Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Marcello Simão Branco, co-criador do Anuário Brasileiro de Ficção Científica, acaba de lançar a segunda antologia organizada por ele: Assembléia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (Devir). Doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo, Branco reuniu uma seleção de autores internacionais para este projeto: Bruce Sterling (Estados Unidos), Ursula K. Le Guin (EUA), Fernando Bonassi, Orson Scott Card (EUA), André Carneiro, Henrique Flory, Flávio Medeiros Jr., Ataíde Tartari, Daniel Fresnot, Carlos Orsi, Roberto de Sousa Causo, Miguel Carqueija, Luís Filipe Silva (Portugal) e Roberval Barcellos.
De onde surgiu o projeto de uma antologia sobre ficção científica política?
Desde quando tomei conhecimento da existência de uma antologia semelhante nos Estados Unidos. Organizado pelo escritor Isaac Asimov e pelo antologista e cientista político Martin H. Greenberg, Election Day 2084: Science Fiction Stories About the Politics of the Future, de 1984. O livro aborda vários temas da política do ponto de vista da ficção científica, especulando sobre cenários futuros, principalmente em relação às eventuais transformações institucionais ou também recontando fatos do passado do país. Chama a atenção nesse livro a abordagem prioritária dos meios e não dos fins da política; isto é, as histórias especulam mais sobre aspectos de regras e processos decisórios da democracia, do que em sistemas políticos ideologicamente alternativos a ela. Isso faz sentido se pensarmos que o imaginário político norte-americano está norteado unicamente pela existência da democracia, em toda sua história independente. Nomes consagrados do gênero participam, como o próprio Asimov, Arthur C. Clarke, Robert A. Heinlein, Frederik Pohl e Frank Herbert. A partir daí pensei que seria possível realizar algo semelhante aqui no Brasil, aproveitando o meu duplo interesse em ficção científica e ciência política e tomando por gancho um aspecto jornalístico, as eleições gerais do país em 2010.
Esta é a segunda antologia que você organiza. Como foi a experiência?
Quando organizei Outras Copas, Outros Mundos, de 1998, me inspirei na relação entre dois campos importantes para mim: futebol e ficção científica. E a segunda antologia, Assembleia Estelar, seguiu esta mesma motivação inicial. Mas vejo a inspiração de ambas mais como uma coincidência. Outro aspecto semelhante entre as duas é que tomei por base a comunidade de escritores de FC&F brasileira para fazer os convites para o envio de histórias a serem selecionadas. Em 1998, fui mais restrito a este universo, mas agora houve uma ampliação, pois além dos cerca de quarenta autores convidados, convidei também alguns autores do mainstream literário. Posso dizer que nesta segunda experiência recebi muito mais histórias do que na primeira. Quase todos os convidados enviaram histórias, e a maioria arriscou escrever um texto novo, o que só demonstra a grande receptividade do projeto, o oposto da primeira antologia, quando tive dificuldades em convencer alguns autores a participar. Um benefício que espero colher com Assembleia Estelar em relação à primeira antologia, é que tive muito mais tempo para analisar trabalhos e recomendar modificações em alguns deles. Inicialmente pretendia publicar só textos inéditos, mas cheguei à conclusão de que a FC brasileira já havia produzido alguns trabalhos muito bons e não teria por que desconsiderá-los, principalmente em comparação com algumas das histórias inéditas que recebi. Outro aspecto gratificante é que agora pude contar com a inclusão de histórias de autores estrangeiros, o que só enriqueceu o livro, tanto pelos autores, como pelos textos de qualidade que selecionamos. Também foi uma experiência nova trabalhar a edição do livro sob a retaguarda e estrutura de uma editora maior, como a Devir.
Fale da sua formação em Ciência Política.
