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