Érico Nogueira
De São Paulo
Ano novo, poesia nova: esse foi o bordão do meu mês de férias. Enquanto passeava, enquanto descansava, enquanto dormia - não parava um minuto de repetir esse bordão! Era um presságio, só podia ser um presságio.
Sento diante computador pra escrever a coluna: e como que me cai do céu a série Perfis, na qual vou apresentar ao leitor amigo um pouco da novíssima poesia brasileira, isto é, aqueles poetas que, entre os vinte e poucos e os quarenta e poucos, mais me chamam a atenção, hoje, no panorama nacional. Nem preciso dizer que esse panorama, de uns tempos pra cá, passa por um momento particularmente feliz - ainda que a imprensa especializada, para nada dizer da grande imprensa, prefira insistir na sua miopia, só tendo olhos, quando os tem, para o casco dos jabutis.
Começo a série com aquele que, desde os tempos de faculdade, no fim dos anos noventa, tem sido o meu interlocutor mais constante, e, sem dúvida cabível, é um dos poetas mais originais da novíssima geração: Ricardo Domeneck. O poeta nasceu em Bebedouro (SP) em 1977, cursou um ano de filosofia, trocou-a pelo teatro - e já vive na Alemanha há mais ou menos uma década, ganhando a vida como DJ, perfomer e artista visual.
Estreou com a apaixonada Carta aos anfíbios (2005), a que se seguiriam o algo mais cerebral a cadela sem Logos (2007) e o radicalmente experimental Sons: Arranjo: Garganta (2009). Todo poeta tem um tchã (saravá compadre Washington!): o de Ricardo é questionar, por meio de uma dicção única e, dir-se-ia, quase sem precedentes, na lírica brasileira, as engessadas dicotomias de certa tradição ocidental: concreto e abstrato, som e sentido, macho e fêmea: tudo isso vem fundido, mesclado, amalgamado na sua língua tesa, sempre afiada, sempre questionadora. Numa palavra: Ricardo é o poeta mais prafrentex que eu conheço, e o legítimo representante da vanguarda - se vanguarda há -, na recente poesia brasileira.
Isso não significa, porém, que desdenhe da tradição: Ricardo apenas a lê criticamente, escolhe, seleciona segundo as suas necessidades e preferências e idiossincrasias - como, aliás, todo poeta digno do nome, desde que o mundo é mundo.
Vou parando por aqui, e deixo vocês com um seu poema recente - um dos meus prediletos, diga-se de passagem. Leiam, gozem e tirem as próprias conclusões. Fui!
Poema
Enfim aurora-me na cachola,
doce Jonas de whales, baleias,
por que os deuses desaprovam
o incesto, esse advertisement
ou entertainment em família,
tal reciclagem ad aeternitatem
ou sexo homogêneo à margem
(e sua homenagem à soi-même)
como o cúmulo da economia.
Leis de veto a fellatio in toilets
e virilha em público, ilegíveis,
como Coca-Cola, cocaína & Co.
ou outros substantivos ilegais
para nossa literatura ou lírica.
Teu Ricardo sabe que o peixe
morre pela fome, boca em pênis
de moçoilos é o anzol de sempre
e eis que pé no rabo eu vos nego.
Pedicabo ego vos et irrumabo.
Seguirei sendo nota de pontapé
no apêndice de vossos cérebros
ou até que me canse, escravo
paciente e devoto, das horas-
-extras de chicote e chacota
sobre vossas gretas garbosas.