Terra Magazine

› Terra Magazine › Política

Segunda, 6 de dezembro de 2010, 15h12

Expulsão foi para manter unidade do PT, diz Reginaldo Lopes

Ana Cláudia Barros

Custou caro o apoio de três prefeitos mineiros do PT ao chamado "Dilmasia", que propôs o voto casado na presidenciável Dilma Rousseff e no tucano Antônio Anastasia, reeleito governador de Minas Gerais. A exemplo do que ocorreu com o prefeito de Salinas, José Antônio Prates, que, em 2006, encabeçou o movimento "Lulécio" e teve como punição a exclusão dos quadros do partido, os chefes do Executivo das cidades Central de Minas (Gilmar Dornelas), Mutum (Gentil Simões), no leste do Estado, e Itaipé (Gilmar Nery), no Vale do Jequitinhonha, foram expulsos no último sábado (4), durante reunião do Diretório Estadual do partido. A acusação: infidelidade.

Em entrevista a Terra Magazine, o presidente do diretório petista em Minas Gerais, o deputado federal Reginaldo Lopes, explica que a penalidade máxima prevista no estatuto da legenda foi aplicada para manter a unidade do partido.

- A compreensão é a seguinte: o PT tem um princípio. O PT é um partido de diversidade. É um partido rico e se renova, inova na política porque é capaz de formular a liberdade de pensamento, de propor o contraditório, mas ele tem uma forma de construir sua unidade, que é a unidade nação, ou seja, você constrói na diversidade a sua unidade de ação. Nós entendemos que se não tivesse essa punição, esse príncípio do PT poderia cair por terra.

Ao todo, 13 casos de prefeitos que teriam aderido ao "Dilmasia" foram analisados, mas só foi caracterizada infração em cinco casos. Oito deles foram arquivados por ausência de provas, conforme Lopes. Além dos três expulsos, os prefeitos de Andradas, Ademir Perez, e de Itinga, Charles de Azevedo, que tiveram os casos avaliados pela Executiva, também sofreram sanções, só que mais brandas. Ambos foram advertidos e terão que se retratar publicamente.

Questionado se as divergências no momento da montagem do palanque mineiro para a disputa estadual tiveram acabaram fortalecendo do "Dilmasia", o deputado reconhece que o fato pode ter estimulado o movimento, mas faz uma ressalva:

-Sim, mas não há justificativa. Eu, por exemplo, era a favor do palanque duplo. Achei um erro da (direção) nacional impor a candidatura do PMDB. Não foi natural impor a candidatura. O natural seria aliança no segundo turno. Mas isso não desobriga que a decisão seja cumprida. O partido organizou a disputa interna, fez congresso, deliberou sobre aliança. Se há uma decisão coletiva, não justifica que não seja cumprida. Senão não é partido político.

Confira a entrevista.

Terra Magazine - Foram 13 prefeitos que teriam apoiado o "Dilmasia". Por que três foram expulsos?
Reginaldo Lopes -
A Minha orientação para o secretário de assuntos institucionais foi a seguinte: que todos fossem notificados e dessem explicações em 15 dias. Esses 13 foram notificados. Eles mandaram suas explicações e, acabada a eleição, chamei a Executiva, que avaliou as justificativas.
Nós entendemos que oito foram razoáveis e, de fato, não havia provas documentais, materiais, que comprovassem sua infidelidade. O que havia era uma interpretação da mídia e uma carta não autorizada ou, então, uma fala que se referia mais ao governador (Antônio Anastasia) do que ao candidato, do ponto de vista de relações institucionais entre município e estado. Não caracterizava um apoio ao Anastasia.
Oito casos foram arquivados pela Executiva. Os outros cinco, como havia dúvidas, foram submetidos à uma comissão especial, que eu criei pela Executiva. Esta comissão convidou os prefeitos e fez uma análise dos processos. Dos cinco casos, em dois não havia prova material que comprovasse a infidelidade. Nós encaminhamos para advertência e para retratação. Nos outros três casos, havia provas documentais, vídeos.

E por que se optou pela aplicação da pena máxima (expulsão)?
Teve até a proposta de uma pena alternativa, que seria a suspensão durante dois anos, mas essa proposta foi derrotada e prevaleceu a expulsão. A análise é que os casos são diferentes, mas, por exemplo, o prefeito de Central de Minas ia para a mídia, dava declaração. Era muito agressivo.
A compreensão é a seguinte: o PT tem um princípio. O PT é um partido de diversidade. É um partido rico e se renova, inova na política porque é capaz de formular a liberdade de pensamento, de propor o contraditório, mas ele tem uma forma de construir sua unidade, que é a unidade nação, ou seja, você constrói na diversidade a sua unidade de ação. Nós entendemos que se não tivesse essa punição, esse princípio do PT poderia cair por terra.

Então, essas expulsões tiveram o chamado "efeito didático"?
Na verdade foi em defesa de um princípio do partido, que é a unidade de nação.

