Atualizada às 08h23 Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Alguns leitores podem ter estranhado as grafias exageradas que incluí na coluna da semana passada. Mas nada como encontrar pessoas para convencer-se de que o exagero não era muito grande. Por exemplo: fui a Maringá e autografei um livro para uma Haline. Aliás, sempre pergunto, em ocasiões assim, se os nomes têm H ou Y, e, muitas vezes, têm!
Mas nomes estranhos são ainda mais comuns do que se pensa (um leitor apresentou uma boa lista em seu comentário). O Estadão de 13.03.2011 (Caderno C, p. 5) publicou matéria sobre um senhor que deu a seus filhos os nomes de Xerox, Fotocópia e Autenticada; e estes que têm um sobrinho chamado Carimbo!
De onde vêm os nomes? A reportagem informava que o aludido senhor queria dar nomes diferentes a seus filhos e que se inspirou no que viu em um cartaz exposto no cartório... Mas os nomes "familiares" vêm de duas ou três fontes básicas (fico no Brasil): têm relação com a história familiar (avós, tios, irmãos falecidos ao nascer), ou com a religião (nomes de santos são muito comuns) ou com representações imaginárias (nomes americanizados ou afrancesados, nomes de ídolos do cinema, da televisão, dos esportes etc.). Nomes de santos e de ídolos são comuns (personagens de novela entraram na lista nos últimos 30 anos).
Mas essa relação com a história não se dá apenas quando se trata de nomes de pessoas. Os critérios são semelhantes quando se trata de nomes de cidades e de suas ruas. Basta ver os duques, marechais e presidentes, sem contar nomes de cidadãos célebres apenas em suas cidades; às vezes, tristemente célebres. E os nomes das estradas? Há pouco tempo (ufa!), mudou-se o nome da estrada que liga Campinas a Paulínia. Chamava-se Milton Tavares de Souza, um general da pesada do tempo da ditadura, e passou a se chamar Zeferino Vaz, que não era nenhum santo, mas, comparado com o general, era um anjo.
Na Bahia, Eduardo Magalhães virou nome de muita coisa: do aeroporto de Salvador (em vez de 2 de Julho, data da independência da Bahia!), de muitas ruas e escolas espalhadas pelo estado e, pelo menos, de uma cidade.
Uma lei proíbe dar nomes de pessoas vivas a cidades, ruas, estradas etc. No Paraná, a lei foi driblada de forma espetacular: para homenagear Ney Braga, chamaram uma cidade de Braganey!
Na região central Belo Horizonte, uma série de ruas têm nomes de estados brasileiros. Achei muito interessante, quando vi (dormi muito na rua Piauí, salvo engano). E S. Paulo deu nome de tribos indígenas ou de tribos a diversas ruas: Caiubi, Caraíbas, Apiacás, Bartira, Cayowaá... Gosto muito de todos esses nomes.
Alguns nomes se repetem muito. Em geral, nas listas de mulheres há muitas Marias (pela primeira vez, que eu lembre, não havia nenhuma na lista de mais de 20 alunas, em uma turma a que dei aulas no ano passado. Em compensação, havia quatro Camilas, fenômeno que elas mesmas não sabiam explicar).
Religiões ajudam muito na escolha de nomes. Católicos escolhem nomes de santos, judeus escolhem nomes bíblicos (embora não só eles; conheço Esteres e Judites que não são judias, mas não conheço nenhum Abraão entre os gentios). Por que Chomsky se chama Noam Avram? Fácil, fácil. Se você não sabe nada sobre ele, logo descobre pelo menos um fato: é de família judaica. O nome é um fortíssimo indício.
Há nomes que pesam. Os de antepassados com história suja, por exemplo. Mas herdar o nome de um irmão que morreu ainda criança também não é engraçado. Ou o de algum gênio que nunca será igualado, seja um artista, seja um esportista (carregar nomes como Rivelino ou Zidane e ser um perna de pau não deve ser fácil). Conheci uma Edilamar, quando eu era criança (claro que seu nome era uma homenagem a Hedy Lamarr, atriz que fez Dalila quando Victor Mature era Sansão. Foi vendo os créditos, em alguma semana santa, que descobri a ligação).
Voltando aos nomes que pesam: Althusser conta em sua autobiografia (O futuro dura muito tempo. São Paulo: Companhia das Letras - recomendo demais!) que recebeu o nome daquele que deveria ter sido o esposo de sua mãe, mas que morreu na guerra antes de casarem. A moça casou com um irmão do falecido (coisas da tradição; ah, as famílias!). Assim que nasceu o primeiro filho, deram-lhe o nome do morto que deveria ter sido o esposo de sua mãe. O nome era Louis, parecido com lui (uma flexão de ele, em francês), o que fazia com que seu nome significasse, de alguma forma, ele. Althusser conta também que havia um certo senhor Lemaitre (le mettre...) na sua vida. Uma coisa bem fálica! Depois as pessoas enlouquecem e nos perguntamos o que é que aconteceu!
Meu próprio nome, soube já adulto, era o de um navio que afundou. Levava migrantes italianos para os Estados Unidos. Cem deles, e um era bispo. Na minha cidadezinha há pelo menos cinco portadores deste nome. É uma homenagem, claro, mas por que eu tinha que estar entre os escolhidos? Às vezes, digo, brincando (mas nem tanto), que não é à toa minha vida é dura! Carrego um peso que não precisaria estar carregando. Não tenho nada a ver com os 100 naufragados! A vida poderia ser bem mais leve, eu penso, se meu nome fosse um tributo a Sirius, a estrela de primeira grandeza. Ou seria ainda mais complicado? Eu teria que brilhar?