Terra Magazine

 

Quinta, 27 de janeiro de 2011, 08h17 Atualizada às 17h49

Frans Krajcberg: "A minha revolta é muito forte"

Claudio Leal/Terra Magazine
O artista plástico Frans Krajcberg no parque Ibirapuera, em São Paulo. Eu nunca fui polonês.
O artista plástico Frans Krajcberg no parque Ibirapuera, em São Paulo. "Eu nunca fui polonês".

Claudio Leal

O escultor Frans Krajcberg se esquece da entrevista. Perde-se entre as árvores do parque Ibirapuera, em São Paulo, atrás de desenhos naturais em troncos, folhas e flores. Boné verde, algo semelhante ao dos comandantes da Sierra Maestra, ele caminha com o rosto fuçando os céus - e aponta um galho, e pronuncia um resmungo, e lança uma palavra de intimidade vegetal. "Vamos conversar", dipõe-se, depois de ser lembrado do encontro.

Em abril, Krajcberg completará 90 anos, mas não pretende fazer festim, pois anda chateado com o quarto assalto ao Sítio Natura, o paraíso particular construído para os outros, na cidade de Nova Viçosa, no sul da Bahia. "Isso me esculhambou". E não será uma indelicadeza notar as marcas da idade, embutidas no olhar de bicho ferido, infantilmente enternecido por quase nada, uma faísca da conversa. "A idade avança e estou me aborrecendo muito", admite, sentado num banco do parque.

Nascido em 12 de abril de 1921, em Kozienice, na Polônia, ele não se sente polonês. Bem mais radical: "Não sinto ter nascido lá". Radicado no Brasil desde os anos 1950, e mais tarde naturalizado, ele confessa desorientação quanto ao seu futuro, por não se conformar com a insegurança da casa baiana. "Viver lá não dá mais. Nesta idade em que estou, não dá pra fazer mudança. Que vou fazer?".

A Segunda Guerra não o abandonou; prossegue, diluída, numa revolta permanente contra os desatinos ambientais, representados nas suas árvores tingidas de vermelho e preto. "A minha revolta é muito forte. Isso, primeiro, vem da guerra. Segundo, eu perdi completamente a minha família. Nem primo, nem ninguém. Tudo foi destruído barbaramente", lastima. Nenhum atleta matinal do Ibirapuera desconfiaria da existência dessa alma de revoltado sob a plumagem de passarinho.

Em 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, o artista abriu a exposição fotográfica "A Natureza Viva de Frans Krajcberg", no Museu Afro Brasil, sob curadoria de Emanoel Araújo. Nada experimental: há algum tempo, a arte escultórica não o completa. "Eu tenho a esperança de que a fotografia vai ser mais violenta, vai mostrar mais a realidade".

Krajcberg doou o acervo do Sítio Natura ao governo da Bahia, mas ainda enfrenta amarguras com o seu legado artístico. Brigou com a prefeitura de Curitiba depois de saber do péssimo estado de conservação das 110 esculturas entregues à cidade. "Curitiba não vai ter nem o cheiro das minhas esculturas", promete.

Na capital paulista, ele negocia o espaço que abrigará suas obras doadas em 2005. Agora, deseja o andar inferior da Oca, o pavilhão traçado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Parece irreal, mas a Sociedade dos Moradores e Amigos do Jardim Lusitânia processou a prefeitura paulistana, numa tentativa de impedir que as suas esculturas fossem expostas na antiga serraria do Ibirapuera. O Tribunal de Justiça considerou improcedente a ação.

Com uma pequena máquina digital, o artista atravessa a lateral do Museu Afro Brasil, enquadra a reprodução de "Guernica", de Picasso, e evoca os três meses vividos com Marc Chagall: "Sabe que visitei a família dele em Vitebsk, na Bielorrússia?". Puxa a manga da camisa e confere os ponteiros. "Está na hora do meu almoço com Emanoel (Araújo)". Na subida da rampa do museu, diante das esculturas de Brennand, relata a finalização do documentário "O Grito Krajcberg", dirigido pela jornalista baiana Renata Rocha.

O sorriso rasga a barba ao rever o amigo. Demonstra carinho em pequenos empurrões nas costas de Emanoel, o diretor-curador do museu. "O Afro Brasil é para dizer: bravo!", gesticula, numa ópera imaginária. A caminho do restaurante "The Green", revive as decepções com o País: "Manu, está tudo uma decadência...". Em minutos, retorna a seus largos silêncios, interrompidos pelo entusiasmo com um abacaxi. "Bom, não é?". Perto de entrar numa trilha riscada na grama, ao retornar do almoço, Krajcberg empurra levemente o repórter, que faz chapinha numa poça d'água barrenta. À frente, o escultor pisca o olho esquerdo, e pisa na terra molhada.

