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AFP
"Bagagens enormes, bem maiores que o espaço, passaram a incomodar os demais passageiros", diz jornalista.
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Eduardo Tessler
De Porto Alegre (RS)
Uma mania tomou conta dos passageiros nos voos no Brasil e no mundo: carregar a bagagem dentro do avião.
Talvez motivada pelos sucessivos erros no manuseio das malas pelas companhias aéreas - perda, quebra, roubo -, os passageiros começaram a preferir levar a bagagem dentro, naquele porta-coisas, acima dos assentos. O espaço que historicamente servia para as bolsas e as maletas tipo 007, também para casacos e sacolas, precisou crescer. E acomoda muito mais peso do que a engenharia sadia recomenda.
A mania pegou tanto que as fábricas de malas lançaram o modelo "cabine", na dimensão do bagageiro. Levar dentro do avião significa segurança e 5 minutos de tempo precioso por não precisar esperar a bagagem no destino - exceto nos aeroportos de São Paulo, onde esse tempo costuma, pelo menos, triplicar.
Mas aí os passageiros começaram a exagerar. Bagagens enormes, bem maiores que o espaço, passaram a incomodar os demais passageiros. Até que criou-se uma regra, inspirada na aviação civil europeia: há uma dimensão máxima para os volumes de mão e de nenhuma forma eles devem exceder 5 quilos.
Só que as companhias relaxam na hora de fiscalizar. E qualquer bagagem passa, ainda que as máquinas de Raio-X tenham um tamanho-limite, antes do embarque. E situações embaraçosas, como a mala ser tão grande que ultrapassa o tamanho da esteira de R-X acontecem todos os dias em São Paulo. Mas aí funciona o jeitinho. Vai levando.
Hoje os passageiros que não querem esperar pela bagagem no destino carregam enormes volumes e nem se preocupam se isso atrapalha todos os demais passageiros do mesmo voo. Azar. Ele vai dar um jeito de acomodar a mala que mais parece um contêiner. E dane-se quem não gostar, quem ficar sem espaço para colocar um simples casaco no porta-bagagens.
Chega a ser cômico o comportamento desses "malandros" antes dos voos. Com as constantes mudanças de portão de embarque, lá vão eles com as bagagens, carregando escada acima, suando para levantar no degrau do ônibus que o leva até o avião, sofrendo para coloca-la sobre o assento. Mas em nenhum momento o esperto dá-se por vencido, nem mesmo quando encontra todo o bagageiro interno do avião lotado.
- Onde eu coloco? - pergunta sorrateiro à aeromoça incrédula. Pelo tamanho da mala não há qualquer hipótese de acomodá-la, a não ser no porta-malas. Mas como o cliente tem sempre razão, tenta-se acomodá-la.
O sujeito que não se importa em atrapalhar a comodidade dos demais passageiros é o mesmo que, apesar dos apelos da aeromoça desde o momento em que as portas foram fechadas, segue conversando com a esposa ou a mão pelo celular. É proibido? E daí? O jeitinho fala mais alto.
Se esses dois problemas já foram assimilados pelos passageiros frequentes, que respeitam as normas e até já não dão bola para a má criação desses malandros, um novo tipo de incômodo está crescendo assustadoramente nos voos: os caroneiros. Funcionários das companhias aéreas querem dormir em suas cidades de origem. E antes de a porta fechar, invadem o avião em busca de assentos vazios. Na hora do check-in, o passageiro pagante é informado que já não há corredores ou janelas disponíveis. Só o assento do meio. Mas os caroneiros sempre conseguem um bom lugar, por mais estranho que possa parecer.
E a bagagem do caroneiro? Dentro do avião, é claro. Malas de proporções avantajadas tentam se encaixar nos mínimos espaços disponíveis nos porta-maletas. E aí os "malandros do jeitinho" comemoram o desespero dos tripulantes caroneiros. Não há lugar. Não há o que fazer. Um tenta empilhar casacos e maletas dos passageiros-pagantes, para que sobre lugar para sua malona. Outro força daqui, tenta dali e termina pedindo ao comandante que acomode sua bagagem na cabine de comando.
O jeitinho vale também para os caroneiros.
Andar de avião está a cada dia mais parecido com ônibus.