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Segunda, 17 de janeiro de 2011, 08h27

Suje suas mãos

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Escolas brasileiras deveriam valorizar trabalhos manuais, defende professor de Educação
Escolas brasileiras deveriam valorizar trabalhos manuais, defende professor de Educação

Nelson Pretto
De Salvador (BA)

Tempo de férias para a meninada. As famílias mais pobres aproveitam para incorporar toda a turma à labuta para uma graninha extra. Aquelas em melhores condições financeiras, ficam a buscar o que fazer com os que não estão na escola.

O livro de Matthew Crawford sobre a importância de se trabalhar com as mãos no mundo contemporâneo foi inspirador deste texto. Assim como ele, também percebo o quanto deixamos de lado os trabalhos manuais. Nossa vida está repleta de equipamentos, todos eles enlatados, hermeticamente fechados, de tal forma que não nos resta alternativa a não ser trocar tudo quando algum desses aparelhos quebra. Não experimentamos futucar nada!

Bom exemplo disso são os carros, hoje quase todos computadorizados. Alguns modelos já nem vêm com aquela varetinha para controle do nível óleo. Tudo está num painel informatizado. Muitos jovens já adquirem os seus primeiros carros com ar condicionado e, fechados nestes e com um som nas alturas, nem ouvem o barulho do motor, o que não permite ao motorista-aprendiz "sentir" o ruído do carro e, assim, compreender melhor como ele funciona. Nada disso importa, basta rodar. Quebrando, trocam-se as peças por inteiro. Isso vale para carros, geladeiras, liquidificador, som, qualquer coisa.

Também nossas escolas pouco valorizam os trabalhos manuais ao longo do ano. É sempre muito aula-conteúdo! Hoje, muitas crianças têm até nojo de pegar em barro, não gostam de se melar, não caminham descalças, não sabem apertar um parafuso, não observam a lua e as estrelas, não trepam mais em árvores - verdade que estas cada vez mais raras!

Experimentar essas sensações é algo que nos dá outra dimensão da vida e possibilita outra relação com os saberes e conhecimentos. Fazer experimentos científicos com coisas simples, construir bugigangas com sucatas, montar um radinho de galena (será que você sabe o que é isso?!) e tantas outras pequenas coisinhas, vão possibilitando uma formação científica mais ampla, uma relação mais direta com a natureza e o ambiente e, desse modo, uma formação mais sólida em todos os campos.

Mas não tenhamos saudosismo dessas atividades manuais em contraposição aos avanços tecnológicos, principalmente das comunicações, com destaque para a internet. Resgatar essas práticas manuais é absolutamente compatível com uma plena imersão no universo da cibercultura. Navegue pela internet e encontre pistas de "Como as Coisas Funcionam", descubra o tal radinho de galena e tente fazer um, passeie pelos sites em busca de experiências e técnicas para consertar as coisas.

Uma forte articulação entre educação, cultura, ciência e tecnologia pode contribuir para que suas férias sejam mais bacanas, além de contribuir para pensar em escolas que se constituam em ricos espaços formativos dessa juventude, que é estimulada a fazer poucos trabalhos manuais e a pouco criar. Uma juventude que, na primeira necessidade, compra tudo pronto!

Nestas férias, role no chão, trepe em árvore e, se possível, participe de colônias de férias, mas escolha as mais rústicas - não pense em hotel cinco estrelas, com tudo à mão -, privilegie a experiência de viver o coletivo, em situações mais próximas da realidade de boa parte da população brasileira. Futuque um jardim ou a horta da comunidade. Pegue um aparelho velho quebrado e desmonte-o, olhe as peças, tente dar outra utilidade para elas. Faça experimentos, faça arte. Dispa-se das resistências e aproveite a vida simples, com as mãos meladas de barro ou de graxa.


Nelson Pretto é professor associado da Faculdade de Educação/UFBA. E-mail: nelson@pretto.info

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