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Domingo, 20 de março de 2011, 09h29

A grande ousadia

Roberto de Souza Causo
De São Paulo

O mundo da literatura é composto de vários aspectos: hábitos de leitura (a esfera individual), mercado literário (a esfera profissional), crítica e teoria (parcialmente, a esfera acadêmica), e as Questões Literárias.

As Questões Literárias compreendem as esferas do escritor e também do crítico, mas costumam se envolver com todos os outros aspectos. Questões Literárias impulsionam movimentos e escolas literárias, e se manifestam das disputas de um grupo em relação a outros, nas discussões sobre os caminhos da literatura e nas tentativas de questioná-la ou renová-la.

De vez em quando surge uma Grande Questão Literária que tem o potencial de mudar as coisas, arrastando todas as esferas com ela - obrigando a crítica e a teoria a se posicionarem, balançando o mercado literário e mudando os hábitos de leitura. Aquelas questões que vieram no bojo do movimento modernista brasileiro, por exemplo, foram um desses maremotos literários que mudam tudo, no seu rastro.

A história da ficção científica no Brasil também registra as suas Questões Literárias. A primeira provavelmente foi o debate sobre a legitimidade do gênero, entre 1957 até meados da década de 1970, um debate conduzido nas páginas dos prestigiosos cadernos de cultura da época, especialmente o "Suplemento Literário" do O Estado de S. Paulo. Envolveu figuras de importância na cena literária da época, como Mário da Silva Brito, Antonio Olinto, João Camilo de Oliveira Torres, Laís Corrêa de Araújo e André Carneiro a favor dessa legitimidade, e Otto Maria Carpeaux, Wilson Martins, Alcântara Silveira e Muniz Sodré, contra. Essa foi, pode-se dizer, a principal Questão Literária característica da Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1958-1972).

A principal Questão Literária da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (iniciada em 1982) foi a necessidade (ou não) de se renovar a FC nacional pela promoção da sua brasilidade, tanto temática, quanto no seu diálogo com a tradição literária modernista, e na rejeição dos clichês e fórmulas da FC anglo-americana. O escritor paulista Ivan Carlos Regina, e o seu "Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira", esteve no centro dessa questão, que gerou um pequeno debate no seio do fandom, em reuniões de fãs e nas páginas de fanzines como Somnium, Megalon e Papêra Uirandê. (O manifesto foi recentemente disponibilizado no É só Outro Blogue, de Tibor Moricz:

http://esooutroblogue.wordpress.com/2011/03/11/diga-nao-a-dominacao-cultural-imperialista. Veja também, no mesmo blog, uma entrevista com Regina:

http://esooutroblogue.wordpress.com/2011/03/15/quem-e-ivan-carlos-regina). Finalmente, em abril de 2009, o escritor Luiz Bras lançou - com o ensaio "Convite ao Mainstream", na coluna "Ruído Branco", mantida por ele no Rascunho: O Jornal Literário do Brasil - uma Questão Literária das mais relevantes para a história do gênero em nosso país. Talvez até mesmo para a literatura braseira como um todo.

Bras abre com a audácia de denunciar um fato bastante evidente, mas mantido abafado por todos os agentes do nosso sistema literário, sejam eles críticos, autores ou editores: "Os heróis da prosa de ficção brasileira estão cansados. Entediados. Sem motivação. Eles não agüentam mais viver sempre as mesmas manjadas situações. Faz pelo menos vinte anos (ou mais) que sua rotina não muda. Não importa se esses heróis pertencem à fileira dos conservadores ou dos transgressores. ... O problema com a prosa de ficção contemporânea é que as categorias dos grandes autores canonizados têm sido reproduzidas insistentemente pelos prosadores contemporâneos, quase sempre de modo diluído. Em toda parte, ano após ano, narradores parecidos com os de Clarice têm interagido com personagens parecidas com as de Clarice num oceano lingüístico parecido com o de Clarice. Você pode até mudar o nome do autor por Rosa, Joyce, Kafka, Cortázar, Bukowski ..., que a equação continuará a mesma."

A essa ousadia, sobrepõe-se uma outra, ainda maior: Bras propõe que justamente a ficção científica teria potencial para renovar a literatura brasileira: "Os temas da ficção científica são a semente desses guerreiros que, ao fecundarem a prosa cansada e decadente do mainstream, ajudarão a gerar contos, novelas e romances mais consistentes, menos artificiais."

