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Segunda, 29 de novembro de 2010, 12h01 Atualizada às 17h17

Índios isolados em risco de genocídio no Mato Grosso

Felipe Milanez
Belém (PA)


Os índios Monde-i e Tucan, logo após o contato, em setembro de 2007, no posto da Funai. As roupas foram dadas pelas enfermeiras. Hoje, estão na floresta, mas ainda sob risco (foto: Funai/Divulgação)

"Tucan e Monde-i estão bem". Esta é a última notícia da Funai, relatada por Elias Bigio, o coordenador Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIRC) da instituição. Os dois sobreviventes do povo kawahiva (nesse caso, eles também são conhecidos como piripkura) seguem vivendo com contato intermitente, esporádico e raro com as equipes da Funai em campo que fazem a proteção da área.

Tucan e Monde-i são dois índios que passaram a estabelecer relações pacíficas com a Funai em 2007 - antes evitavam qualquer aproximação. Na área em que vivem, que tem o nome de Terra Indígena Piripkura, o órgão do governo tem esperança de encontrar outros sobreviventes.

Essa possibilidade se fundamenta nos relatos dos dois, e também segundo a índia Rita - uma parente deles que vivem em Rondônia, junto dos índios karipuna, desde que foi resgatada de uma fazenda. Além de Rita, Tucan e Monde-i, não há outros kawahiva desse povo que sejam conhecidos, cuja sobrevivência esteja confirmada. Caso sejam encontrados outros na floresta, haveria uma esperança de ressurgir este povo.

Não longe de onde estão os dois piripkura, a Funai tenta demarcar uma terra indígena para um grupo, que possivelmente faz parte do povo kawahiva, mas que permanece vivendo de forma autônoma - isolados - na floresta. Eles recusam todo tipo de contato com a nossa sociedade. Desde pelo menos quando começaram a ser massacrados por jagunços, sofrer ataques e assassinatos.

Esses kawahiva foram vistos pela Funai, há alguns anos, na região conhecida como Rio Pardo, no norte do Mato Grosso, e recusaram tentativas de aproximação - a última delas, frustrada, envolveu a tentativa de filmar este que seria "o primeiro contato". Segundo o órgão, faz dois anos que eles não são encontrados.

Os kawahiva do rio Pardo vivem na fronteira com o Amazonas - e podem estar migrando rumo ao norte, para fugir da intensa exploração de madeira que ocorre nesse momento no Mato Grosso. Ao mesmo tempo, eles não poderão ir muito longe: o Sul do Amazonas, na região de Apuí e Labrea, é hoje o grande vetor de uma nova fronteira econômica no Amazonas - leia-se nesse caso desmatamento, exploração madeireira ilegal, garimpo e grilagem de terra para pastagens.

"A expansão para o oeste no Brasil foi, e tem sido, muito violenta. Violentíssima", diz Bigio.

Ele sabe do que fala, e não pretende exagerar. Em outros locais, a CGIIRC que ele chefia tenta proteger povos em mesma situação. Pequenos grupos, sobreviventes e que, fisicamente, não terão condições de continuar a existir até mesmo em uma geração.

Quando li o clássico livro sobre o massacre aos índios norte-americanos, "Enterrem meu coração na curva do rio", de Dee Brown, ainda na adolescência, pensava no que teria ocorrido com os índios no Brasil, que teriam simplesmente desaparecido - segundo as informações que chegavam até a mim naquela época.

Triste foi saber que aquele passado violento contra os índios, relatado por Brown, ainda é presente em alguns locais da Amazônia.

As duas terras desses índios kawahiva estão em processo de demarcação pela Funai - que anda a passos extremamente lentos, estancados em cada esquina pelos fazendeiros interessados nas terras (alguns tem um interesse tão grande que são acusados de genocídio do próprio povo que hoje estão em litígio judicial-civil).

Durante o evento www.tedxamazonia.com.br apresentei uma palestra sobre o drama dos kawahiva para um público que também pensava que o triste fim dos índios no Brasil era coisa do passado. Ao menos, como a maioria das pessoas, não imagina que uma tragédia está em curso.

Surpresos e indignados, muitos decidiram se engajar numa rede social para tentar, de alguma forma, pressionar o estado e a opinião pública em favor dos kawahiva. Através de um jogo de realidade, aberto, chamado Oasis propõe-se um desafio, em que qualquer pessoa pode participar, sem botar a mão no bolso, e fazer o que estiver ao seu alcance para evitar que mais um genocídio se concretize no Brasil. Algumas informações foram reunidas no site www.salvekawahiva.com.br

Alem dessas duas terras indígenas onde a existência de remanescentes kawahiva está comprovada, outros locais na região do imenso município de Colniza (maior do que o estado de Sergipe), e que compõe o território tradicional desse povo, podem estar servindo de refugio para mais sobreviventes.

Há relatos de pessoas da região e evidências encontradas na floresta (como um acampamento, flechas, materiais produzido pelos índios), que indicam haver mais índios kawahiva, fora dessas duas terras. São cerca de cinco referências.

Ocorre que cada passo da Funai é monitorado e acompanhado de perto pelos fazendeiros na região, interessados em por fim aos kawahiva para ficar com as terras. Tentam impedir as equipes de se locomover. Ações que aconteceram em expedições recentes feitas pelo órgão, e que dificultam a realização de uma "varredura" em todos os locais onde podem existir sobreviventes.

Aqueles mesmos fazendeiros que são acusados de genocídio ainda conseguem, na Justiça, o direito de entrar na área, acompanhado pela Funai, e visitar os locais usados pelos índios - isso ocorre nas chamadas perícias judiciais, que colocam em risco a sobrevivência do povo em nome de uma burocracia processual. Os locais, depois de visitados, podem ser marcados pelos jagunços para voltarem e terminarem de por fim aos índios.

Quando Bigio me disse: "eles estão bem", ele sabia que essa condição é dentro do limite do que está acontecendo, e da própria capacidade de atuação do órgão.

Todos sabem que pessoas sobreviventes de um genocídio, e que continuam sob ameaça do mesmo agente, dificilmente estarão bem. Ele quis dizer que estão vivos e continuam vivendo na floresta, ainda livres, em uma área, agora, sob vigilância e fiscalização.

Em setembro, de acordo com a ong Imazon, Colniza foi o município campeão do desmatamento na Amazônia. Alguns desses pontos de devastação estão localizados próximos das referências dos kawahiva isolados - e outros cercando as terras onde vivem Tucan, Monde-i e também os isolados do rio Pardo.

Aquelas histórias antigas de brutamontes massacrando índios, que geralmente vemos com distanciamento como algo de um passado longinquo, lendo em livros ou vendo em filmes, podem estar se repetindo, ainda hoje, na Amazônia. Mais precisamente com os índios kawahiva que vivem no Mato Grosso.

Felipe Milanez é jornalista e advogado, mestre em ciência política pela Universidade de Toulouse, França. Foi editor da revista Brasil Indígena, da Funai, e da revista National Geographic Brasil, trabalhos nos quais se especializou em admirar e respeitar o Brasil profundo e multiétnico.

Fale com Felipe Milanez: felipemilanez@terra.com.br

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