Terra Magazine

 

Segunda, 7 de fevereiro de 2011, 08h09

Aquele Nobel da Paz devido ao indigenismo

Felipe Milanez/Terra Magazine
Meirelles em entrevista com Silvio Da Rin, no evento Memórias Sertanistas, realizado no Sesc Consolação, em São Paulo, em outubro de 2010. Da Rin ...
Meirelles em entrevista com Silvio Da Rin, no evento Memórias Sertanistas, realizado no Sesc Consolação, em São Paulo, em outubro de 2010. Da Rin prepara documentário sobre a vida do sertanista

Felipe Milanez
De São Paulo

Quem conversa com José Carlos Meirelles e ouve sua opinião sobre a humanidade, pensa na hora: estou frente a frente com uma pessoa extraordinária.

Se o Prêmio Nobel da Paz fosse um reconhecimento destinado a um ser humano que dedica a vida a promover uma convivência harmônica entre as sociedades, Meirelles, incansável lutador pelo direito de uma sociedade "inexistente" existir, seria laureado de glórias. Muitas mais do que o presidente de um país cuja guerra é um dos motores da economia, Barack Obama, por exemplo.

Recentemente, a ong Survival International divulgou imagens da Funai (http:/ /www.uncontactedtribes.org/brazilphotos), e um vídeo belíssimo (http://www.uncontactedtribes.org/brazilfootage), feito com imagens da BBC (http://www.bbc.co.uk/news/world-latin-america-12360013), de um povo indígena que vive na floresta amazônica.

Meirelles trabalha há 30 anos para proteger este e outros povos do avanço inescrupuloso da fronteira econômica da sociedade ocidental. Aquela bruta e violenta, que vai extrair madeira, ouro e petróleo do território onde esses povos vulneráveis vivem. "Não aquela sociedade de Ipanema, das moças bonitas", ele costuma me explicar. No posto de fiscalização Xinane, Meirelles vigia o rio Envira, que funciona como estrada na Amazônia, para impedir que essa sociedade avance como um trator sobre os índios.

Longe dali, nas partes mais charmosas desta mesma sociedade ocidental, é onde são consumidos a madeira, especialmente o lindo e precioso mogno, e o brilhante ouro, produtos que ameaçam diretamente a sobrevivência destes índios isolados. Em Nova York, em Paris ou em Londres - que é a sede da mesma Survival International que luta em defesa dos índios e da BBC, televisão que veio mostrar o drama, sem que nenhuma das duas companhias tivessem mencionado em seus respectivos trabalhos o impacto do mercado consumidor de seus países sobre os índios.

Meirelles, o sábio do mato, me contou uma vez, quando o visitei no posto de fiscalização onde costumava passar vários meses do ano, nas margens do rio Envira: "cada caixão de mogno nos Estados Unidos deveria vir com uma tarja escrita: aqui jaz um índio isolado, morto para que esse americano seja enterrado com esse luxo".

Fora do mato, a batalha de Meirelles é pelo reconhecimento. Luta por reconhecimento da existência desses índios, que a sociedade do consumo reluta em aceitar. Seja no Peru, seja no Brasil, seja nos Estados Unidos ou na Inglaterra: para os governos destes países, a idéia de uma sociedade indígena vivendo de forma autônoma e independente na floresta, por sua opção, por escolha de se manter distante de nós, usando os meios que a floresta densa permite, seria uma obra de ficção.

Não que estes governos sejam apenas "maus". Mas porque o reconhecimento da existência destes índios implica medidas políticas e econômicas. No Peru, destinar uma terra para uso exclusivo deles, como ocorre no Brasil. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, fechar a porta de entrada dos produtos que colocam em risco a sobrevivência deles.

Estes índios ocupam territórios, que devem ser reconhecidos. Eles utilizam estes territórios da forma que bem entendem - e com isso impedem que sejam explorados, por nós, seus recursos naturais: petróleo, ouro, madeira. Ai, como se diz na expressão popular, "o pau come". Ou "o bicho pega", como diz Meirelles.