É claro, a ficção científica (e outros gêneros) não passam sem discutir sua relação com a ficção literária (ou mainstream). Isso certamente estava sob a superfície do debate da Primeira Onda, e durante a Segunda a necessidade da FC brasileira se "abrir" para o mainstream para poder evoluir, foi uma questão menor, promovida principalmente por Braulio Tavares e Fábio Fernandes. Dizer o contrário - que o mainstream precisa se abrir para a FC -, em um fórum identificado com o mainstream, é ousadia sem precedentes.

Na coluna de maio, Bras deu continuidade ao debate, oferecendo o espaço da "Ruído Branco" para o meu ensaio "Um Bárbaro que se Preze não Vem para o Chá das Cinco", e, mais tarde, em abril de 2010, para que nomes da FC e do mainstream opinassem: Ana Cristina Rodrigues, José Castello, Almir Bettega, Braulio Tavares, Fábio Fernandes, Guilherme Kujawski, Marcello Simão Branco e Tibor Moricz.

Aqui mesmo, nesta coluna, solicitei novas contribuições, no "Colóquio Convite ao Mainstream" (em 4 de julho de 2009 e em 1.º de agosto de 2009), incluindo comentários de autores, blogueiros e jovens acadêmicos como Elton Furlanetto e Marcos Vilela.

Outros setores da comunidade de ficção científica, porém, têm mantido um silêncio cuidadoso quanto à questão (talvez, em parte ao menos, para preservar as suas próprias questões literárias, dentro do fandom). Não é o caso de Cesar Silva e Marcello Simão Branco, os editores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, que anunciaram há pouco que Luiz Bras será a Personalidade do Ano de 2010, honraria que eles conferem anualmente.

Seria mais correto, porém, dizer que Luiz Bras e Nelson de Oliveira serão a Personalidade do Ano, já que o primeiro é pseudônimo do segundo, algo que Nelson nunca ocultou.

Recentemente, a Terracota Editora publicou o primeiro livro de contos de Luiz Bras, Paraíso Líquido (2010), que resenhei aqui em 19 de junho de 2010, chamando-o de "O livro de contos mais radical e potencialmente transformador, a surgir na FC brasileira desde A Espinha Dorsal da Memória (1989), de Braulio Tavares, e O Fruto Maduro da Civilização (1993), de Ivan Carlos Regina".

Agora a Terracota lança um livro de ensaios de Bras, Muitas Peles (fevereiro de 2011, 128 páginas, http://www.terracotaeditora.com.br), livro que, assim como Paraíso Líquido, recebeu apoio do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo. (Os dois, inclusive, têm arte de capa temática assinada por Teo Adorno.)

Muitas Peles é composto de textos extraídos justamente da coluna "Ruído Branco", e, como Bras é a persona de Nelson de Oliveira voltada para a ficção científica e o infanto-juvenil, são desses campos que os ensaios tratam, preferencialmente. Há na maioria deles um questionamento do status quo da alta literatura nacional, também presente na curta introdução: "O tempo das escolas analíticas na crítica literária - de expressão estruturalista, sociológica, psicanalítica, pós-modernista etc. - também é coisa do passado? Tudo indica que sim. Hoje, a multiplicidade de enfoques e ferramentas analíticas indica que também a crítica é composta de muitas vozes, muitos olhares, muitas peles." Um questionamento que pode muito bem estar por trás da decisão de Nelson de Oliveira de se voltar para a ficção científica.

Os textos mostram o quanto Bras/Oliveira é um adepto da forma ensaio, que ele exerce de maneira erudita e acessível, inteligente e bem-informada, com invejável didática quanto aos assuntos literários, e aberta a modos incomuns de abordar e interessar o leitor.

Em Muitas Peles o leitor também encontrará todos os textos pertinentes à Questão Convite ao Mainstream. O livro tem por isso a chance de lançar um segundo round de discussões, que também serão, com certeza, impulsionadas pela entrevista de Bras/Oliveira a sair no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2010.

É muito difícil dizer se "Convite ao Mainstream" será a principal questão literária da Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira, menos ainda se ela conseguirá ser uma daquelas "grandes" com potencial transformador das relações dentro de um sistema literário. Mas certamente todo interessado em ficção científica no Brasil deveria acompanhá-la e refletir sobre ela, algo que o lançamento de Muitas Peles vem facilitar.

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Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
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