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Sexta, 14 de janeiro de 2011, 07h52 Atualizada às 00h02

Após recriar Imprensa Oficial de SP, Alquéres deixa editora

Claudio Leal

O professor e engenheiro Hubert Alquéres anda entre os gráficos da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, aponta as máquinas compradas em recentes leilões e recolhe - nos pequenos montes - alguns blocos de páginas. "Está vendo este lugar? Mandei abrir as paredes e pôr vidraças. Havia pessoas que trabalhavam aqui e nunca tinham visto o maquinário". Minutos antes, nos corredores do prédio no bairro da Mooca, relatara ao repórter outras reformas, enquanto observava os funcionários na administração: "Mandei acabar com todas as salinhas de assessores disso e daquilo, de responsáveis por tal e tal setor. Mandei abrir tudo, derrubar as divisórias, para não haver mais feudos. O presidente não precisa de tantos assessores. Eu queria o espaço livre, aberto, para que todos se vissem. Isso muda o trabalho".

Depois de oito anos à frente da IO, na gestão que transformou a gráfica estatal em uma das mais importantes editoras do País, Alquéres se despede dos funcionários e lida com as últimas reuniões. O governador Geraldo Alckmin decidiu substituí-lo pelo ex-secretário de Gestão e tesoureiro do PSDB paulista, Marcos Monteiro. Nos últimos governos tucanos, Hubert Alquéres levou aos corredores burocráticos os toques de editor e agitador. "A Imprensa Oficial completa agora 120 anos e nasceu com a República. Ela trouxe o conceito republicano de transparência, de levar as informações às pessoas e dar perenidade a esses dados. Em 2003, o objeto social era só a gráfica. Propus a existência de uma editora. Em dezembro de 2003, a Assembleia Legislativa aprovou a mudança", conta.

Desde então, a IO lançou cerca de 600 livros, ganhou 21 prêmios Jabuti (dois de "livro do ano": "Resmungos", de Ferreira Gullar, e "Monteiro Lobato livro a livro: obra infantil"), além de criar as coleções Aplauso, Paulista, Uspiana e Gilberto Freyre, com o padrão de livros de arte um tanto impensável para o Estado. "A gestão de Hubert foi um fato extraordinário pela transformação que ele fez. Quem viu aquelas velhas instalações, aquelas velhas máquinas, aqueles espaços, seguramente não reconhecerá hoje a mesma Imprensa Oficial. As novas máquinas, os novos espaços, luminosos e civilizados onde aquele povo trabalha, tudo isso é sinônimo da belíssima gestão", diz o escultor e fundador do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo.

"Some-se a tudo isso as centenas de obras publicadas em favor da memória nacional e, sobretudo, da memória artística e cultural de São Paulo. Ele deixará saudades", completa Araújo. Em parceria com a Imprensa Oficial, o Museu Afro Brasil editou livros vinculados às exposições: "Yêdamaria", sobre a pintora e primeira estudante negra da Escola de Belas Artes da Bahia, "As artes de Carybé", "De Valentim a Valentim - A escultura brasileira Sec XVIII ao XX" e "A mão afro-brasileira". Alguns dos mais talentosos designers brasileiros se incorporaram aos projetos editoriais, como Raul Loureiro, Kiko Farkas, Magno Bonfim, Victor Nosek e Diana Mindlin.

No final de novembro de 2010, o jornalista e escritor Ruy Castro, que participa da edição fac-similar da revista "Senhor" (1959-1964), enviou uma carta ao governador eleito Geraldo Alckmin, com elogios a Alquéres:

"Uma imprensa 'oficial' publicando material de grande interesse para a cultura? É quase uma contradição em termos. Mas não a Imprensa Oficial de São Paulo. Desde que Hubert Alqueres a assumiu, não deixo de me surpreender e me encantar com a qualidade de seu catálogo, continuamente enriquecido por títulos que qualquer editora 'independente' gostaria de ter lançado. Mas, ao finalmente trabalhar com Hubert na edição de 'O melhor da Senhor', entendi tudo. É ele. Sob sua inspiração, as pessoas ficam subitamente criativas. E suas únicas exigências são o capricho, a qualidade, a vontade de dar sempre um pouco mais, no sentido da perfeição. Só lamento que não haja um Hubert nas outras 'imprensas oficiais' que conheço" - testemunhou Ruy Castro.

Terra Magazine apurou com membros do PSDB que, apesar do apoio de artistas e intelectuais a Alquéres, Alckmin incluiu a IO no reacomodamento dos aliados.