Nas quase quatro décadas de trabalho na Funai, Meirelles conseguiu que o governo brasileiro reconhecesse a existência de índios isolados e demarcasse o território ocupado por eles. A salvo estão, momentaneamente, no Brasil. Coisa que não aconteceu no Peru, e que pode ter ocasionado a migração de alguns índios isolados que vivem do lado de lá, e um possível choque, conflito, guerra, que pode ocorrer com os que estão vivendo nesses territórios demarcados.

Meirelles, um dos maiores lutadores por um Brasil mais humano, está deixando a Funai. Ele treinou seu filho, Arthur, para ser como ele um incansável defensor dos direitos indígenas. E Arthur se tornou um guerreiro como o pai.

Ao contrário do que costumeiramente é propalado nos ambientes urbanos, a tradição familiar em defesa dos índios é uma das marcas do indigenismo brasileiro. Foram assim que se engajaram os irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas. O grande Chico Meireles, inicialmente junto de seu irmão Cildo Meireles, um dos construtores de uma das mais humanas formas de convivência, que ensinou seu filho, Apoena, trabalhou junto de seu genro, Xará, e hoje está no sangue e na luta de Hugo Meireles, seu neto e funcionário da Funai.

A modernidade no Brasil não aceita mais a tradição indigenista nacional nestes termos. Parentes não podem mais ocupar cargos em uma mesma autarquia. E Meirelles, já aposentado, para a tristeza dos índios que ainda não o conhecem, deixou a Funai para que seu filho, com garra e sangue novo, pudesse seguir tocando o que ele construiu. O velho do rio, o "velho Curaca", como o apelidou seu amigo o cacique Biraci Nixiwaka Yawanawa, já sente o peso do tempo nas costas, ao andar em longas expedições pela mata. Mas ainda poderia fazer muito na Fundação.

Abandonar os índios é coisa que ele não irá fazer. "Vou mostrar uns currículos por aí, ver um jeito de ajudar os índios agora aqui do lado de fora", contou ele, por telefone. Currículo de peso, que certamente será honrado nas próximas iniciativas em defesa dos índios que ele fará pela sociedade civil.

Rondon havia sido indicado ao prêmio Nobel, e não levou. Mesma coisa com Orlando Villas Bôas. Decisões injustas, que impediram que o reconhecimento internacional pudesse contribuir para a causa indígena. Meirelles, um sertanista rondoniano, villasboasiano, soube traduzir o amor aos índios no mundo contemporâneo de forma única.

"São povos meio que desconhecidos", diz ele, no lindo filme da BBC. "Não acreditando que eles existem, não vai ter nenhum movimento em defesa deles". Numa sociedade onde a imagem é referência da realidade, Meirelles sabe que essa pode ser "a única maneira para a gente mostrar para o resto da humanidade que estes povos existem".

Para quê? Qual seria o objetivo dessa proteção?

"A minha utopia seria que esses povos tivessem primeiro a opção de escolha". Escolha, segundo ele, de permanecer vivendo de forma livre e autônoma. O direito de serem respeitados na decisão sobre o modo como querem viver. A paz entre sociedades que querem apenas viver de forma diferente.

As reflexões de Meirelles, advindas da experiência de vida protegendo estes povos autônomos, em isolamento voluntário, são uma das maiores lições humanitárias do mundo contemporâneo. "Eu acho que é importante, para a humanidade, que esses povos existam. São a lembrança viva de que é possível viver de outra forma".

Felipe Milanez é jornalista e advogado, mestre em ciência política pela Universidade de Toulouse, França. Foi editor da revista Brasil Indígena, da Funai, e da revista National Geographic Brasil, trabalhos nos quais se especializou em admirar e respeitar o Brasil profundo e multiétnico.

Fale com Felipe Milanez: felipemilanez@terra.com.br

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