Não foi a primeira vez que o PT de Minas vivenciou esse tipo de situação. Em 2006, o prefeito de Salinas (José Antônio Prates) apoiou o "Lulécio" e foi expulso. A que vocês atribuem isso?
Nós tivemos apoio do PSDB, do DEM para a Dilma... Achei que a tese nacional não foi o melhor para Minas, que deveria ter candidato próprio ou palanque duplo. Mas minha tese foi derrotada e eu tenho obrigação de acatar a tese do partido. O partido é um partido nacional, entende? Se não se estabelecer isso, o PT fica igual aos outros partidos, acaba. Fica partido onde tem forças regionais ou tem cacique... Manda e cada um faz o que quer. Passa a ser uma frente, e não um partido.

O fato de o processo de formação de palanque aí, em Minas, ter sido muito turbulento, na sua avaliação, influenciou, contribuiu para o surgimento do "Dilmasia"?
Sim, mas não há justificativa. Eu, por exemplo, era a favor do palanque duplo. Achei um erro da (direção) nacional impor a candidatura do PMDB. Não foi natural impor a candidatura. O natural seria aliança no segundo turno. Mas isso não desobriga que a decisão seja cumprida. O partido organizou a disputa interna, fez congresso, deliberou sobre aliança. Se há uma decisão coletiva, não justifica que não seja cumprida. Senão não é partido político.

Você falou sobre a imposição da direção nacional. Isso provocou "rachaduras" na legenda?
O PT tem divergências em relação a táticas eleitorais. Desde 2006, uma parte não aceitou a construção da aliança com o Newton Cardoso. Em 2008, também, a aliança não se unificou na política. Em 2010, o Hélio Costa também não unificou. Essa é a verdade. Agora, uma coisa é você não ter uma maioria política para a tese, apesar da maioria numérica. Isso não quer dizer que vai sair fazendo campanha para o outro.
Uma coisa é não fazer campanha para a sua tese. Até aí, tudo bem. Outra coisa é não fazer campanha e apoiar o outro candidato. É uma infidelidade partidária.

Nesta segunda-feira, vocês vão publicar no site do PT de Minas uma resolução política, que contém uma análise de como foi o pleito deste ano, do que poderia ter sido feito diferente. Você tem como adiantar o que será divulgado?
É uma resolução que sinaliza um novo momento do PT em Minas. Nós estamos juntos, construindo um projeto para 2012 e 2014. Nas nossas análises do processo de 2008 e 2010, não buscamos arrumar culpados. Acho que houve acertos e erros. Nós entendemos que somos vitoriosos em Minas. Não dá para uma parte do PT querer enfraquecer o PT de Minas, dizendo que não fomos vitoriosos. Nós fomos. Inclusive, onde fomos derrotados não foi uma decisão do PT de Minas, mas uma imposição da (direção) nacional.
A tática de aliança no primeiro turno - não que a gente não deseja fazer aliança com o PMDB. O partido é nosso aliado -, mas a tática de impor a candidatura do PMDB na cabeça de chapa foi uma tática equivocada da direção nacional.
Temos dois resultados: um da disputa nacional e outro da disputa estadual. Nós entendemos que se o partido tivesse uma tática de três palanques, com certeza, haveria segundo turno em Minas e a eleição seria outra. No primeiro turno, não se conseguiu uma transferência horizontalizada na campanha. Talvez, no segundo turno, essa transferência fosse maior. Se também não houve transferência verticalizada, não houve do Lula para o Hélio (Costa), mas também não houve do Aécio (Neves) para o (José) Serra. Então, não dá para atribuir a derrota ao PT de Minas.
Em Minas, nós acatamos a imposição da (direção) nacional, porém, consideramos que o PT de Minas, com toda força do Aécio, do Anastasia, eleito Itamar, nós conseguimos 1 milhão e oitocentos mil votos. Conseguimos tirar, descontar, zerar o placar eleitoral pela metade do eleitorado de São Paulo. Então, o PT de Minas é um partido vitorioso.

Você falou da questão da transferência, que não aconteceu. Mas o que foi, na sua análise, o principal responsável pela derrota do Hélio Costa?
A tática eleitoral equivocada. Eu defendia a tese do palanque duplo. Por que Lula (Dilma) não venceu primeiro turno? Por que a Marina (Silva-PV) despolarizou a campanha no final. Se tivéssemos candidatos do PT, PMDB e PSDB, haveria uma eleição de dois turnos e o resultado seria outro.

Veja também:
» MG: PT ganha apoio de lideranças verdes e sustenta Dilmasia
» Presidente do PT de MG: Governo do PSDB usa força de Dilma
» Prefeito em MG: Hélio e Patrus querem embate de Lula e Aécio
» "Não se faz política com atos de força", diz Anastasia
» MG: Anastasia lidera disputa com 42% dos votos, diz Ibope
» Aécio: "Isso é loucura, não cogito deixar o PSDB"
» Organizador explica evolução do movimento "Lulécio" em MG
» Siga Bob Fernandes no twitter

 

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol