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Sábado, 27 de novembro de 2010, 09h23 Atualizada às 10h13

"Dessa vez, bandidos se deram mal", diz diretor da Viva Rio

Ana Cláudia Barros

A sequência de ataques no Rio de Janeiro, capitaneada por facções criminosas, não surpreendeu o antropólogo Rubem César Fernandes, diretor executivo da ONG Viva Rio. Segundo ele, ondas de violência às vésperas de transições políticas estão no histórico do Estado, "como se fossem uma tentativa de intervir na fragilidade desses momentos, em que os governantes estão discutindo mudanças".

Fernandes, entretanto, identifica elementos novos no atual cenário. Um dos mais significativos deles foi o apoio dos fluminenses às intervenções das forças de segurança.

- Nunca vi a população contente com a polícia. Não é normal. Vi notícias, inclusive, de moradores da Vila Cruzeiro (favela ocupada pela polícia na última quinta-feira, 25), apoiando os policiais, dando comida, dando água. Isso, em geral, não acontece. O pessoal tem medo. É uma virada.

Outro diferencial, que, segundo o antropólogo, talvez explique a adesão de grande parte do povo do Rio, foi a política de ocupação e de domínio territorial, apresentada pelo Estado por meio das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

- Acho que o que mudou foi que, desta vez, tivemos uma política de segurança que mostrou um caminho de superação da situação. No passado, a gente andava em círculos, sem sair do lugar. Dessa vez, com as UPPs, com a estratégia de reconquista de territórios, de forma planejada e acompanhada de programas sociais e de urbanização, ou seja, dessa vez, há uma política que aponta uma direção para superar esse quadro.

Sobre o suporte dado pelas Forças Armadas - o que não chega a ser uma novidade -, especialmente a Marinha, o representante da Viva Rio, também observa distinções na comparação com o passado.

- Antigamente, quando se falava da participação das Forças Armadas, levantava-se um debate que precisava chamar constitucionalista para entender a discussão. E o resultado é que não acontecia nada. Era como se fosse uma intervenção federal no Estado e ninguém quer intervenção, o governo não quer sofrer intervenção, evita chamar. Agora, com a cooperação da Marinha, que utlizou equipamentos para potencializar a capacidade de entrar na comunidade, conseguiu-se uma presença muito mais forte.

Na avaliação do antropólogo, este fator, aliado ao apoio popular, surpreendeu os criminosos, que, num primeiro momento, conseguiram atingir o objetivo de chamar a atenção da mídia.

- Eles (traficantes) não contavam com uma resposta tão forte e tão unânime. Isso criou para eles uma situação difícil. Na Vila Cruzeiro, em 2007, houve um ano de batalhas terríveis e que não deram em nada. Agora, na Vila Cruzeiro ao menos, a polícia entrou com uma rapidez impressionante. Há vários aspectos novos que dão esperança de que, dessa vez, os bandidos se deram mal. Fizeram uma provocação para tentar intervir no debate, mostrar força, desmoralizar a política de segurança, mas ao contrário de desmoralizar, houve uma reafirmação.

Alinhamento de forças

Outro ponto destacado por Fernandes foi o alinhamento da política de segurança em todos os níveis: municipal, estadual e federal, um "alinhamento como nunca houve antes".

- Claro que há desafios muito grandes pela frente, porque eles (criminosos) fugiram da Vila Cruzeiro e se agruparam no (Complexo do) Alemão, que é mais espalhado, tem acessos mais difíceis. Pelo menos, essa mesma cúpula da segurança estava no comando em 2007, 2008, quando ficaram um ano inteiro brigando, sem sucesso, com os bandidos e com muita violência. Espero que tenham aprendido as lições feitas e tenham uma estratégia mais cuidadosa para consolidar o ganho que houve na Vila Cruzeiro. Se consolidar já é uma grande conquista.

Para o antropólogo, é importante que, depois de contornado o problema, haja uma política de compensação para os moradores da Vila Cruzeiro e da Penha. "Eles têm sofrido demais com a violência. É preciso direcionar para lá todo arsenal de projetos sociais hoje disponíveis".

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