Terra Magazine

 

Segunda, 17 de janeiro de 2011, 10h50 Atualizada às 23h50

Lêdo Ivo: "herdeiros famélicos" prejudicam obra de Bandeira

Arquivo Lêdo Ivo / Acervo Instituto Moreira Salles/Divulgação
O poeta Lêdo Ivo critica o controle de herdeiros famélicos sobre a obra de Manuel Bandeira: Nunca vi um parente na casa de Manuel Bandeira. Depois que ...
O poeta Lêdo Ivo critica o controle de "herdeiros famélicos" sobre a obra de Manuel Bandeira: "Nunca vi um parente na casa de Manuel Bandeira. Depois que ele morreu, surgiram os parentes e o controle"

Claudio Leal

Cansado de esbarrar em entraves de direitos autorais, o poeta e jornalista Lêdo Ivo, 86 anos, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), decidiu manifestar-se contra a condução do espólio literário de Manuel Bandeira - controlada por herdeiros indiretos - e pedir à presidente da República, Dilma Rousseff, que torne de utilidade pública a obra do autor de Libertinagem.

Lêdo Ivo dedica a Bandeira um capítulo do seu livro de memórias, "Vento do mar". Como o projeto é iconográfico, ele deseja utilizar fotografias de seu arquivo - entre elas, a rara imagem de Bandeira com bigode. Surgiu o impasse. Os herdeiros do escritor, representados pelo agente literário Alexandre Teixeira (da Solombra Books), cobraram um valor exorbitante para a reprodução das imagens. O livro está congelado, à espera de um acordo.

Aconselhado pelo editor, Lêdo Ivo escreveu uma carta a Teixeira, também neto da poeta Cecília Meireles, mas até hoje não recebeu nenhuma resposta. Em entrevista a Terra Magazine, ele testemunha a ausência de familiares na casa de Bandeira, durante 30 anos de amizade.

- O que me impressionava em Manuel Bandeira era exatamente a solidão, como ele dizia que havia perdido todas as pessoas... E, ao longo de toda a minha convivência com Manuel Bandeira, eu nunca vi na casa dele, que eu frequentava muito, e em outras ocasiões que eu o acompanhava, nunca vi um parente. Depois que ele morreu, então surgiram os parentes e o controle da obra.

Os herdeiros do poeta são Antônio Manoel Bandeira Ribeiro Cardoso, Carlos Alberto Bandeira Ribeiro Cardoso, José Cláudio Bandeira Ribeiro Cardoso, Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira e Marcos Cordeiro de Souza Bandeira. No mercado literário, Alexandre Teixeira é conhecido pela severidade com que cuida dos direitos autorais. Terra Magazine procurou Teixeira por telefone, na sede da agência, mas não o localizou.

O poeta Lêdo Ivo já teve problemas com a Solombra, por ter sido incluído na lista de autores representados. "Nunca fui, não sou da Solombra, meu nome foi usado indevidamente. Já tem uma comunicação judicial", ressalta.

Não é o primeiro a ter querelas com o agente. A Sarapuí Produções Artísticas, dona do selo Biscoito Fino, foi processada por ter lançado em DVD o curta-metragem "O Habitante de Pasárgada", de Fernando Sabino e David Neves. Esse filme reutilizou o curta "O Poeta do Castelo", de Joaquim Pedro de Andrade, que fez imagens raras do cotidiano de Bandeira. A produtora "Filmes do Serro", da família Andrade, foi alvo de uma ação judicial similar, em 2010, por ter editado o curta num DVD.

- Acho o seguinte: como esse problema é importante, uma providência da presidenta Dilma seria colocar a obra do Manuel Bandeira e de outros escritores como de utilidade pública - propõe Lêdo Ivo.

Para o membro da ABL, a obra do amigo não pode atender à "gula famélica" dos seus herdeiros indiretos. Ele cobra uma política bem definida do Ministério da Cultura:

- Seria já o tempo de ventilar o problema do direito à imagem no Brasil, a quem pertence a imagem, se é lícito que herdeiros que só aparecem depois da morte dos escritores, com uma gula famélica, se apropriem de uma obra.

