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Segunda, 28 de fevereiro de 2011, 16h58 Atualizada às 17h57

Torcedores do Vitória criticam briga de cartolas e emissoras

MSMV/Divulgação
Movimento de rubro-negros baianos quer torcidas no centro do debate sobre os direitos de transmissão
Movimento de rubro-negros baianos quer torcidas no "centro do debate" sobre os direitos de transmissão

Claudio Leal e Eliano Jorge

Os dirigentes do Clube dos 13, que congregam 20 dos principais times de futebol do País, criaram um embate interno por causa da disputa pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de 2012 a 2014, uns alinhados à preferência pela TV Globo e outros defendendo uma licitação que inclui Record e Rede TV!.

Enquanto isso, suas torcidas permanecem como meros espectadores da briga. Uma rara manifestação coletiva sobre o assunto vem do Movimento Somos Mais Vitória, um grupo de torcedores do Esporte Clube Vitória, de Salvador.

Nesta segunda-feira (28), os rubro-negros elaboraram uma nota pública para contestar a linha das negociações dos cartolas. "É preciso (...) que se estabeleçam garantias de que o calendário será cumprido, que não ocorrerá a tradicional e infame "virada de mesa", que os jogos acontecerão em horários minimamente razoáveis e que também seja preservado, ou até ampliado, o respeito às diversidades regionais", cobram.

"A nota foi motivada para tirar o enfoque do debate. Fala-se em cifras, milhões, mas não se fala no principal: o torcedor. A única referência veio de uma nota da Globo, dizendo que o importante era o torcedor, logo ela que praticava o monopólio. Não tomamos o partido de ninguém. Cremos que a redenção do futebol não está em decidir qual será a emissora. Acima de tudo, é preciso cumprir o calendário, com horários razoáveis e não em horário de boate, porque você dificulta o transporte de quem não tem carro", afirma o jornalista Franciel Cruz, um dos organizadores do movimento.

"Outra coisa fundamental", complementa, "é que o modelo atual do Clube dos 13 já é injusto e a proposta de mudança amplia o abismo entre clubes grandes e pequenos. Querem transformar o Brasil em dois clubes, como ocorre na Espanha com o Barcelona e o Real Madrid", critica Cruz.

Na nota, há também um ataque às decisões de cúpula. "O debate só tomou este viés arbitrário porque ainda não há uma efetiva participação dos torcedores nos destinos de seus clubes, que sempre foram tratados como monarquias ou capitanias hereditárias", dizem os rubro-negros.

No ano passado, o time baiano caiu para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. O Movimento Somos Mais Vitória foi idealizado em setembro e lançado em dezembro de 2010, com mobilização através da internet; hoje, conta com cerca de mil torcedores cadastrados, 80% deles sócios do clube. Eles batalham por transparência e democratização no futebol.

Confira a íntegra da nota.

Torcedor merece e exige respeito

"A primeira vítima de uma guerra, conforme sentenciou o senador americano Hiram Johnson, é a verdade. E nesta inconsequente batalha pelos direitos de transmissão dos jogos, que tem assolado o futebol brasileiro nos últimos dias, não tem sido diferente. O clima de beligerância e as acusações mútuas servem apenas para ocultar interesses inconfessáveis. No entanto, esta falta de transparência e a disseminação da mentira poderão ferir de morte a já tênue organização deste esporte que mobiliza as paixões do povo brasileiro. Aliás, nestas tenebrosas transações, como de costume, o povo/torcedor tem sido completamente escanteado.

Mas chegou a hora de mudar o jogo e colocar o torcedor no centro deste debate, que até agora tem se pautado meramente por um mercantilismo desenfreado. É inaceitável que a torcida, principal razão de ser do espetáculo, não seja levada em consideração neste momento de tão relevantes decisões que poderão definir os rumos do futebol brasileiro.

É importante ressaltar que a redenção nacional, como querem nos fazer crer, não passa pela escolha desta ou daquela TV para transmissão dos jogos. Os torcedores devem estar atentos para mudar o foco do debate. Em vez de tratar apenas de cifras, é imperioso colocar a cidadania no centro da discussão.

É preciso, portanto, que se estabeleçam garantias de que o calendário será cumprido, que não ocorrerá a tradicional e infame "virada de mesa", que os jogos acontecerão em horários minimamente razoáveis e que também seja preservado, ou até ampliado, o respeito às diversidades regionais. Não se pode aceitar a "espanholização" do futebol no Brasil. Somos um país com dimensões continentais, multifacetado, e não podemos ser reduzidos a uma república binária, onde apenas dois times transformem todos os outros em reféns.

Afinal, o abismo entre os clubes centrais e os periféricos já é enorme. Não é hora de aprofundá-lo, mas sim de reduzi-lo, pelo bem da própria competitividade do futebol nacional. É necessário inverter a lógica atual, garantindo mais igualdade de oportunidades e a diminuição das disparidades. Não é, definitivamente, a hora de ampliar o já injusto modelo vigente.

É necessário, porém, que os torcedores dos clubes que estão em litígio tenham consciência de que o embate não deve se dar contra os outros torcedores, mas sim contra a cartolagem e suas nefastas práticas políticas. É imperioso que saiamos desta armadilha que querem nos impor. Nossas paixões clubísticas não devem nos cegar diante da batalha maior, que é a luta por respeito ao torcedor e a democratização de nossos clubes.

Aliás, o debate só tomou este viés arbitrário porque ainda não há uma efetiva participação dos torcedores nos destinos de seus clubes, que sempre foram tratados como monarquias ou capitanias hereditárias.

Diante deste quadro, o Movimento Somos Mais Vitória (MSMV) vem a público conclamar os torcedores de todos os clubes à luta, inclusive judicial, para que o futebol seja motivo de orgulho - não de vergonha. Vamos continuar defendendo nossas cores, mas sem perder a perspectiva da batalha cotidiana por cidadania e respeito. É hora de o torcedor fazer história."

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