Tenho mestrado e doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Meu interesse por política vem desde a adolescência, que coincidiu com o período de transição da ditadura militar para a democracia no Brasil. Entrei na USP em 1989 para cursar Ciências Sociais e me deparei com um momento único: o ano do fim das certezas ideológicas - com a queda do Muro de Berlim e o súbito e incrível desaparecimento do socialismo nos países do Leste Europeu -, e o ano da primeira eleição presidencial no Brasil depois de 29 anos. Se eu já tinha interesse no assunto, o momento histórico só o consolidou dentro da universidade. Apesar disso, só fiz mestrado e doutorado alguns anos depois de concluir a graduação. Acredito que isso tenha sido positivo, pois pude viver outras experiências profissionais - trabalhei como jornalista, outra formação que obtive -, e amadurecer para o desafio de cursar uma pós-graduação. Meu mestrado foi concluído em 2002 com uma dissertação sobre as teorias que discutem o processo de transição e consolidação da democracia na América Latina, que tempos depois resultou no livro Democracia na América Latina: Os Desafios da Construção: 1983-2002, publicado em 2007, com atualizações. Já no doutorado, defendido também em 2007, eu me concentrei em algumas características institucionais da jovem democracia brasileira, do ponto de vista do federalismo durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Este governo foi vital para as relações federativas, pois modificou a descentralização política e fiscal garantida na Constituição de 1988, recentralizando parte destas relações entre a União e os estados, a partir do Plano Real. O capítulo principal, que investigou o comportamento dos senadores - que são os representantes das unidades federativas, os estados - em votações de emendas constitucionais sobre a distribuição de recursos fiscais entre a União e os estados com o objetivo de verificar se votaram a favor dos estados ou da União, foi publicado no livro O Senado Federal Brasileiro no Pós-Constituinte, organizado por Leany Barreiro Lemos, para as Edições Unilegis de Ciência Política, do Senado Federal, em 2008. Desde então tenho mantido minhas áreas de interesse nos processos de democratização em andamento e no federalismo, uma instituição de interesse principal. Mais recentemente, também tenho acompanhado temas relacionados à política internacional, em virtude de minha docência no curso de "Relações Internacionais", na Universidade Paulista, em São Paulo.
Na introdução do livro você trata do assunto política dentro da história da ficção científica brasileira. O que você destacaria?
A existência de algumas tendências de interpretação do país, de acordo com cada momento histórico, ainda que de maneira nem sempre profunda. Na primeira metade do século passado, a construção de sistemas políticos autoritários que, de alguma maneira, colocariam o Brasil em uma condição especial no cenário mundial, aliado ao tema da miscigenação do brasileiro, que era visto como um "problema" a ser resolvido. Nos anos 60, de um lado, a tendência de preocupação com a transformação modernizadora do país sem, contudo, resolver as desigualdades sociais, mas aprofundando-as; e de outro, sobre a possibilidade de um holocausto nuclear, um tema de inegável dramaticidade, a partir de uma perspectiva mais universal, pois era um assunto que a todos interessava. Nos anos 70, as chamadas distopias críticas ao regime militar, à crescente tecnocracia que imperava no país e nascentes preocupações ecológicas e feministas. E a partir dos anos 80, a política dentro da FC brasileira tem assumido contornos mais variados e difusos, sem uma clara prevalência temática, talvez a mais significativa, os temas relacionados à história alternativa com alguns bons momentos, mas que, em si, pouco discutem problemáticas contemporâneas. Esta variabilidade em certo sentido é positiva porque demonstraria que a democracia se normalizou como forma de organização política da sociedade; e por outro seria negativa, porque grandes contradições sociais e problemas históricos recentes do país poderiam receber um tratamento especulativo mais denso e recorrente, como as questões ambientais e sociais de um lado, e o legado de duas décadas de autoritarismo militar, de outro. Pois se o regime é democrático em suas regras de representação, participação e liberdade de expressão, continua autoritário no que diz respeito à ação de agentes do Estado, em especial os de segurança pública e de setores do Judiciário. Nesse sentido, acredito que Assembleia Estelar traz novas contribuições interessantes e, além disso, poderá incentivar a criação de mais histórias de FC política no país. A perspectiva da ficção especulativa é privilegiada, pois trabalha com a metáfora e com a atemporalidade. Num cenário social e histórico como o do Brasil, um país jovem e em processo de construção e desenvolvimento como poucos no mundo, as possibilidades de criação e reflexão são inúmeras e, se bem realizadas, podem, sim trazer uma contribuição útil para se compreender as contradições e desafios que nos esperam. Por exemplo, que desafios aguardam o Brasil quanto à biodiversidade na Amazônia e as descobertas de petróleo no pré-sal?