Confira a entrevista.

Terra Magazine - Qual é o problema com seu livro?
Lêdo Ivo - O problema é o seguinte: toda vez que há mudança presidencial, inúmeras pessoas dos meios intelectuais, falando em nome dos intelectuais, fazem uma porção de reivindicações, na área cinematográfica, em várias áreas. Na minha opinião há um problema, no Brasil, que precisa ser resolvido, que é o problema da imagem. Nós vivemos na época da imagem, do espetáculo, e o Brasil é um dos países mais rígidos no que tange ao uso da imagem. E eu lhe dou um exemplo...

Qual?
Fui amigo do Manuel Bandeira, uma coisa notória, durou 30 anos, uma convivência hoje até clássica, com um poeta jovem... Essas coisas todas. Isso marcou muito a minha vida. O que me impressionava em Manuel Bandeira era exatamente a solidão, como ele dizia que havia perdido todas as pessoas.

Numa "limpa solidão".
Uma vida solitária. E, ao longo de toda a minha convivência com Manuel Bandeira, eu nunca vi na casa dele, que eu frequentava muito, e em outras ocasiões que eu o acompanhava, nunca vi um parente. Depois que ele morreu, então surgiram os parentes e o controle da obra. De modo que eu comecei a enfrentar problemas em relação a Manuel Bandeira. Por exemplo, para que uma opinião de Manuel Bandeira sobre mim figurasse num livro - por exemplo, na minha tradução de Rimbaud - foi preciso até pedir autorização aos parentes de Bandeira...

Até uma opinião sobre seu livro?
Até opinião. Agora vou publicar um livro de memórias e vocações, "Vento do mar", e tem uma parte somente dedicada a Manuel Bandeira, "Cartilha de Pasárgada", reunindo uma parte das minhas evocações. Como é um livro iconográfico, uma espécie de fotobiografia, eu gostaria de incluir fotos do Manuel Bandeira, que eu tenho numerosíssimas. Dezenas e dezenas de fotos, porque Manuel Bandeira gostava muito de fotografia.

Ele costumava enviar retratos aos amigos, não é isso?
Gostava. Vou lhe contar uma história. Quando já estava muito velhinho e até um pouco, vamos dizer, sensível a certas coisas, uma vez ele resolveu criar o bigode, para depois eu publicar na Tribuna da Imprensa ele de biogode. Uns 15 dias depois eu mandei fotografá-lo de bigode. E eu ainda tenho esse retrato! Uma coisa raríssima! Mais raro do que Clarice Lispector com um gato ou um cachorro (risos). Você veja o grau de intimidade. Me lembro que, quando saiu o retrato dele de bigode, Paulo Francis escreveu um artigo furibundo sobre isso (risos). De qualquer maneira, eu enfrento um problema. Quero publicar um livro e eu não posso usar fotos de Manuel Bandeira porque essas fotos dependem dos herdeiros... E os herdeiros cobram...

Quanto eles cobraram?
Ah, não sei... Não me lembro. Tem um camarada aí chamado Alexandre (Teixeira) que às vezes cobra uns preços mirabolantes... Uma vez, até escrevi uma carta para ele, aconselhado pelo meu editor, e ele nem sequer respondeu. Acho o seguinte: como esse problema é importante, uma providência da presidenta Dilma seria colocar a obra do Manuel Bandeira e de outros escritores como de utilidade pública.