Terra Magazine - O senhor completa 90 anos em abril. Continua empolgado com a causa ambiental ou sente-se desmotivado?
Frans Krajcberg - Nós estamos passando nesse novo século por um vazio, uma decadência muito forte. As artes plásticas até hoje não abriram a porta para entrar nesse novo século. A única arte que entrou é a fotografia. Mundialmente, está crescendo a cada ano. Muitos países já têm galerias e museus de foto. Então, nós precisamos ver de perto o que está acontecendo. A arte sempre acompanhou a evolução de todo o progresso e toda a violência do século. O século 20 foi de uma importância enorme para as artes plásticas no mundo, mas as galerias começaram a exagerar muito, lançar valores que não tinham sentido. A Escola de Paris desapareceu, todo esse movimento de gente já idosa desapareceu, esperando a nova entrada da arte, que não aconteceu até hoje. Do ponto de vista ecológico-planetário, nós estamos com situações bastante preocupantes. É impressionante como o homem não quer saber disso.

O senhor se sente solitário no que propõe e pensa?
Bem, eu participo muito de coisas mundiais. Todas essas grandes reuniões mundiais, eu participei. Ultimamente, não tenho mais vontade, porque ficam falando e depois não fazem nada. E o planeta está esquentando cada vez mais, nós estamos assistindo desastres preocupantes. O homem, a maioria, não quer saber disso. Como o que está acontecendo na Amazônia... Nós estamos falando sempre que estão queimando cada vez mais e estão arrebentando com as florestas e as madeiras. Esquecemos e queremos esquecer que por dentro dessas florestas vivem um povo. Um povo verdadeiro deste País, que foi muito massacrado e ainda está sendo massacrado.

Quando foi sua última viagem à Amazônia?
Faz seis anos.

Qual impressão lhe causou?
Não dá pra acreditar no que estão fazendo com os índios. Nenhuma voz de intelectual defende os índios que moram nessas florestas. Tenho uma foto que mostrei na Suíça, em Davos: uma índia e uma criança que viraram carvão, na floresta. Toda a sala ficou em pé, gritando, quase meia hora. Eu tinha um aviso da Polícia Federal aqui no Brasil, para entregar pra eles a foto e nunca mais falar disso.


Krajcberg aproveitou a visita a São Paulo para fotografar a vegetação do Ibirapuera (Fotos: Claudio Leal)

O senhor entregou?
Entregar por quê? Fui eu que fotografei. E fotografei uma coisa verdadeira, que existia. E está existindo muito mais coisas violentas, mas a idade não me dá mais essa liberdade de viajar, fotografar, captar.

A fotografia é a arte mais próxima daquilo que o senhor quer denunciar?
A fotografia, hoje, está mostrando um planeta que nunca se mostrou. É isso que o cinema não fez. Tem fotógrafo que viaja este planeta, captando o que a gente nunca viu. E tenho cada vez mais consciência de que há um perigo muito grave para a sobrevivência do planeta, se a gente continuar assim como está.

O Sítio Natura, na Bahia, sofreu recentemente um novo assalto. O senhor teme pela permanência de sua obra?
É o quarto assalto, e se sabe quem assaltou. A polícia e o delegado de Nova Viçosa só perguntam: "Quanto dinheiro te roubaram?". De começo, eu falava. Foi um grave erro. Por isso, esses que roubaram estão com carro novo, estão vivendo e dando risada da minha cara. Ninguém é preso.

São pessoas da própria cidade?
São pessoas que trabalhavam comigo. Esses são três armados e com máscaras, que trabalharam comigo. Dois eu reconheci bastante. Mas o que posso fazer? Tenho vontade de abandonar o sul da Bahia. Nova Viçosa virou uma cidade de drogas e violência. Muitos ladrões. Eles não têm trabalho...

Um fenômeno, também, nacional.
Sem dúvida, mas eu estou falando de Nova Viçosa. Não dá mais para reconhecer. Este ano tinha turista demais. Faltava comida, nem peixe tinha. E ainda está cheia de turismo. O culpado disso sou eu. Aí, eu estou bastante perturbado para escolher o que eu devo fazer. Trabalhar lá não dá mais. Viver lá não dá mais. Nesta idade em que estou, não dá pra fazer mudança. Que vou fazer?


Os escultores Emanoel Araújo e Frans Krajcberg caminham no parque

O senhor pretende ficar lá?
Bem, sem dúvida vai ser difícil deixar toda essa floresta que eu replantei, toda essa estrutura que eu fiz nessa região. Não é fácil deixar.

Como ficou o processo de doação das obras para o governo da Bahia?
Não só as obras, mas todos os meus bens eu ofereci à Bahia. Não tenho herdeiros nem parentes. Se eu não faço isso, vai ser uma coisa pega-pega, que já houve uma vez, quando a empregada colocou veneno no meu copo. Fiquei no Hospital Albert Einstein aqui em São Paulo. Lá me roubaram e levaram muitas vezes com o meu carro, que estava parado por dentro.

Isso tem lhe machucado?
Sem dúvida, não por causa de dinheiro, porque dinheiro vem e vai. Mas por causa de muita coisa, né? A medalha de Stálin, que eu recebi da mão dele, como oficial de guerra. Medalha de herói de guerra.

