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Sábado, 26 de fevereiro de 2011, 08h20

Diretora:Meu 'Lixo Extraordinário' era menos sensacionalista

Reuters
Foto tirada em janeiro no Jardim Gramacho, onde foram gravadas as cenas de  Lixo Extraordinário
Foto tirada em janeiro no Jardim Gramacho, onde foram gravadas as cenas de Lixo Extraordinário

Dayanne Sousa

Dois brasileiros estarão na plateia da cerimônia deste domingo. Mesmo tão perto, a estatueta passará longe. O filme Lixo Extraordinário é uma coprodução de brasileiros e ingleses. Uma das diretoras, Karen Harley fala a Terra Magazine sobre a dificuldade de dividir a autoria com mais dois cineastas.

- O corte que eu fiz era um pouco diferente, talvez menos popular. Um pouco menos sensacionalista, talvez - admite. "Mas não existe um sentimento de que 'ah, o filme não é mais meu'. Ele é meu também. Se o filme ganhar, eu vou ficar completamente feliz".

De toda forma, a estatueta deve ir pra Inglaterra caso Lixo seja o escolhido. O documentário retrata o processo de criação do artista plástico Vik Muniz em um projeto no qual cria quadros usando lixo. Participam das obras os catadores do lixão do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. No tapete vermelho, estarão Vik e o catador Sebastião Santos, além da diretora inglesa Lucy Walker e um produtor, também inglês.

Karen diz que está confiante e conta sobre os primeiros momentos de gravação do longa. "No início, havia uma certa desconfiança (por parte dos catadores), ninguém queria aparecer para ser fotografado", revela. A indicação ao maior prêmio de Hollywood, diz, ajudou a popularizar o filme, mas ela acredita que ainda falta espaço para documentários no Brasil.

Vik Muniz aparece ao lado de catadores em cena do documentário (Foto: Reprodução)

Leia a entrevista.

Terra Magazine - Como foi que você acabou entrando pra equipe do filme?

Karen Harley - A ideia original de fazer um filme sobre o Vik partiu do produtor inglês. Ele conheceu o Vik e quis fazer um curta. O Vik foi quem falou que não queria um filme sobre ele, mas propôs fazer sobre um projeto que ele estava pensando, que envolvia lixo. A Lucy Walker, a diretora inglesa, veio ao Brasil e fez pesquisas, filmou vernissages e conheceu o Jardim Gramacho, bairro que tem o lixão no Rio. Quando começaram mesmo a filmar o trabalho, a Lucy se desligou do projeto. O João Jardim foi chamado para dirigir e eu, para editar o filme, em 2008. Então o João saiu também e eu assumi, por mais um ano, como diretora. O filme foi apresentado para a Lucy Walker, foi para Los Angeles, que remontou. Mudou os primeiros vinte ou trinta minutos.

Difícil trabalhar com uma equipe tão dividida?
Foi difícil. Na verdade, os diretores nunca trabalharam juntos.

E os créditos do filme, uma vez que ele é indicado ao Oscar, como dividir um prêmio?
Por uma questão do contrato inicial, a Lucy Walker assina como diretora, eu e o João como codiretores, apesar de o trabalho não ter sido dividido dessa forma.

Não fica um sentimento de chegar perto do Oscar e, ao mesmo tempo, tão longe?
Eu acho que conseguiram fazer o filme que queriam. O corte que eu fiz era um pouco diferente, talvez menos popular. Um pouco menos sensacionalista, talvez. Tem muita coisa que é do meu corte, principalmente quando chega na parte dos catadores. Mas não existe um sentimento de que "ah, o filme não é mais meu". Ele é meu também, não importa se assino a codireção. Se o filme ganhar, eu vou ficar completamente feliz, até por conta dos catadores. Acho que seria uma ajuda muito grande à causa deles. O lixão do Jardim Gramacho será fechado e precisamos chamar atenção pra esse problema.

Mas documentário não é uma coisa que estamos acostumados a assistir no Brasil, por mais arrebatadoras que as histórias sejam. Será que o formato que os estrangeiros trazem tem algo mais popular?
Não sei. Eu dirigi documentários sobre artistas plásticos que tiveram público, mas dentro de um circuito fechado. No Brasil, o público ainda é restrito. Eu acho que Lixo Extraordinário ganhou prêmios de público em vários festivais porque ele tem essa emoção da descoberta do catador através da arte. A forma como essas pessoas se colocam é muito emocionante. Mas não existe fórmula de sucesso. Documentário é muito mais difícil, tem um certo preconceito.

O filme mostra os primeiros contatos do Vik com os catadores e, ao longo do tempo, a relação de confiança parece crescer. Com você, como diretora, também foi assim?
Completamente. No início, havia uma certa desconfiança. Ninguém queria aparecer para ser fotografado. A produtora teve que correr atrás, convencer as pessoas. Ninguém estava entendendo a ideia do Vik de fazer um trabalho de arte. Até que a gente levou eles para o estúdio do Vik e começou a fazer os primeiros trabalhos, a projetar os desenhos no chão. Aos poucos eles foram criando confiança. Teve um momento muito rico que foi uma aula do Vik explicando como era o seu processo de criação. Ele mostrou a série dele com açúcar. Aí eles foram se envolvendo.

É um filme sobre arte, como você acha que ele acabou se tornando popular?
O grande achado são essas pessoas que hoje são completamente marginalizadas. O Jardim Gramacho é um lugar completamente insalubre. E são pessoas de uma beleza incrível. Tem a cozinheira que faz a comida ali todo dia, o amor que ela tem... Ela diz que se sente bem, que gosta dali. As pessoas tem uma beleza muito grande e tem que ser muito fortes pra sobreviver àquele lugar. Você não costuma vê-las assim.

Você está confiante? Assistiu aos filmes concorrentes?
Vi alguns. Os filmes são muito bons, não vi todos. Mas vai ser difícil.

 

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