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Quinta, 17 de fevereiro de 2011, 07h54 Atualizada às 09h26

Perfis: Dirceu Villa

Érico Nogueira
De São Paulo

Se há um poeta experimental, inquieto e multifário na poesia brasileira hoje, ele é sem dúvida alguma Dirceu Villa. Nascido em 1975 na babel paulistana, o hoje doutorando em Literatura Comparada na Universidade de São Paulo estreou com MCMXCVIII (Badaró, 1998), a que se seguiriam Descort (Hedra, 2003) e o absolutamente fenomenal Icterofagia (Hedra, 2008), cujos cerca de 180 poemas - isso mesmo, leitor, 180! -, entre audaciosos monólogos narrativos, excertos quase dramáticos, lindos poemas de amor e tours de force descritivos, são o testemunho de um personalidade artística extremamente variada.

Dirceu Villa é, pois, um caso raro, não apenas em terras tupiniquins, mas onde quer que seja. Tradutor de Pound, ensaísta, leitor de Ovídio e de Cavalcanti, aficcionado por quadrinhos e por artes plásticas - nunca encontrei ninguém tão radicalmente plural quanto ele, capaz da exatidão metálica de:

Sic te diva potens Cypri regat e agora andávamos sobre as rochas crivadas de salinizações cortantes do mar; e sobre as salinizações cortantes do mar havia o limo verde-musgo; sobre o qual mínimas ligia exótica deslizavam como ondas (ouvíamos o shhhsh da espuma borbulhante no cinzento das rochas milenares); e na areia junto das rochas os negros mexilhões brilhavam ao sol como escudos antigos; parecendo também os cascos dos navios carcomidos de ferrugem espalhando manchas de óleo na água barrenta junto às margens das ilhotas cheias de tufos vegetais; a pele rosada agora ardia entre as pernas como um molusco dentro da concha; ela pedia não toque nas costas puxa o biquíni; e puxava o biquíni cavando um vau; uma névoa nos olhos; vermelho sangüíneo nos lábios.

e da delicadeza quase trovadoresca de:

What's up, doc?

Eu poderia cair aos pedaços
este livro uma caixa de amêndoas
atar no meu corpo o nó dos seus braços
looney tunes ou uma parlenda

a noite de sonhos da caixa de chá
é um deserto de flores-ladrilhos
que importa o que o sábio dirá
o sábio não tira o trem dos seus trilhos

não tira o trem dos seus trilhos

Eu poderia cair aos pedaços
estou cansado de atar os cadarços
a noite de sonhos da caixa de chá
é uma promessa talvez um lugar

pra nós dois e cadeiras de praia
que são meio redes e meio sofá
ficarmos na orla de sunga e de saia
que ladrilhos são flores a areia e o mar

ladrilhos são flores a areia e o mar.

As aptidões do poeta são tão variadas, e tão certeira é a sua arte, que, de uma maneira ou de outra, se não pela razão, pela emoção, deixamo-nos levar e seduzir. Isso sim é pluralismo. O resto é conversa fiada - ou, pior, lengalenga politicamente correta. Obrigado, Dirceu.


Érico Nogueira é poeta e tradutor, autor de Dois (2010) e O livro de Scardanelli (2008). Escreve semanalmente no Ars poetica, blogue de poesia.

Fale com Érico Nogueira: nogueira.erico@terra.com.br

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Divulgação
O poeta Dirceu Villa

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