Terra Magazine

 

Segunda, 28 de fevereiro de 2011, 08h09

O feijão que o nosso umbigo não enxerga

Felipe Milanez/Terra Magazine
O vendedor José Lourenço Feitosa em sua banca: agosto é o mês que tem feijão novo, safra aqui no rio Juruá, tem todo tipo de feijão
O vendedor José Lourenço Feitosa em sua banca: "agosto é o mês que tem feijão novo, safra aqui no rio Juruá, tem todo tipo de feijão"

Felipe Milanez
De São Paulo

A Amazônia, em sua diversidade gastronômica, lembra a região francesa da Provence. A frase, ou a idéia, é atribuída a Darcy Ribeiro. É mesmo uma provence, tão diversa e sofisticada nos temperos e sub regiões de produção, mas só que muito, muito maior.

Mas as comidas amazônicas não se abrem ao visitante apressado, com o olhar ainda dominado pelo exotismo, como ocorre no antigo velho mundo (antigo porque hoje já se sabe que aqui não tem nada de "novo", e lá, nada de "mais velho").

É preciso andar pela região para descobrir as diferenças da farinha de tapioca de Belém, Manaus ou Cruzeiro do Sul. Sentir um açaí mais aguado, outro encorpado. Apreciar uma pupunha cozida de uma região, e comer um tucumã no sanduíche em outra - todos genericamente chamados de "coquinhos", mas que em cada canto descobre-se tantos coquinhos diferentes, quanto formas de prepará-los: assado, cozido, cru, espremido, como óleo para encorpar um caldo, com carne, com outros vegetais.

Em Cruzeiro do Sul, no Acre, acompanhado de meu amigo Bira Nixiwaka, cacique do povo Yawanawa, que já morou nessa cidade, experimentei um pouco da diversidade gastronômica particular da região do rio Juruá, apresentada por ele. Por exemplo, algo comum em outras partes da Amazônia, mas com um sabor do terrain regional: açaí encorpado, com açúcar mascavo chamado de gramixó e com uma farinha de tapioca que lembra, sem exagero, uma pipoca. Mas sem ser gordurosa, e muito, muito mais saborosa.

O Juruá escorre dos Andes, trazendo consigo seus traços culturais, até que deságua no Solimões - que depois vira o Amazonas. Rio de águas barrentas, e que nessa época do ano, no inverno amazônico, carrega toneladas de sedimentos.

Dos Andes, provavelmente, vem a tradição e variedade do feijão que se encontra em Cruzeiro. No Mercado do Produtor, o vendedor José Lourenço Feitosa me explica que são plantados na várzea do próprio Juruá. Ele mesmo era um produtor até vir para cidade, dois anos atrás, e tornar-se um comerciante.

"Eu plantava na região do Badejo do Meio, um ramal do Juruá", ele explica. "Eu era produtor. Plantava feijão, arroz, mandioca para fazer farinha". Hoje, na sua pequena banca, vende a produção alheia. O inverno amazônico, época das chuvas, não é a temporada do feijão. E em seu estande, ele mostra o quarentão, o peruano, o manteguinha e o corgutuba. Uma ínfima parcela da variedade local. "Em agosto tem mais, tem feijão novo, dá para experimentar todo tipo de feijão".

Nos restaurantes do mercado experimentei o peruano e o corgutuba. O peruano dava um caldo espesso, avermelhado. Talvez seja pelos temperos e pimentas que colocam, mas tinha um sabor mais suave, e pareceu mais leve que o feijão marrom do sudeste. Gostei muito do peruano. O manteguinha já conhecia de Santarém, outra região de produção de renome, e dá uma ótima salada - como se fosse grão de bico, ou trigo, em um tabule. Comi ele na aldeia Nova Esperança, preparado por Putani, mulher de Nixiwaka. Também leve, saboroso, grãos macios.

Mais de dez tipos diferentes? "Iche, muito mais", diz Feitosa. Falam por ali em mais de 40 tipos - outro vendedor contou na minha frente 45 variedades. Alguns são variações do peruano, um mais vermelho, outro mais claro, e do corgutuba, que são os preferidos. Entre tantos outros que, na falta de um sommelier de feijão amazônico, os vendedores se atrapalhavam para descrever. Realmente, não é um grão simples de fazer uma descrição, além das cores, tamanho, e um sabor aproximado.

Fascinado com tanto feijão na minha frente, ligo para o meu amigo Eduardo Neves, um dos maiores arqueólogos da Amazônia. Ele explica que o feijão, até onde a ciência conseguiu comprovar, teria sido domesticado na mesoamérica, na região do planalto mexicano. "Mas tem uma variedade de feijão chamado Lima. É possível, mas não comprovado, que tenha havido duas domesticações", diz ele, preocupado em esclarecer a origem do feijão.

Fato é, diz Edu Neves, que há muitas variedades no Peru que foram diversificadas localmente. E através dos rios que erodem os Andes em direção ao Atlântico, pela planície amazônica, vem junto um pouco dessa cultura, desses grãos saborosos, que não encontram o mesmo prestígio pela sociedade brasileira.

Chefes no sudeste seguem as modas importadas. Reduções, químicas na cozinha, correm atrás do ceviche peruano, mesmo com o nosso oceano Atlântico sendo considerado um deserto em termos de variedade de peixes. Não sabem que a bacia amazônica tem variedade de espécies de peixes comparável a todo o Atlântico. Não compreendem a riqueza do tucupi, das milhares variedades de mandiocas e farinhas, pimentas, temperos, ervas, coquinhos.

Até o feijão, que junto do arroz forma o prato mais popular do país, não tem um tipo de proteção de denominação de origem, ou de incentivo para que produtores locais não deixem de plantar variedades únicas e especiais.

O exotismo, misturado com a dificuldade de acesso, isolam a riqueza culinária da Amazônia do grande mercado consumidor do país. Em alguns casos, como o norte do Acre, isso tem ajudado a manter viva a diversidade. Um impacto econômico ou logístico muito abrupto poderia minar essa forma de produção quase artesanal - que na Europa é subsidiada. A diferença da Provence para a Amazônia, além do glamour construído, é que os franceses sabem se vender. E aqui no Brasil, às vezes parece, a gente não valoriza o feijão do próprio umbigo.

Felipe Milanez é jornalista e advogado, mestre em ciência política pela Universidade de Toulouse, França. Foi editor da revista Brasil Indígena, da Funai, e da revista National Geographic Brasil, trabalhos nos quais se especializou em admirar e respeitar o Brasil profundo e multiétnico.

Fale com Felipe Milanez: felipemilanez@terra.com.br

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