Que afinidades você enxerga entre esse gênero literário e a especulação política, e que deficiências um cientista político veria, no modo como o gênero aborda a política?
As afinidades vinculam-se à construção e especulação sobre outras sociedades, desde utopias, até possibilidades de sistemas políticos novos ou com inovações para o futuro. A FC é um gênero que busca, desde os textos utópicos que o precederam, imaginar outras formas das pessoas se organizarem em sociedade e viverem de maneiras diferentes, idealmente com mais virtude e prosperidade. Por outro lado, outra vertente é a da crítica e especulação sobre possíveis regimes totalitários e de terror, que já existiram e poderiam voltar a ocorrer. Numa época de pobreza ideológica como a nossa, a FC poderia instigar o imaginário político com novas especulações. De uma forma mais concreta, a FC pode iluminar tendências perniciosas da sociedade contemporânea - como o consumismo e a apatia pela política -, de forma a alertar que se tornem uma ameaça à liberdade. Contudo, algumas dessas especulações por vezes se fiam em lugares-comuns ou em avaliações superficiais para imaginar cenários futuros. Carecem de verossimilhança do ponto de vista da análise política. Mas, claro, estamos falando de literatura, de criação e em tese, tais ideias poderiam vingar, além da FC não estar obrigada a uma análise muito rigorosa do ponto de vista político. Mesmo assim, uma postura mais madura e aprofundada de alguns temas só ajudaria a tornar o enredo e suas possíveis consequências mais ricas, do ponto de vista da especulação política. Um exemplo, entre muitos, relaciona-se à condição do Estado que, em grande parte das histórias de FC contemporânea, não é mais do que uma presa fácil de interesses de corporações privadas ou do crime organizado. Apesar das mudanças no papel do Estado a partir da globalização, é ainda a única e mais eficaz instituição no plano interno e externo de um país. Só ele tem o poder exclusivo e legítimo da coerção física e fiscal, e soberania dentro e fora de seu território. Uma corrente promissora que a FC poderia explorar mais é a das possíveis inovações institucionais na democracia, já que ela é a forma de regime que, felizmente, prevalece no mundo de hoje. É um campo aberto a muitas experimentações e poderia trazer algumas soluções interessantes a problemas de representação e participação dentro da sociedade contemporânea, bem como do controle sobre a ação dos governantes.
No livro temos histórias brasileiras e outras escritas por um português e vários americanos. Há alguma distinção perceptível entre a abordagem nacional e a estrangeira?
É difícil estabelecer esse tipo de diferenciação. Em todo caso, nas histórias de autores estrangeiros os temas tratam mais de transformações de regimes e ideologias políticas. A exceção é Bruce Sterling, que discute a condição futura da liderança norte-americana no cenário mundial. Os brasileiros, em geral, preocupam-se com a história política brasileira, a tensão entre ditadura e democracia, as relações externas com vizinhos, a desigualdade social, questões ambientais e corrupção, todos temas importantes para a vida nacional, que calam fundo em nosso imaginário e que, de certa maneira, continuam relevantes, dada a trajetória frágil da democracia e dos vários problemas sociais ainda longe de serem resolvidos.
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Divulgação
Reprodução da capa do livro
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