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Terça, 18 de janeiro de 2011, 08h09

Primeiro desafio de Dilma é ambiental

Roberto Stuckert Filho/13.jan.2011/Divulgação
Presidente Dilma Rousseff e o governador Sérgio Cabral sobrevoam regiões atingidas pelas chuvas no estado do Rio de Janeiro
Presidente Dilma Rousseff e o governador Sérgio Cabral sobrevoam regiões atingidas pelas chuvas no estado do Rio de Janeiro

Amália Safatle
De São Paulo

Não foi nenhuma crise econômico-financeira, nem um colapso energético. O primeiro fato a desafiar a nova presidente da República veio justamente de uma área com a qual ela é pouco familiarizada - a ambiental - e que anteriormente já a tinha feito descer do salto da vitória fácil no primeiro turno para andar à busca de votos no segundo, aturando uma pedra no sapato chamada Marina Silva.

Os mesmos pés precisaram pisar na lama dos mais de 600 mortos da região serrana do Rio, que dão a trágica dimensão do que acontece quando a sociedade age sem levar em consideração as características da natureza da qual faz parte.

A ocupação indiscriminada do solo, favorecida por políticos populistas, mais a inação e o despreparo dos governos no quesito adaptação à mudança do clima "prepararam o terreno" no Rio, assim como em tantos outros lugares que já retrataram e retratarão o mesmo tipo de cena, com menores ou mais dimensões.

Ainda que não haja consenso quanto ao efeito da mudança global do clima nesse caso do Rio - outros fatores também estariam em jogo, como La Niña e alteração no microclima regional - um fato supera os argumentos: nos últimos 30 anos, o número de desastres naturais relacionados a fenômenos climáticos saltou mais que 260% em todo o mundo, segundo a resseguradora Munich Re.

O dado é citado pelo jornalista Mac Margolis, no Estadão, ao referir-se a nevascas, enchentes históricas e deslizamentos nos quatro cantos do mundo. "Seja bem-vindo ao século da defesa civil", diz o apropriado título do artigo. Como ensinam os especialistas em clima, não que a mudança climática seja a responsável por determinado desastre aqui ou ali: o que ela faz é aumentar a ocorrência de extremos - tornados, chuvas torrenciais, secas severas.

Assim, familiarizada ou não, a presidente Dilma e os próximos que a sucederão no cargo terão suas políticas cada vez mais no olho do furacão ambiental. O "privilégio" não é brasileiro.

Um recente estudo do Banco Mundial, intitulado Economics of Adaptation to Climate Change (Economia da Adaptação à Mudança Climática), calculou entre US$ 70 bilhões e US$ 100 bilhões (a preços de 2005) o custo que os países em desenvolvimento deveriam desembolsar anualmente, até 2050, para lidarem com as consequências que um aumento de 2 graus Celsius na temperatura mundial traz à produção agrícola, à oferta de água, à saúde humana, à infraestrutura urbana e aos impactos nas zonas costeiras. Outros estudos sustentam que essas cifras estão subdimensionadas e podem ser três vezes maior.

Investimentos em prevenção e adaptação são politicamente menos visíveis do que grandes obras de infraestrutura, como a da questionável hidrelétrica de Belo Monte - que obteve a proeza de ser insustentável em todas as pernas do tripé: a ambiental, a social e a econômica. Resta pôr na balança o desgaste político que tudo isso junto pode causar.

Conforme circulou na mídia, mais um presidente do Ibama caiu por conta do pivô Belo Monte: Abelardo Bayma Azevedo, que pediu demissão alegando motivos pessoais, mas, segundo a Revista Época, revelou a amigos que deixou o posto depois de ter sido pressionado pela diretoria da Eletronorte a emitir a licença definitiva em nome do Ibama para a instalação da usina.

Antes dele, Roberto Messias também havia deixado o cargo e a própria ministra Marina Silva teve em Belo Monte mais um motivo para demitir-se, "perdendo a cabeça" antes que "perdesse o juízo". Usando esse "gancho", o site ativista Avaaz está convocando a sociedade a se posicionar contra as obras da hidrelétrica que estão prestes a começar.

E aqui, o pesquisador-titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Philip Fearnside, expõe as razões pelas quais a hidrelétrica de Belo Monte não faz o menor sentido.

Do céu à terra, os recados estão aí: chuvas, soterramento, mortes. A presidente Dilma ganhará se der ouvidos a eles. Rever Belo Monte seria uma primeira oportunidade. Coibir os abusos da nova proposta de Código Florestal também, até porque, se aprovado, a chances de mais desastres como o da região serrana do Rio e os de Santa Catarina (em 2008 e 2009) vão se multiplicar ano após ano. O aquecimento global dá o empurrãozinho que precisar.


Amália Safatle é jornalista e fundadora da Página 22, revista mensal sobre sustentabilidade, que tem como proposta interligar os fatos econômicos às questões sociais e ambientais.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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