De quando?
De 1943. Depois, as lembranças da minha mãe. Ela foi enforcada pelos alemães. Roubaram. Isso me doía muito. Eu chorei como uma pequena criança... Que defesa que eu tenho? Nenhuma.

O senhor falou da sua mãe, da sua família, que desapareceu na Segunda Guerra. Como a guerra alterou sua visão do homem, do mundo?
Olha, o homem é bárbaro. Quanto mais religião em que ele esteja acreditando, mais barbaridade ele pratica. Em nome de Deus, em nome de religiões, se mata os outros. E que maneira de matar... Foi o maior barbarismo da humanidade que praticaram (o Holocausto). O que fizeram? Quais são os artistas que apresentaram essas imagens horrorosas, essa violência? Nenhum. Só Picasso que fez "Guernica", a guerra brutal, bárbara, da Espanha.


O artista fotografa uma reprodução do quadro "Guernica", de Picasso, exposta no Museu Afro Brasil

E por que, em sua opinião, a arte não exprimiu o Holocausto e a barbárie nazista?
Se a arte não acompanha cada época, para que arte? Fazer mercado, só? Então, isso não é arte, é mercadoria barata, especulativa. Por isso, eu tenho esperança de que a fotografia vai ser mais violenta, vai mostrar mais a realidade. Já está mostrando, e muito. Por exemplo, o mês de junho vai ser o das árvores, feito pela ONU. Mundialmente, vão expor muitas fotos e outras coisas sobre as árvores. Eu já acho um pouquinho positivo. Porque a árvore não é só madeira para vender. A árvore é oxigênio que a gente precisa. Não se deve esquecer que já estão pensando em fazer indústrias de pequenas garrafinhas com oxigênio. Se continuar assim, vamos chegar nisso.

A escultura não consegue mais expressar tudo isso?
Falam muito que estou fazendo arte, que estou fazendo escultura... Nada disso. A minha revolta é muito forte. Isso, primeiro, vem da guerra. Segundo, eu perdi completamente a minha família. Nem primo, nem ninguém. Tudo foi destruído barbaramente.

Quando o senhor retornou à Polônia, qual foi seu sentimento ao ver que não havia mais ninguém de sua família?
Eu dei minha palavra de que "nunca mais na minha vida vou pisar nesse País". É um país muito religioso, muito racista. Eles ajudaram esse barbarismo que fizeram na Polônia com seis milhões de habitantes. Então, como se pode acreditar num povo desse? Jurei que nunca mais iria pisar nesse país, a Polônia.

E nunca mais voltou?
Nem penso. Não sinto ter nascido lá. Eu nunca fui polonês.

Como são as suas memórias de infância?
Horríveis.

Por quê?
Por causa do racismo. Você vai à escola e deve se sentar obrigatoriamente num cantinho?

Dos judeus?
Isso. É difícil falar muito sobre esse tema. Não sei como me salvei da guerra. Mas eu tenho sete medalhas de guerra. Fiquei quatro anos e meio. Fui oficial de guerra.

Combateu em quais regiões?
Primeiro, comecei na Rússia. Ah, tem muita coisa a falar disso...

O senhor é um homem não-religioso?
Para mim, as religiões não existem, porque são histórias inventadas. Isso não é para mim.

Não é uma questão?
Não, não, não... Nem penso nisso.

Como vê a ocupação da Amazônia?
Eu acho que a Amazônia vai desaparecer. Pelo jeito que estão fazendo, não vai durar muito. E eu me pergunto: por quê? São sempre os mesmos, não é o povo que invade a Amazônia. São muitas especulações de terra, de dinheiro, para liquidar esse povo cada vez mais.

O senhor sente que incomoda os homens públicos quando protesta, demonstra indignação, marca reuniões? Sente isso?
Sim, eu sei que incomodo. Mas eu não ligo.

Não tem medo de ser chato?
Quem me detesta é assunto deles. Eu não passei por essas coisas pequenas: por que o outro fala, o outro gosta, o outro não gosta do meu trabalho... Isso é assunto para os outros. A idade avança e estou me aborrecendo muito. Essa humilhação me machucou muito.

O assalto na Bahia?
Também. E Curitiba.

Em São Paulo, houve um processo para impedir a exposição de suas obras no Ibirapuera...
Sim, e ganhamos. Mas a humilhação (em Curitiba) foi violenta demais pra mim. Hoje em dia, não entrego 110 esculturas a uma cidade para depois pensarem em jogar no lixo. Mesmo assim, o novo prefeito mandou papéis de que "vamos fazer isso"... Nunca mais. Curitiba não vai ter nem o cheiro das minhas esculturas.

Onde o senhor tirou as fotografias publicadas no calendário da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo?
Quem sabe? Eu tenho mais de 400 mil fotos. Vá saber... Nunca vendi uma foto, nem pretendo vender. Mas eu gosto de captar. Ando e vejo (mostra na máquina) essa árvore cheia de desenhos. Às vezes, uma pequena flor. Quanta coisa desconhecida que tem na natureza, e o homem nem liga. O homem da arte acha que está descobrindo formas... É uma pobreza perto da natureza. Eu posso provar isso.

 

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