O que ocorre em outros países?
Ah, vou lhe dar um exemplo! Fui à Grécia agora. Mas aí é outro problema de direitos autorais. Lá, os direitos autorais são de 50 anos, aqui é de 70. A literatura brasileira é inteiramente desconhecida na Grécia, só mesmo Paulo Coelho, o único autor brasileiro conhecido. Então, um diplomata e poeta traduziu "Vidas Secas", de Graciliano Ramos. E está um problema, que eu não sei se foi resolvido: a lei grega estabelece 50 anos, a lei brasileira 70 anos. O editor brasileiro quer que essa edição seja regida pela lei brasileira. O editor brasileiro quer que seja regida com a lei grega. Não sei como vai ser resolvido. Um clássico como Graciliano Ramos, num país como a Grécia, que não conhece a literatura brasileira... Surgiram esses entraves.

Houve problema também com a obra de Cecília Meireles...
Seria já o tempo de ventilar o problema do direito à imagem no Brasil, a quem pertence a imagem, se é lícito que herdeiros que só aparecem depois da morte dos escritores, com uma gula famélica, se apropriem de uma obra.

E não são herdeiros diretos. Isso agrava?
Não são herdeiros diretos! Manuel Bandeira era solteiro, não teve herdeiros diretos. A única irmã dele morreu. Primos longínquos, etc. É um problema importante, que devia ser ventilado e debatido pelo Ministério da Cultura. No Brasil, a cultura se limita a uma espécie de luta do ponto de vista dos nossos cineastas, saber quem tira mais dinheiro do Estado para os filmes. Há sempre uns grupos famélicos, atrás de todos os ministros da Cultura, pedindo dinheiro para isso e aquilo. Na minha opinião, esses problemas são menores, deveria haver uma política do ministério sobre uma coisa essencial, que é o direto à imagem. A quem pertence a imagem do escritor? Aos herdeiros famélicos? (risos)

Como está sendo essa discussão na Academia Brasileira de Letras?
A Academia é uma instituição muito morosa nesse sentido. Não é o foro adequado. O foro adequado é a cena intelectual como um todo. Posso até suscitar esse problema em março, mas não creio que dê frutos. Pode ser resolvido com o Ministério da Cultura, com a própria presidenta da República, mandando examinar a legislação, saber até que ponto essa legislação é prejudicial à cultura nacional. É uma legislação que impede que um poeta da altura de Manuel Bandeira seja corretamente cultuado.

Agora, vamos a um plano pessoal. O senhor era amigo de Manuel Bandeira. Sente-se agredido por não poder publicar as fotos?
Claro, porque é uma parte de minha vida pessoal. Fui amigo de Manuel Bandeira. Tenho dezenas e dezenas de fotos minhas com Manuel Bandeira... E eu não posso usar essas fotos em que eu estou ao lado de Manuel Bandeira, porque teria que pedir autorização para 50% da foto. É um negócio de louco! Eu estou com Manuel Bandeira e eu não posso usar. Se eu publicar essa foto com Manuel Bandeira, serei processado. Houve até um fato impressionante daquele cineasta baiano, o Glauber Rocha, que fez um filme sobre Di Cavalcanti. Esse filme sumiu inteiramente! A família vetou. Esse problema dos obstáculos, dos entraves, o governo deveria estabelecer uma política para alterar a legislação.

O senhor lançou, pelo Instituto Moreira Salles, um livro de correspondências, "E agora adeus". Houve problema para usar as cartas?
Desse processo eu não participei. Foi feito pelo instituto, pelo escritor Gilberto Mendonça Teles, que fez as notas de pé de página. De modo que eu ignoro como é que se processou. Só houve minha participação pessoal. Agora, vamos supor que queiram publicar outras cartas. Os herdeiros são os donos até das cartas...

Quem recebe a carta, em tese, não deveria ser o proprietário dos direitos?
Quer dizer, por exemplo, eu devo me considerar proprietário das cartas que João Cabral de Melo Neto mandou para mim. E não a família de João Cabral. Mas aí é outra coisa, porque a família dele sempre foi muito delicada comigo, nunca houve esse problema. Mas é outro problema que deveria ser ventilado. As cartas que Clarice (Lispector) me enviou foram extraviadas, mas podem reaparecer algum dia. E elas pertencem à família de Clarice ou a mim, o destinatário?

 

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