Ricupero defende continuidade
Autor de "Diário de Bordo - A Viagem Presidencial de Tancredo", lançado pela editora, o embaixador Rubens Ricupero defende a permanência do modelo da gestão. "Sou até suspeito, porque publicaram um livro meu. Mas acompanhei as outras edições de teatro, de clássicos brasileiros, quase tudo que eu conheço deles é de alta qualidade e preenche bem a função de uma editora oficial, porque esses títulos não são comerciais. O meu livro mesmo, que já está esgotando a segunda edição, durante muitos anos eu tive dificuldade de editar por causa do número de fotografias", relata o ex-ministro da Fazenda. Pela abrangência, Ricupero compara a IO à rede Sesc. "Eles nunca concorreram com as editoras privadas porque ficaram num nicho em que elas não entravam. Alquéres desempenhou um bom trabalho, espero que se mantenha", afirma Ricupero.

Nos bastidores, os autores temem um recuo dos projetos, em razão do perfil político do novo presidente. A coleção "Aplauso", coordenada pelo crítico Rubens Ewald Filho, se tornou uma das principais marcas e, em 200 títulos, resgatou a história de artistas e diretores como Aracy Balabanian, Ary Fontoura, Paulo Autran, Emiliano Queiroz, Betty Faria, Orlando Senna, Raul Cortez, Joana Fomm, Ítalo Rossi, Ruth de Souza e Mauro Mendonça, além das críticas cinematográficas de Inácio Araújo e Rubem Biáfora.

"Houve uma exposição no fim do ano passado, na Estação Pinacoteca, que mostrou um perfil da Imprensa Oficial que muita gente desconhece. A qualidade é de primeira linha mesmo, o cuidado do design gráfico, a preocupação com a qualidade do papel, da cor... É uma coisa esmeradíssima. É impressionante, com essa quantidade e essa qualidade, a gente ver pouca divulgação", avalia a gravadora e professora Renina Katz, que ilustrou o livro "Romanceiro da Inconfidência", de Cecília Meireles. Na equipe da editora, figuram Vera Lucia Wey, a gerente dos projetos, e Cecilia Scharlach, coordenadora editorial.

Atrás de sua mesa, Hubert Alquéres tem uma estante para expor os principais livros de arte editados pela IO: "Lina Bo Bardi", "Brasil - Imagens da Terra e do Povo", de Walter Firmo, "Maria Bonomi: da gravura à arte pública", etc. Ele se entusiasma ao falar do recém-lançado "Os Satyros", de Aimar Labaki e Germano Pereira, que esquadrinha o grupo teatral da praça Roosevelt, em São Paulo. "O projeto gráfico do Carlos Magno Bonfim ficou caprichado. Há fotos maravilhosas, que redimensionam os Satyros", comemora.

Assim que foi divulgada sua saída, começaram a chegar mensagens de apoio de Amir Labaki, Jefferson Del Rios, Roberto Freire e Marco Antonio Villa, entre outros. "Sua passagem por lá representou um salto de qualidade para a empresa e deixou marcas que ninguém pode apagar. Transformou uma 'repartição pública' em empresa eficiente, de qualidade e referência na área", escreveu o historiador Villa.

Alquéres afirma que recebeu convites de trabalho, mas prefere não comentá-los antes de decidir qual será seu próximo destino. "Agora é uma fase de renovação", sorri. Descendo as escadas, para visitar as obras de uma nova sala da IO, ele diz que não esperava um crescimento "tão rápido" da editora: "Confesso que eu achava que ela iria demorar alguns anos para ter dimensão nacional. Minha vontade era perenizar a história e associar a Imprensa Oficial às questões da cultura".

Atual presidente do Conselho Estadual de Educação, Alquéres recorda-se da relação próxima com os governadores de São Paulo. José Serra chegava a dar dicas de publicações, a exemplo do livro do fotógrafo Valdir Cruz, "Raízes". Leitor voraz, Cláudio Lembo o convidava uma vez por mês para conversar sobre os lançamentos. "Eu passava uma tarde no Palácio dos Bandeirantes. Ótimo!", lembra. Pensando bem, Hubert pode revelar a próxima parada: "Vou ao cinema. Quero ver o argentino Abutres, de Pablo Trapero. Já viu esse filme?".

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Claudio Leal/Terra Magazine
Demitido pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o professor Hubert Alquéres transformou a Imprensa Oficial, em oito anos de gestão, numa das editoras mais importantes do País

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